O mercado fonográfico
tradicional está em crise. Mas o
mercado de música conta com opções muito
lucrativas
Luiz Fukushiro
Fotos Donald Miralle/Getty
Images, divulgação, Ag. Polvo
Prince, que distribui seu novo
CD de graça: a música hoje não é o produto principal.
É a isca para fisgar o consumidor
No primeiro semestre
deste ano, o single digital TheSweet Escape,
da loira Gwen Stefani, superou em 100 000 unidades o álbum
físico mais vendido no mesmo período
o disco do american idol Chris Daughtry. O dado confirma aquilo
que as gravadoras vêm anunciando há tempos, em
tom de lamento: as vendas de CDs estão despencando
e o mercado fonográfico, assolado pelos downloads ilegais,
não pára de encolher. Depender da vendagem de
música deixou, portanto, de ser uma opção
para a sobrevivência dos selos. Mas os analistas começam
a enxergar outra informação crucial nesse cenário:
o mercado de música vai muito bem, obrigado, e está
crescendo mas em direções que escapam
à alçada das gravadoras. O sucesso do single
digital de Gwen Stefani pode ser tomado como prova de um dos
aspectos dessa mudança: a decadência do suporte
físico para a música. Outra direção,
ainda mais surpreendente, acaba de ser sinalizada por Prince.
O cantor programou para este 15 de julho a distribuição
gratuita de seu novo disco, Planet Earth, juntamente
com o jornal inglês The Mail on Sunday. Prince
é um dos artistas que mais faturam no mundo, hoje,
com apresentações ao vivo. Calcula-se que, em
2004, a turnê do álbum Musicology lhe
tenha rendido 90 milhões de dólares, muito mais
do que obteve com a venda de 1,9 milhão de cópias
do CD propriamente dito. Prince é bom de aritmética
e de golpe de vista. Ao dar um CD de graça, ele diz
com todas as letras que este não passa de uma mera
isca para seu verdadeiro negócio vender ingressos
de shows.
A banda curitibana Terminal
Guadalupe: pioneira no lançamento de um disco em pen drive
no país
Trata-se de um caminho
que enche de apreensão as gravadoras, tradicionalmente
privadas de qualquer participação nesse tipo
de ganho. Por isso mesmo, revelou a revista The Economist
num artigo recente, elas se armaram para modificar suas táticas.
Uma das novidades é o chamado "contrato de 360 graus":
a gravadora passa a engolir o trabalho que antes era dos empresários
do artista, cuidando também de seus shows e da criação
e venda de produtos por exemplo, camisetas com
a marca dele. No Brasil, é um modelo que ainda nem
começou a engatinhar. No exterior, nomes populares
como o cantor Robbie Williams e a banda Korn já aderiram
a ele. Mas a resistência é grande: muitos artistas
sentem que só têm a perder ao entregar a totalidade
de sua carreira a uma empresa. Para saltarem o obstáculo,
algumas gravadoras estão partindo para a compra das
agências que gerenciam vários artistas ao mesmo
tempo. Isso implica desembolsar quantias vultosas, mas delineia
a possibilidade de rápida recuperação.
A premissa é a de que, se o consumidor está
comprando menos música, então está lhe
sobrando mais dinheiro para gastar com ingressos e badulaques
de seus artistas favoritos. É esse lucro "em migração"
(favorecido, veja-se só, pela pirataria) que os executivos
do setor pretendem capturar.
Skank: o primeiro "celular de
ouro", com mais de 50 000 unidades vendidas
A edição especial
de trinta anos de Exodus, de Bob Marley: versão
em cartão de memória para pendurar no pescoço
Na tentativa de
segurar o faturamento que está escapando por entre
seus dedos, gravadoras e artistas não passam uma semana
sem bolar formas de incentivar os fãs a permanecer
como compradores de música. Dentre as apostas constam
o MusicPac, um CD com embalagem econômica, ou o CD Zero,
que preserva a capa e o encarte originais, mas contém
apenas cinco faixas sempre a preço mais convidativo
que o das versões completas. "Hoje o consumidor está
muito arredio. Temos de utilizar todas as maneiras possíveis
de lançamento", diz José Eboli, presidente da
Universal Brasil. O celular é outra dessas novas mídias:
recentemente, o álbum Carrossel, do Skank, vinha
como cortesia na memória de determinado aparelho. A
banda acaba de comemorar o primeiro "celular de ouro" da história
do mercado brasileiro, uma vez que a vendagem do telefone
ultrapassou as 50.000 unidades. O veículo que tem se
revelado mais versátil para esse tipo de venda, entretanto,
é a memória portátil os populares
pen drives e memory sticks. Do grupo independente curitibano
Terminal Guadalupe à megabanda americana White Stripes
passando pela edição comemorativa de
trinta anos do álbum Exodus, de Bob Marley ,
hoje se pode adquirir todo gênero de música nesse
tipo de memória. Nada, contudo, é mais atraente
do que simplesmente receber um CD inédito de graça,
como o que Prince distribui nesta semana. A iniciativa, claro,
tem feito chover protestos de lojistas e executivos do ramo.
Mas certamente há de encher outros artistas de idéias.