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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Olhos no mar,
areia nas
mãos
Os
mistérios de
Getúlio Vargas,
personagem
que
se oferece à
la carte a quem dele se queira servir
Não
havia poluição na Baía de Guanabara naquele
tempo. Muito menos havia o Piscinão de Ramos. Estamos em
julho de 1952, e a Praia de Ramos, situada no caminho do Rio de
Janeiro dos subúrbios, é um lugar aprazível.
Não tem o encanto das praias da Zona Sul nem é lugar
para ricos e poderosos, como Copacabana, mas oferece condições
para um honesto banho de mar. É sábado, faz sol. Vai
se dar, nesse ambiente, um episódio extraordinário,
relatado no livro recentemente lançado pelo jornalista Flávio
Tavares, O Dia em que Getúlio Matou Allende (Editora
Record).
Um carro
estacionado em frente à praia provoca um princípio
de alvoroço. "Será ele? Sim, é ele." Ninguém
menos que o presidente da República, Getúlio Vargas,
descia do carro e, de terno e gravata, caminhava em direção
à praia. As pessoas rapidamente procuravam disfarçar
a seminudez dos maiôs com as peças de roupa de que
conseguiam lançar mão. Como se era respeitoso e pudico
em 1952! Os próprios presidentes da República, em
anos posteriores, não se incomodariam em se deixar fotografar
em calção de banho. Naquele tempo, o presidente vinha
de terno à praia, e as pessoas, mesmo que estivessem entregues
à folga de um fim de semana à beira-mar, sentiam-se,
ao divisá-lo, na obrigação de se comporem.
Acompanhado
pelo grupinho que descera com ele, Getúlio avançou
areia adentro, sorrindo. Em seguida, narra Flávio Tavares,
que presenciou a cena, ordenou alguma coisa e o grupinho se afastou.
Ele ficou sozinho, "longos minutos em silêncio", olhando o
mar. Depois, abaixou-se, agarrou um punhado de areia e deixou-a
deslizar-lhe pelos dedos. Alguns curiosos, devidamente cobertos,
tinham se aproximado. O presidente despediu-se de um a um, deu as
costas e voltou para o automóvel. As pessoas desvencilharam-se
dos trapos que lhes haviam socorrido a pudicícia e voltaram
à escassez dos trajes de banho.
O que há
de extraordinário nessa cena é que ela não
tem nada de extraordinário. O presidente nela se apresenta
sem a pompa do poder. Permite-se um momento de homem comum. E, no
entanto, quanto mistério naquele singelo desejo de parar
um momento em frente ao mar e sentir a areia nas mãos. Getúlio
tinha então 69 anos. Estava no segundo ano de seu segundo
período como presidente, e a dois anos e um mês de
encontrar no suicídio a solução para o beco
em que os inimigos haveriam de emparedá-lo. Naquele sábado,
ele sentiu por que será? necessidade de, por
um instante que fosse, deter-se só na praia, tendo diante
dos olhos a imensidão do mar e a experimentar, nas mãos,
a pequenez da areia, antes de seguir caminho.
Faz cinqüenta
anos, neste mês, que Getúlio Vargas se deu um tiro
no coração. Ele continua a figura política
dominante da história da República, e tem como característica
marcante o fato de ofertar-se aos pedaços a quem queira dele
se servir. Uns escolhem o líder nacionalista, com posições
"de esquerda". Mas se trata do mesmo homem que combateu duramente
os comunistas, na década de 1930, e enamorou-se do fascismo,
que vivia dias de glória na Europa, a ponto de copiar-lhe
certos ritos. Outros louvam o espírito democrático
com que cumpriu o mandato conquistado em 1950. Mas na encarnação
anterior ele fora o ditador cujo regime deportou Olga Benario para
a Alemanha, onde morreria nos campos de concentração
nazista, e patrocinou o infame ciclo de prisões e tortura
de que uma das vítimas, Graciliano Ramos, daria testemunha
num grande livro, Memórias do Cárcere.
Não
há um Getúlio inteiro. Compô-lo inteiro demandaria
a tarefa impossível de acomodar no mesmo corpo o fascista
e o simpatizante de teses de esquerda, o amável "velho" de
que falava o povo e o ditador, o retrógrado da censura, do
centralismo e do peleguismo e o modernizador da legislação
trabalhista e da industrialização. Getúlio
oferece-se à la carte. Pega-se nele o que bem se entende.
Numa visão cínica, a soma de tão variadas facetas
levaria à conclusão de que foi, antes de mais nada,
um incomparável surfista do poder. Uma visão benevolente
concluiria por um homem dotado da sábia percepção
das mudanças e exigências de seu tempo, às quais
conseguia se antecipar e se adaptar.
A persona
política multifacetada ressalta o mistério em torno
do homem Getúlio Vargas. Já os contemporâneos
o percebiam como indecifrável. Flávio Tavares relata,
em seu excelente livro, carregado de preciosidades sobre o período
anterior ao golpe de 1964, que uma vez, criança, foi levado
pelos pais a um baile em Porto Alegre, em homenagem a Getúlio.
Anos depois, ele perguntaria à mãe se Getúlio
dançou naquele baile. "Ah, tu achas que Getúlio iria
se expor a dançar com alguém em público?",
replica a mãe. Ele nunca se expunha. A não ser, segundo
Tavares, no momento final, quando, com o tiro, se expôs "de
alto a baixo". É um ponto de vista. Mas também se
pode interpretar o suicídio como o reforço supremo
ao mistério de sua pessoa. Esse homem continua a confundir-nos
como na cena da Praia de Ramos, os olhos no mar, a areia nas mãos.
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