Em
sua campanha no Egito, Napoleão encontrou tempo para
uma frase de efeito diante dos monumentos mais famosos do
lugar: "Do alto dessas pirâmides, quarenta séculos
vos contemplam", teria dito aos seus soldados. Ele não
precisaria viajar tão longe. Houvesse parado na Itália
para uma excursão gastronômica, e não
militar, Napoleão teria quatro milênios de história
no prato de macarrão ou espaguete: uma das crônicas
de A Rainha que Virou Pizza (Companhia Editora
Nacional; 368 páginas; 42 reais) fala justamente de
um fio de massa encontrado em uma escavação
arqueológica em Lajia, na China, cuja idade estimada
é de 4 000 anos. O livro do jornalista J. A. Dias Lopes
diretor de redação da revista Gula,
colunista gastronômico do jornal O Estado de S. Paulo
e ex-editor de VEJA é um saboroso passeio
por milênios de história culinária.
Publicados originalmente
em Gula e no Estado de S. Paulo, os textos do
livro foram organizados cronologicamente, compondo uma espécie
de painel histórico informal (o mesmo formato, aliás,
de outro livro do autor, A Canja do Imperador). Os
temas vão da evolução dos talheres aos
hábitos alimentares de figuras históricas como
o rei inglês Henrique VIII (cuja cintura chegou a ter
mais de 1,5 metro de diâmetro) ou de celebridades como
Elvis Presley (outro glutão, que só comia porcarias
calóricas como cachorro-quente e sundae). Cada crônica
é acompanhada de uma receita que lhe diz respeito.
O texto sobre Sarah Bernhardt (gourmet refinada e caloteira
inveterada, pois nunca pagava a conta dos restaurantes nos
quais jantava), por exemplo, traz a receita de codornas que
ganhou o nome da legendária atriz francesa. Caso semelhante
é o da pizza margherita, criada pelo pizzaiolo Raffaele
Esposito em homenagem a Margherita di Savoia, a rainha que
virou pizza do título. Os ingredientes da cobertura
manjericão, mozzarella e tomate prestam
homenagem às cores da bandeira italiana, verde, branco
e vermelho.
Escritores, artistas,
reis e políticos desfilam suas preferências pelo
livro. O presidente Juscelino Kubitschek era fã de
baba-de-moça, doce que também fazia as delícias
da princesa Isabel e do escritor José de Alencar. O
último texto da coletânea examina os gostos de
Bento XVI. Por muito tempo fiel ao apfelstrudel, sobremesa
típica de sua Alemanha natal, feita com maçã,
o papa acabou se rendendo ao italiano tiramisù. A
Rainha que Virou Pizza demonstra que, além de deliciar
o paladar, a boa mesa pode estimular o cérebro.