Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo Grandeza e miséria
do Cristo Redentor
Mobilizados, os brasileiros
elegeram uma estátua meio assustadora uma das maravilhas
do mundo
Se há alguma
coisa feia no Rio de Janeiro, é o Cristo Redentor.
Bonito é o pico em que está fincado, uma pedra
que sobe lá em cima, o cocuruto a varar com audácia
territórios privativos do céu. Mais bonita ainda
é a vista lá de cima, a mais bela que se pode
ter de uma cidade. O caminho para chegar ao topo também
é bonito. O jornalista Marcos Sá Corrêa,
num artigo recente, citou o registro deixado pela francesa
Adèle Toussaint-Samson, professora que morou no Rio
nos tempos do Império quando ainda não
havia Cristo sobre o Corcovado , depois de uma escalada
de seis horas: "Eu podia imaginar um pouco a vista esplêndida
que me esperava lá em cima. Mas não pudera pressentir
a emoção profunda que sentiria à visão
de uma natureza saindo virgem das mãos de Deus".
Já o Cristo,
em si... A expressão é vazia como a de um robô.
É pesadão como um guindaste. Tirem-no de seu
contexto e, num palco, viria a calhar para encarnar a estátua
de pedra que determinou a ruína de Don Juan. O olhar
que não olha é de um extraterrestre desembarcado
com a missão de assustar. A figura é toda rígida,
gelada, esquemática. Marcos Sá Corrêa
ressalta a sorte de o Cristo estar cravado num lugar decretado
parque nacional. "Quem não sabe o que isso quer dizer,
imagine tirar a estátua de onde está para pô-la
no morro mais alto do Complexo do Alemão, a que também
não faltam credenciais para representar a autêntica
paisagem urbana do Rio."
O entorno deslumbrante
o salva. Mas há algo de que não se pode perdoá-lo:
o mau exemplo com que contaminou cidades, vilas, vilarejos
e bairros Brasil afora. Contam-se aos milhares os cristos
redentores que brotaram pelo país nestes 76 anos que
se seguiram à implantação do primeiro,
no alto do Corcovado. São cópias que, não
podendo repetir o gigantismo do original, se assemelham a
rebentos malformados de espécimes premiadas. São
encontráveis no topo de morrinhos miúdos, feios,
indignos, ou no centro de praças tacanhas. Para prefeitos
sem conta, inaugurar o Cristo Redentor da cidade representou
ponto de honra do mandato. Ainda que em versão nanica,
ou disforme, ou com feições ainda mais assustadoras
do que o original, a estátua do Redentor já
se traduziu em votos, em muita eleição por este
Brasilzão de Deus.
Há ainda
uma generosa oferta de cristos redentores para uso privado.
As lojas de plantas e peças para jardins os oferecem
ao lado dos cogumelos de pedra, sapos e anões da Branca
de Neve. E assim o Cristo Redentor, eleito na semana passada
uma das sete novas maravilhas do mundo, vai cumprindo, em
paralelo a esse grandioso laurel, o destino de objetos tão
triviais, gastos e desvalorizados quanto os pingüins
de geladeira. No concurso das maravilhas, realizado em âmbito
planetário, no qual as pessoas eram convidadas a votar
pela internet ou pelo telefone, o Cristo chegou em terceiro
lugar, logo atrás da Muralha da China e das ruínas
de Petra, na Jordânia, e à frente de Machu Picchu,
no Peru, de Chichén Itzá, no México,
do Coliseu, em Roma, e do Taj Mahal, na Índia.
Dois aspectos dessa
lista chamam atenção. O primeiro é como
são velhas as novas maravilhas. O Cristo Redentor é
o caçulinha. O segundo mais novo, o Taj Mahal, tem
mais de 300 anos. As outras maravilhas datam da Antiguidade
euroasiática ou do período pré-colombiano.
Votou-se no certo e no seguro. Entre os 21 finalistas do concurso,
a única obra de arquitetura moderna era a Ópera
de Sydney. Mas é preciso lembrar que os australianos
não tiveram nem antiguidade, nem incas, nem astecas.
Não terá sido pelo gosto ao risco e à
inovação que descarregaram seus votos numa obra
de vanguarda. Mais provavelmente, foi por falta de alternativa.
A exceção australiana confirma a regra de que,
"na primeira eleição global da história",
como alardeia a empresa que concebeu e organizou o concurso
e na qual, segundo a mesma empresa, mais de 100 milhões
de votos foram contabilizados , o voto foi maciçamente
conservador.
O segundo aspecto
é a esmagadora predominância do Terceiro Mundo,
representado por seis das sete maravilhas da lista vencedora.
O Coliseu é a única exceção. Não
conseguiram se classificar nem a Torre Eiffel, nem a Estátua
da Liberdade, nem o Alhambra. O Cristo e seus companheiros,
entre os quais dois irmãos latino-americanos, Machu
Picchu e Chichén Itzá papou-os todos,
com farofa. No Brasil houve mobilização intensa
em favor do candidato nacional, inclusive com campanhas promovidas
por empresas. Supondo-se que, em outros países, a votação
se tenha dado igualmente dentro de critérios nacionalistas,
cada povo puxando por sua própria maravilha, a população
do Terceiro Mundo terá se aproveitado de sua grande
superioridade numérica para se impor. Foi como um concurso
de miss, em que concorriam monumentos em vez de mulheres e
em que todos podiam votar. O Brasil aproveitou-se da circunstância
para, fechado em torno de um candidato único, não
deixar escapar a oportunidade. Para essas coisas, brasileiro
se mobiliza.