Uma jovem chinesa
corre em direção a um precipício de sua
aldeia montanhosa, em 1960. Grávida, solteira e abandonada
pelo homem que a seduziu um general do círculo
próximo ao ditador Mao Tsé-tung , a pobre
moça vai se suicidar. Em pleno salto, ela dá
à luz um menino, Shento, que se salva da queda porque
o cordão umbilical se enrosca em um arbusto. Essa é
apenas a primeira cena de A Montanha e o Rio (tradução
de Paulo Andrade Lemos; Nova Fronteira; 496 páginas;
49,90 reais), primeiro romance do chinês Da Chen, há
duas semanas na lista de mais vendidos de VEJA e as
mais de 400 páginas que se seguem se mantêm fiéis
a esse estilo exagerado e folhetinesco para compor um painel
da China em sua transição do totalitarismo comunista
de Mao para o capitalismo autoritário de Deng Xiaoping
(que, no livro, aparece com outro nome). "A situação
das mulheres no interior da China ainda hoje é muito
ruim", disse Da Chen em entrevista a VEJA. "Muitas trabalham
como empregadas domésticas nas cidades. Se engravidam,
voltam em desgraça para casa."
Nascido em 1962
numa pequena vila no sul da China e neto de um fazendeiro
que teve suas terras desapropriadas pelo comunismo, Da Chen
tem suas próprias histórias dramáticas
para contar. Nos anos 60, durante a Revolução
Cultural a fase mais tenebrosa do regime maoísta
, a família do futuro escritor era vista com
desconfiança pelos tiranetes locais. O pai e o avô
de Da Chen passavam por espancamentos periódicos, e
o menino chegou a ser proibido de freqüentar a escola.
Radicado nos Estados Unidos desde os 23 anos (A Montanha
e o Rio e dois livros de memórias do autor foram
escritos em inglês), Da Chen ainda hoje engasga quando
relembra esse tempo. "Meu filho hoje tem 9 anos e só
pensa em estudar e brincar. Eu, na mesma idade, passava o
dia recolhendo esterco de vaca para usar como adubo", diz.
A Montanha e
o Rio acompanha a história de dois meio-irmãos
que crescem sem se conhecer: Shento, não bastasse ser
filho da suicida, perde os pais adotivos e acaba num orfanato
draconiano mas mesmo assim consegue fazer carreira
no Exército, chegando a um alto posto no governo. Tan
faz o caminho inverso, de privilegiado filho da elite comunista
a dissidente político. Com seu tom sentimental, suas
crianças pobres e orfanatos infernais, o romance deve
muito ao escritor inglês Charles Dickens, autor de David
Copperfield e Grandes Esperanças. "Dickens
é um dos meus mestres. Na minha infância, os
únicos filmes ocidentais que os comunistas nos deixavam
ver eram adaptações inglesas dos romances dele",
diz Da Chen. Graças a elas, os ingênuos chineses
eram levados a acreditar que as agruras dos miseráveis
órfãos da era vitoriana ainda constituíam
a realidade contemporânea do capitalismo malvado.