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André
Petry
O atraso da religião
"É inacreditável,
mas o totalitarismo
religioso prefere um embrião no lixo,
jogado nos monturos, a tê-lo sobre
a mesa de um laboratório de pesquisa,
onde pode trazer a cura de doenças..."
Um país
não se faz avançado e justo por acaso. A diferença
que separa o Brasil da Inglaterra, por exemplo, pode ser explicada
por vários aspectos. E um deles está em debate neste
exato momento e, em breve, aprofundará ainda mais o fosso
que separa brasileiros e ingleses. Trata-se da religião lá
e cá e de sua influência sobre os rumos da ciência.
Aqui, a religião é poderosa e consegue impor seu tom
de atraso ao país. Na Inglaterra, apesar da preponderância
de anglicanos, apesar da eterna sangria entre católicos e
protestantes na Irlanda do Norte, lá não é
a religião que manda e a ciência então
pode avançar. A diferença: na semana passada, numa
decisão histórica, a Inglaterra autorizou uma universidade
a fazer clonagem humana com fins terapêuticos. Trocando em
miúdos, os cientistas da Universidade de Newcastle poderão,
por um ano, criar embriões humanos para pesquisar as células-tronco.
Os cientistas acreditam que as células-tronco embrionárias,
devido a seu espetacular potencial de reprodução e
especialização, podem curar doenças hoje irreversíveis
como diabetes, Parkinson, esclerose, Alzheimer. É o espetáculo
da ciência jogando a favor da vida.
Já
no Brasil... Na semana passada, o Senado chegou a um aparente consenso
sobre o mesmo assunto. Mas nem se discutiu a clonagem humana com
fins terapêuticos. Discutiu-se apenas se os cientistas brasileiros
teriam ou não autorização para pesquisar os
cerca de 20.000 embriões que já estão nas clínicas
de fertilização e que, como não foram
nem podem mais ser fertilizados, serão jogados no lixo. O
consenso foi o seguinte: os cientistas brasileiros poderão
pesquisar os embriões que, na data de promulgação
da lei, estejam congelados há três anos ou mais
mas, quando o estoque de embriões acabar, acabam-se também
as pesquisas. Não é a solução ideal,
mas é o máximo que a habilidade negociadora da senadora
Lúcia Vânia (PSDB-GO) conseguiu. O problema é
que nossos religiosos católicos e evangélicos,
mas sobretudo católicos nem admitem pensar em autorizar
a clonagem terapêutica, como fez a Inglaterra. Acham que viola
o princípio divino da vida. Também não gostam
da idéia da pesquisa limitada aos embriões atuais,
mas a toleram. É inacreditável, mas o totalitarismo
religioso prefere um embrião no lixo, descartado no meio
dos detritos, jogado nos monturos, a tê-lo sobre a mesa de
um laboratório de pesquisa, onde pode trazer a cura de doenças...
O Brasil
garante a mais ampla liberdade religiosa a seus cidadãos,
mas não é uma teocracia. Assim sendo, talvez o mais
sensato fosse dar liberdade científica a nossos pesquisadores,
mas suas descobertas só seriam usadas por quem não
se sentisse agredido em suas convicções pessoais.
Há religiões contra a transfusão de sangue,
crença que já levou muitos fiéis à morte.
Nenhum religioso, nenhum fiel estaria obrigado a usufruir as pesquisas
com células embrionárias. Mas não é
justo que os religiosos queiram impor a todos, crentes ou não,
suas convicções que levam à dor, à doença
e às trevas. O projeto que autoriza a pesquisa, limitando-a
ao estoque atual de embriões, pode ser votado na última
semana de agosto no Senado, se tudo der certo. Até lá,
só um milagre poderia mudar as idéias medievais dos
crentes. Que se reze, porém, para que a bancada religiosa
não invente de barrar até mesmo essa modestíssima
proposta que irá a voto.
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