Tim Robbins, em Passando
dosLimites: um guerrilheiro contra a poluição
sonora
Passando dos Limites (Noise,
Estados Unidos, 2007. Flashstar) Alarmes de carros,
sirenes de polícia e de bombeiros, britadeiras, apitos:
os ruídos urbanos são a versão particular
do inferno para David (Tim Robbins), o protagonista dessa
comédia de humor negro. Inconformado com a resignação
da massa à violência contra seus ouvidos, ele
decide se tornar uma espécie de guerrilheiro antipoluição
sonora. Numa primeira fase, esvazia pneus de veículos
cujos alarmes disparam; depois, tenta sem sucesso acioná-los
nos tribunais; daí, passa a destruí-los, deixando
mensagens para seus donos. Essa última iniciativa faz
de David, que age incógnito, um herói nova-iorquino.
Mas também leva sua mulher a abandoná-lo, obrigando-o
a pensar numa tática mais efetiva e muito bem
bolada. Indicado a todos que já tiveram de cobrir a
cabeça com o travesseiro para poder dormir.
Os Incompreendidos
(Les Quatre Cents Coups, França, 1959.
Versátil) Em sua estréia na direção,
François Truffaut tirou de dentro de si mesmo o personagem
do menino Antoine Doinel, desprezado pela mãe, internado
num reformatório e aparentemente destinado à
infelicidade completa. Rodado com uma espontaneidade inédita
no cinema, Os Incompreendidos inaugurou a nouvelle
vague e iniciou também uma longa trajetória,
que uniria o diretor, o personagem e seu ator Jean
Pierre Léaud pelas duas décadas seguintes,
em quatro outros filmes. Essa edição traz não
apenas esse primeiro longa como também o média-metragem
Antoine e Colette, episódio de Amor aos 20
Anos e segunda incursão de Truffaut à "biografia"
de Antoine. Outra boa notícia: a esse disco se seguirá
uma coleção dedicada ao cineasta, pela mesma
distribuidora.
LIVRO
Diana Walker/Getty
Images
Anne:
às voltas com a "americanidade"
Em
Busca da América,de
Anne Tyler (tradução de Maria José Silveira;
Record; 320 páginas; 35 reais) Conhecida principalmente
por O Turista Acidental, a americana Anne Tyler fez
da classe média de seu país o seu grande tema.
O novo romance investe na mesma linha, com a diferença
de que, desta vez, a classe média inclui também
os imigrantes. A história acompanha dois casais que
resolvem adotar crianças coreanas os impecavelmente
americanos Brad e Bitsy Donaldson e os exilados iranianos
Sami e Ziba Yazdan. Ironicamente, os Donalson tentam cultivar
a "identidade" coreana da criança, mantendo seu nome
original, Jin-Ho, enquanto os iranianos tentam integrar a
filha adotada à cultura americana. Leia
trecho.
DISCOS
David Drew
Zingg
Vinicius:
poemas na voz do próprio poeta
Vinicius
em Portugal, Vinicius
de Moraes (Festa) Conhecido por suas parcerias musicais,
o poeta Vinicius de Moraes (1913-1980) se revela aqui numa
performance mais intimista. Lançada originalmente em
LP, em 1969, a gravação registra um recital
de Vinicius numa livraria de Lisboa. Com voz pausada, clara,
sem o mínimo derramamento emocional, ele apresenta
dez poemas de várias fases de sua obra, do metafísico
Quarto Soneto de Meditação ao sentimental
mas bem-humorado O Desespero da Piedade. Antes da leitura,
Vinicius faz breves comentários sobre cada poema. Conta,
por exemplo, de seu orgulho por Soneto a Katherine Mansfield
ter inspirado Manuel Bandeira a voltar a escrever sonetos,
depois de um tempo sem se dedicar a essa forma.
Beach
Boys: o som da Califórnia ensolarada
The Warmth of the
Sun, The Beach Boys (EMI) A continuação
da coletânea Sounds of Summer traz mais 28 sucessos
escolhidos pela própria banda, que nos anos 60 foi
responsável por associar a Califórnia a praias,
sol e vida boa na imaginação do público.
The Warmth of the Sun tem faixas mais tranqüilas
se comparado ao primeiro volume e deixa de lado os grandes
hits para dar espaço a canções menos
conhecidas, mas igualmente essenciais, como Let Him Run
Wild, uma das seis músicas remixadas em estéreo
pela primeira vez, e The Little Girl I Once Knew. O
curioso é que as canções não foram
colocadas em ordem cronológica, mas sim dispostas de
maneira a melhor evocar o "clima" de sol californiano e brisa
marítima. A faixa-título fecha o álbum
de forma extraordinária.
Beastie
Boys: jam session sem letras
The Mix-Up,
The Beastie Boys (EMI) O primeiro disco totalmente
instrumental do grupo deixa de lado o hip hop e os samples
eletrônicos habituais para abrir as portas a uma fusão
de estilos e batidas. O resultado, completamente diverso daquele
alcançado no álbum anterior, To the 5 Boroughs,
soa como uma grande jam session, com guitarra, baixo, órgão
e percussão funcionando em sintonia. Seja sob influência
latina, como em Suco de Tangerina, fruto da passagem
da banda pelo Brasil no ano passado, seja sob inspiração
do jazz e do funk, como na retrô Freaky Hijiki,
esse é um disco que agrada com facilidade, mesmo sem
ter uma só letra (o que no caso dos Beastie Boys não
é necessariamente um problema, e pode até ser
uma vantagem).