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Carta ao leitor
O valor da liberdade
de imprensa
Nunca faltaram
na história humana tentativas, algumas bem-sucedidas, de
impedir críticas dirigidas a quem exerce o poder. VEJA traz
nesta edição uma reportagem com depoimentos de dezenas
de brasileiros ilustres indignados com a recente iniciativa do governo
do PT de implantar mecanismos de coerção da imprensa,
da televisão e das atividades culturais no país. Foi
um tiro no próprio pé dado por um governo que começa
a colher os frutos em prosperidade e popularidade de seus acertos
na condução da política econômica. Sem
dúvida, foi também um retrocesso na lenta mas firme
caminhada que o Brasil começou a empreender, nos últimos
dez anos, rumo ao que se define como "sociedade aberta". Esse tipo
de organização social tem como base moral a democracia
e como base material a economia de mercado. Uma sociedade aberta
pressupõe a existência, ou pelo menos a busca, de uma
Justiça eficiente, de instituições e mercados
sadios, de uma classe média numérica e economicamente
forte e de uma imprensa livre. As diferenças entre as sociedades
abertas são de gradação nunca de princípio.
Por isso é fácil reconhecer quando elas são
atacadas, como ocorreu na semana passada.
Em sua
Ética a Nicômaco, o filósofo grego Aristóteles
(384-322 a.C.) produziu a definição clássica
do papel da imprensa. "Alguns poucos cidadãos adquirem o
poder de fazer políticas públicas. Todos, porém,
têm o direito de criticá-las", escreveu o famoso discípulo
de Platão. A sabedoria de Aristóteles está
principalmente em ter estabelecido que os governos e seus críticos,
embora façam parte da mesma sociedade, ocupam nela esferas
inteiramente diferentes. Os primeiros têm o poder. Os segundos,
o direito. Por essa razão, a qualidade da imprensa deve ser
sempre medida por seu grau de independência nas relações
com os governos. Estes são tanto melhores quanto mais preservam
a liberdade de seus críticos. Quem entendeu essa diferença
de papéis com maior clareza foram os autores da Primeira
Emenda à Constituição dos Estados Unidos, em
1791. Os legisladores americanos escreveram simplesmente que é
vedado ao Congresso fazer leis impondo uma religião ou restringindo
a liberdade de expressão e a de imprensa. Ponto. Sem adjetivos.
Sem vacilação.
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