Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Olhos no mar,
areia
nas mãos

Os mistérios de Getúlio Vargas,
personagem que se oferece à
la carte a quem dele se queira servir

Não havia poluição na Baía de Guanabara naquele tempo. Muito menos havia o Piscinão de Ramos. Estamos em julho de 1952, e a Praia de Ramos, situada no caminho do Rio de Janeiro dos subúrbios, é um lugar aprazível. Não tem o encanto das praias da Zona Sul nem é lugar para ricos e poderosos, como Copacabana, mas oferece condições para um honesto banho de mar. É sábado, faz sol. Vai se dar, nesse ambiente, um episódio extraordinário, relatado no livro recentemente lançado pelo jornalista Flávio Tavares, O Dia em que Getúlio Matou Allende (Editora Record).

Um carro estacionado em frente à praia provoca um princípio de alvoroço. "Será ele? Sim, é ele." Ninguém menos que o presidente da República, Getúlio Vargas, descia do carro e, de terno e gravata, caminhava em direção à praia. As pessoas rapidamente procuravam disfarçar a seminudez dos maiôs com as peças de roupa de que conseguiam lançar mão. Como se era respeitoso e pudico em 1952! Os próprios presidentes da República, em anos posteriores, não se incomodariam em se deixar fotografar em calção de banho. Naquele tempo, o presidente vinha de terno à praia, e as pessoas, mesmo que estivessem entregues à folga de um fim de semana à beira-mar, sentiam-se, ao divisá-lo, na obrigação de se comporem.

Acompanhado pelo grupinho que descera com ele, Getúlio avançou areia adentro, sorrindo. Em seguida, narra Flávio Tavares, que presenciou a cena, ordenou alguma coisa e o grupinho se afastou. Ele ficou sozinho, "longos minutos em silêncio", olhando o mar. Depois, abaixou-se, agarrou um punhado de areia e deixou-a deslizar-lhe pelos dedos. Alguns curiosos, devidamente cobertos, tinham se aproximado. O presidente despediu-se de um a um, deu as costas e voltou para o automóvel. As pessoas desvencilharam-se dos trapos que lhes haviam socorrido a pudicícia e voltaram à escassez dos trajes de banho.

O que há de extraordinário nessa cena é que ela não tem nada de extraordinário. O presidente nela se apresenta sem a pompa do poder. Permite-se um momento de homem comum. E, no entanto, quanto mistério naquele singelo desejo de parar um momento em frente ao mar e sentir a areia nas mãos. Getúlio tinha então 69 anos. Estava no segundo ano de seu segundo período como presidente, e a dois anos e um mês de encontrar no suicídio a solução para o beco em que os inimigos haveriam de emparedá-lo. Naquele sábado, ele sentiu – por que será? – necessidade de, por um instante que fosse, deter-se só na praia, tendo diante dos olhos a imensidão do mar e a experimentar, nas mãos, a pequenez da areia, antes de seguir caminho.

Faz cinqüenta anos, neste mês, que Getúlio Vargas se deu um tiro no coração. Ele continua a figura política dominante da história da República, e tem como característica marcante o fato de ofertar-se aos pedaços a quem queira dele se servir. Uns escolhem o líder nacionalista, com posições "de esquerda". Mas se trata do mesmo homem que combateu duramente os comunistas, na década de 1930, e enamorou-se do fascismo, que vivia dias de glória na Europa, a ponto de copiar-lhe certos ritos. Outros louvam o espírito democrático com que cumpriu o mandato conquistado em 1950. Mas na encarnação anterior ele fora o ditador cujo regime deportou Olga Benario para a Alemanha, onde morreria nos campos de concentração nazista, e patrocinou o infame ciclo de prisões e tortura de que uma das vítimas, Graciliano Ramos, daria testemunha num grande livro, Memórias do Cárcere.

Não há um Getúlio inteiro. Compô-lo inteiro demandaria a tarefa impossível de acomodar no mesmo corpo o fascista e o simpatizante de teses de esquerda, o amável "velho" de que falava o povo e o ditador, o retrógrado da censura, do centralismo e do peleguismo e o modernizador da legislação trabalhista e da industrialização. Getúlio oferece-se à la carte. Pega-se nele o que bem se entende. Numa visão cínica, a soma de tão variadas facetas levaria à conclusão de que foi, antes de mais nada, um incomparável surfista do poder. Uma visão benevolente concluiria por um homem dotado da sábia percepção das mudanças e exigências de seu tempo, às quais conseguia se antecipar e se adaptar.

A persona política multifacetada ressalta o mistério em torno do homem Getúlio Vargas. Já os contemporâneos o percebiam como indecifrável. Flávio Tavares relata, em seu excelente livro, carregado de preciosidades sobre o período anterior ao golpe de 1964, que uma vez, criança, foi levado pelos pais a um baile em Porto Alegre, em homenagem a Getúlio. Anos depois, ele perguntaria à mãe se Getúlio dançou naquele baile. "Ah, tu achas que Getúlio iria se expor a dançar com alguém em público?", replica a mãe. Ele nunca se expunha. A não ser, segundo Tavares, no momento final, quando, com o tiro, se expôs "de alto a baixo". É um ponto de vista. Mas também se pode interpretar o suicídio como o reforço supremo ao mistério de sua pessoa. Esse homem continua a confundir-nos como na cena da Praia de Ramos, os olhos no mar, a areia nas mãos.

 
 
 
 
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