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Diogo
Mainardi
Ayrton Senna, o banal
"As banalidades de
Senna eram pronunciadas de maneira pausada, meditada.
A seus
interlocutores, gente acostumada a discorrer
apenas sobre motores e pistas, podiam
até dar a falsa impressão de profundidade"
O Brasil é ruim. Poderia ser pior. Frank
Williams, dono de uma escuderia de automobilismo, disse recentemente
que Ayrton Senna sonhava em se eleger presidente da República.
Como se não bastasse nosso atual presidente.
Reli velhas entrevistas de Senna para tentar
adivinhar como seria sua eventual administração. A
matéria é vaga. Inegavelmente, ele entendia de motores.
E entendia de pistas. Quando não estava falando de motores
ou pistas, perdia-se em banalidades imprestáveis. Essas banalidades
eram pronunciadas de maneira pausada, meditada. A seus interlocutores,
uma gente acostumada a discorrer apenas sobre motores e pistas,
podiam até dar a falsa impressão de profundidade,
mas permaneciam banalidades. "Se uma pessoa não tem mais
sonhos, perde o sentido de viver. Sonhar é preciso." "A vida
é um presente que Deus nos deu." "O importante é enfrentar
os desafios com grande amor e fé em Deus, porque um dia eles
serão vencidos." "Se quisermos modificar alguma coisa, é
pelas crianças que devemos começar."
Senna não se metia em discussões
políticas. É estranho que ele se imaginasse como presidente
da República. A única declaração com
um certo caráter político que consegui encontrar em
velhas entrevistas soa ridiculamente demagógica: "Os ricos
não podem continuar a viver em ilhas cercadas por um mar
de miséria. Respiramos todos o mesmo ar". Os brasileiros
ricos não vivem em ilhas. Como todo mundo, são assaltados,
raptados e, respirando o mesmo ar que nós, pegam gastroenterite
e meningite.
Os entrevistadores de Senna sempre mencionavam
suas atividades beneficentes, embora ele próprio, como bom
cristão, evitasse ostentá-las. O Instituto Ayrton
Senna, criado depois de sua morte, é bem menos modesto. Proclama
que, até hoje, já atendeu 4 milhões de crianças.
A idéia é que a responsabilidade pelo atendimento
social não é só do governo, mas também
de empresas e do resto da sociedade.
Acaba de ser publicado pela Ediouro um panfleto
provocatório do dramaturgo George Bernard Shaw sobre o assunto,
Socialismo para Milionários. Shaw argumenta que os
milionários devem se recusar a doar seu dinheiro à
caridade, porque ele tem o efeito maléfico de desobrigar
o governo de cumprir sua função. Ou seja, o contrário
do que defende o Instituto Ayrton Senna. O anátema de Shaw
vale para doações tanto a hospitais quanto a escolas
beneficentes. Distribuir esmolas é fácil para um milionário.
Alivia sua consciência e melhora sua posição
social. Ele "compra um crédito moral assinando um cheque".
O instrumento da renúncia fiscal, desconhecido na Inglaterra
vitoriana de Shaw, torna a caridade ainda mais conveniente. Os nossos
milionários podem ganhar o reconhecimento da sociedade sem
ter de enfiar a mão no bolso. A esmola que dão a crianças
pobres, doentes pobres e artistas pobres na verdade nem é
deles, mas de todos os contribuintes. É caridade feita com
o dinheiro alheio. Há até quem se torne milionário
gerindo instituições filantrópicas de educação
e saúde, numa reversão de papéis que certamente
teria intrigado Shaw.
Caro leitor milionário, escute esta
recomendação. Chega de dar esmolas. Pense apenas em
ganhar dinheiro.
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