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18 de julho de 2007
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Folhetim oriental

Tintas de dramalhão mexicano com temática de
romance social inglês: é o chinês Da Chen em ação


Jerônimo Teixeira

 
Divulgação
Da Chen: ele achava que Dickens ainda retratava o capitalismo

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Trecho do livro

Uma jovem chinesa corre em direção a um precipício de sua aldeia montanhosa, em 1960. Grávida, solteira e abandonada pelo homem que a seduziu – um general do círculo próximo ao ditador Mao Tsé-tung –, a pobre moça vai se suicidar. Em pleno salto, ela dá à luz um menino, Shento, que se salva da queda porque o cordão umbilical se enrosca em um arbusto. Essa é apenas a primeira cena de A Montanha e o Rio (tradução de Paulo Andrade Lemos; Nova Fronteira; 496 páginas; 49,90 reais), primeiro romance do chinês Da Chen, há duas semanas na lista de mais vendidos de VEJA – e as mais de 400 páginas que se seguem se mantêm fiéis a esse estilo exagerado e folhetinesco para compor um painel da China em sua transição do totalitarismo comunista de Mao para o capitalismo autoritário de Deng Xiaoping (que, no livro, aparece com outro nome). "A situação das mulheres no interior da China ainda hoje é muito ruim", disse Da Chen em entrevista a VEJA. "Muitas trabalham como empregadas domésticas nas cidades. Se engravidam, voltam em desgraça para casa."

Nascido em 1962 numa pequena vila no sul da China e neto de um fazendeiro que teve suas terras desapropriadas pelo comunismo, Da Chen tem suas próprias histórias dramáticas para contar. Nos anos 60, durante a Revolução Cultural – a fase mais tenebrosa do regime maoísta –, a família do futuro escritor era vista com desconfiança pelos tiranetes locais. O pai e o avô de Da Chen passavam por espancamentos periódicos, e o menino chegou a ser proibido de freqüentar a escola. Radicado nos Estados Unidos desde os 23 anos (A Montanha e o Rio e dois livros de memórias do autor foram escritos em inglês), Da Chen ainda hoje engasga quando relembra esse tempo. "Meu filho hoje tem 9 anos e só pensa em estudar e brincar. Eu, na mesma idade, passava o dia recolhendo esterco de vaca para usar como adubo", diz.

A Montanha e o Rio acompanha a história de dois meio-irmãos que crescem sem se conhecer: Shento, não bastasse ser filho da suicida, perde os pais adotivos e acaba num orfanato draconiano – mas mesmo assim consegue fazer carreira no Exército, chegando a um alto posto no governo. Tan faz o caminho inverso, de privilegiado filho da elite comunista a dissidente político. Com seu tom sentimental, suas crianças pobres e orfanatos infernais, o romance deve muito ao escritor inglês Charles Dickens, autor de David Copperfield e Grandes Esperanças. "Dickens é um dos meus mestres. Na minha infância, os únicos filmes ocidentais que os comunistas nos deixavam ver eram adaptações inglesas dos romances dele", diz Da Chen. Graças a elas, os ingênuos chineses eram levados a acreditar que as agruras dos miseráveis órfãos da era vitoriana ainda constituíam a realidade contemporânea do capitalismo malvado.

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