Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
VEJA on-line
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Diogo Mainardi
Ayrton Senna, o banal

"As banalidades de Senna eram pronunciadas de maneira pausada, meditada. A seus
interlocutores, gente acostumada a discorrer
apenas sobre motores e pistas, podiam
até dar a falsa impressão de profundidade"


NA INTERNET
Arquivo de áudio, colunas anteriores e outras informações em www.veja.com.br/diogomainardi

O Brasil é ruim. Poderia ser pior. Frank Williams, dono de uma escuderia de automobilismo, disse recentemente que Ayrton Senna sonhava em se eleger presidente da República. Como se não bastasse nosso atual presidente.

Reli velhas entrevistas de Senna para tentar adivinhar como seria sua eventual administração. A matéria é vaga. Inegavelmente, ele entendia de motores. E entendia de pistas. Quando não estava falando de motores ou pistas, perdia-se em banalidades imprestáveis. Essas banalidades eram pronunciadas de maneira pausada, meditada. A seus interlocutores, uma gente acostumada a discorrer apenas sobre motores e pistas, podiam até dar a falsa impressão de profundidade, mas permaneciam banalidades. "Se uma pessoa não tem mais sonhos, perde o sentido de viver. Sonhar é preciso." "A vida é um presente que Deus nos deu." "O importante é enfrentar os desafios com grande amor e fé em Deus, porque um dia eles serão vencidos." "Se quisermos modificar alguma coisa, é pelas crianças que devemos começar."

Senna não se metia em discussões políticas. É estranho que ele se imaginasse como presidente da República. A única declaração com um certo caráter político que consegui encontrar em velhas entrevistas soa ridiculamente demagógica: "Os ricos não podem continuar a viver em ilhas cercadas por um mar de miséria. Respiramos todos o mesmo ar". Os brasileiros ricos não vivem em ilhas. Como todo mundo, são assaltados, raptados e, respirando o mesmo ar que nós, pegam gastroenterite e meningite.

Os entrevistadores de Senna sempre mencionavam suas atividades beneficentes, embora ele próprio, como bom cristão, evitasse ostentá-las. O Instituto Ayrton Senna, criado depois de sua morte, é bem menos modesto. Proclama que, até hoje, já atendeu 4 milhões de crianças. A idéia é que a responsabilidade pelo atendimento social não é só do governo, mas também de empresas e do resto da sociedade.

Acaba de ser publicado pela Ediouro um panfleto provocatório do dramaturgo George Bernard Shaw sobre o assunto, Socialismo para Milionários. Shaw argumenta que os milionários devem se recusar a doar seu dinheiro à caridade, porque ele tem o efeito maléfico de desobrigar o governo de cumprir sua função. Ou seja, o contrário do que defende o Instituto Ayrton Senna. O anátema de Shaw vale para doações tanto a hospitais quanto a escolas beneficentes. Distribuir esmolas é fácil para um milionário. Alivia sua consciência e melhora sua posição social. Ele "compra um crédito moral assinando um cheque". O instrumento da renúncia fiscal, desconhecido na Inglaterra vitoriana de Shaw, torna a caridade ainda mais conveniente. Os nossos milionários podem ganhar o reconhecimento da sociedade sem ter de enfiar a mão no bolso. A esmola que dão a crianças pobres, doentes pobres e artistas pobres na verdade nem é deles, mas de todos os contribuintes. É caridade feita com o dinheiro alheio. Há até quem se torne milionário gerindo instituições filantrópicas de educação e saúde, numa reversão de papéis que certamente teria intrigado Shaw.

Caro leitor milionário, escute esta recomendação. Chega de dar esmolas. Pense apenas em ganhar dinheiro.

 
 
 
 
topovoltar