Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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André Petry
O atraso da religião

"É inacreditável, mas o totalitarismo
religioso prefere um embrião no lixo,
jogado nos monturos, a tê-lo sobre
a mesa de um laboratório de pesquisa,
onde pode trazer a cura de doenças..."

Um país não se faz avançado e justo por acaso. A diferença que separa o Brasil da Inglaterra, por exemplo, pode ser explicada por vários aspectos. E um deles está em debate neste exato momento e, em breve, aprofundará ainda mais o fosso que separa brasileiros e ingleses. Trata-se da religião lá e cá e de sua influência sobre os rumos da ciência. Aqui, a religião é poderosa e consegue impor seu tom de atraso ao país. Na Inglaterra, apesar da preponderância de anglicanos, apesar da eterna sangria entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, lá não é a religião que manda – e a ciência então pode avançar. A diferença: na semana passada, numa decisão histórica, a Inglaterra autorizou uma universidade a fazer clonagem humana com fins terapêuticos. Trocando em miúdos, os cientistas da Universidade de Newcastle poderão, por um ano, criar embriões humanos para pesquisar as células-tronco. Os cientistas acreditam que as células-tronco embrionárias, devido a seu espetacular potencial de reprodução e especialização, podem curar doenças hoje irreversíveis como diabetes, Parkinson, esclerose, Alzheimer. É o espetáculo da ciência jogando a favor da vida.

Já no Brasil... Na semana passada, o Senado chegou a um aparente consenso sobre o mesmo assunto. Mas nem se discutiu a clonagem humana com fins terapêuticos. Discutiu-se apenas se os cientistas brasileiros teriam ou não autorização para pesquisar os cerca de 20.000 embriões que já estão nas clínicas de fertilização – e que, como não foram nem podem mais ser fertilizados, serão jogados no lixo. O consenso foi o seguinte: os cientistas brasileiros poderão pesquisar os embriões que, na data de promulgação da lei, estejam congelados há três anos ou mais – mas, quando o estoque de embriões acabar, acabam-se também as pesquisas. Não é a solução ideal, mas é o máximo que a habilidade negociadora da senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) conseguiu. O problema é que nossos religiosos – católicos e evangélicos, mas sobretudo católicos – nem admitem pensar em autorizar a clonagem terapêutica, como fez a Inglaterra. Acham que viola o princípio divino da vida. Também não gostam da idéia da pesquisa limitada aos embriões atuais, mas a toleram. É inacreditável, mas o totalitarismo religioso prefere um embrião no lixo, descartado no meio dos detritos, jogado nos monturos, a tê-lo sobre a mesa de um laboratório de pesquisa, onde pode trazer a cura de doenças...

O Brasil garante a mais ampla liberdade religiosa a seus cidadãos, mas não é uma teocracia. Assim sendo, talvez o mais sensato fosse dar liberdade científica a nossos pesquisadores, mas suas descobertas só seriam usadas por quem não se sentisse agredido em suas convicções pessoais. Há religiões contra a transfusão de sangue, crença que já levou muitos fiéis à morte. Nenhum religioso, nenhum fiel estaria obrigado a usufruir as pesquisas com células embrionárias. Mas não é justo que os religiosos queiram impor a todos, crentes ou não, suas convicções que levam à dor, à doença e às trevas. O projeto que autoriza a pesquisa, limitando-a ao estoque atual de embriões, pode ser votado na última semana de agosto no Senado, se tudo der certo. Até lá, só um milagre poderia mudar as idéias medievais dos crentes. Que se reze, porém, para que a bancada religiosa não invente de barrar até mesmo essa modestíssima proposta que irá a voto.

 
 
 
 
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