"Por todas
as vezes em que desviamos o olhar
lúcido ou recolhemos o dedo denunciador,
pagaremos um alto preço, durante um tempo
incalculavelmente longo. E não haverá erratas"
A vida deveria
nos oferecer um lugarzinho no rodapé da nossa história
pessoal para eventuais erratas, como em tese de doutorado
(as que não são plágio). Pelas vezes
em que na infância e adolescência a gente foi
bobo, foi ingênuo, foi indesculpavelmente romântico,
cego e teimoso, devia haver uma errata possível. Como
quando a gente acreditou que se fosse bonzinho ganharia aquela
bicicleta; que todos os professores eram sábios e justos
e todas as autoridades decentes; e quando a gente acreditou
que pai e mãe eram imortais ou perfeitos. E que aquele
namorado não estava saindo com a outra menina, e a
melhor amiga não contaria nossos segredos.
Devia haver erratas
que anulassem bobagens adultas: botei fora aquela oportunidade,
não cuidei da minha grana, fui onipotente, perdi quem
era tão precioso para mim, escolhi a gostosona em lugar
da parceira alegre e terna; fiquei com aquele cara porque
com ele seria mais divertido, mas no fundo eu não o
queria como meu amigo e pai de meus filhos. Ofendi aquela
pessoa que me faria bem e corri atrás de quem logo
adiante ia me passar uma rasteira. Profissionalmente não
me preparei, não me preveni, não refleti, não
entendi nada, tomei as piores decisões. Ah, que bom
seria se essas trapalhadas pudessem ser anuladas com uma boa
errata. Em geral, não podem.
Devia haver uma
errata para quando, com mais de 60 anos, tendo visto, lido
e vivido bastante coisa neste mundo, a gente ainda banca o
bobão, achando que agora, sim, alguém tomou
as rédeas nas mãos, até o presidente
exigiu, imagina se não vão dar bola pra ele,
como escrevi no artigo passado, achando que a vergonheira
nos nossos aeroportos estava acabando. Ainda bem que deixei
aquele espaçozinho para o "sabe-se lá o que
vai acontecer no breve intervalo entre escrever esta coluna
e ela ser publicada". Porque exatamente nesse intervalo amigos
meus ficaram sete horas fechados num avião, na pista,
e depois foram obrigados a desembarcar. A polícia foi
chamada, não para prender os responsáveis, mas
para tirar de lá os maltratados passageiros. Um conhecido
meu dormiu no chão de um aeroporto com a mulher e duas
filhinhas, e lá passou 24 horas. As autoridades continuam
sem autoridade, todos parecem baratas tontas, e não
dá para saber se é por incompetência mesmo
ou se por trás de tudo existe algum jogo sinistro que
é melhor nem conhecer.
E os ditos responsáveis,
que nem se sabe quem são, não fazem nada. Muitas
reuniões, palavras, mentiras e desmentidos, e nada.
Não entendo nossa passividade, eu que sou uma pacífica
e amo a paz. "Por que todo mundo não sai por aí
quebrando tudo?", me perguntou outro dia um menino de 18 anos.
"Quebrar tudo não é o jeito", respondi, mas
fiquei desconfortável.
Minha esperança
(tenho uma boa reserva delas) é que pessoas começam
a reagir também fora do grotesco drama dos aeroportos.
No Senado, a dança dos escândalos vai-se tornando
tediosa e nas ruas tarados filhinhos de papai agridem mulheres
sozinhas de noite, mas estão presos, espero que por
muito tempo. Começam a aparecer corajosas testemunhas,
quase sempre pessoas modestas. Para compensar o pai de um
agressor pedindo que não se prendam "essas crianças
que estão na faculdade", o pai de uma das vítimas,
homem simples mas honrado, diz que os pais desses jovens não
sabem o que acontece fora da porta da casa e não dão
limites. Outros meninões, aliás globetes, fazem
farra em grupos, espantam-se de ter incluído travestis,
maltratam todo mundo e, no fim, jogam uma pobre moça
(e daí se é prostituta? Muita menina enturmada
que não cobra pela sacanagem se porta de modo bem pior)
do carro. Mas havia de novo uma testemunha, que confirmou
a história.
Então, alguém
começa a fazer alguma coisa. Alguém, muito aos
pouquinhos, se sente responsável e fala. Alguém
mostra que não podemos aceitar o que acontece nas ruas,
nas casas, nos transportes aéreos, nos ministérios
e no Senado, na vida em geral e que só reclamar
não adianta. É preciso denunciar, testemunhar,
expor-se, mesmo correndo perigo de sentir-se isolado.
Ainda que o clima
geral seja de euforia imediatista, há situações
gravíssimas, claras ou ocultas, nos mais diversos territórios
da nossa vida, que merecem mais do que breve pensamento e
falam de um evidente apagão moral. Por todas as vezes
em que desviamos o olhar lúcido ou recolhemos o dedo
denunciador, pagaremos talvez num futuro não
muito distante um alto preço, durante um tempo
incalculavelmente longo. E não haverá erratas.
Ou será que eu estou apenas precisando de umas feriasinhas
em Pasárgada, para achar graça de tudo e parar
de me preocupar?