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18 de julho de 2007
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Música
Vale até disco de graça

O mercado fonográfico tradicional está em crise. Mas o
mercado de música conta com opções muito lucrativas


Luiz Fukushiro

Fotos Donald Miralle/Getty Images, divulgação, Ag. Polvo
Prince, que distribui seu novo CD de graça: a música hoje não é o produto principal. É a isca para fisgar o consumidor

No primeiro semestre deste ano, o single digital The Sweet Escape, da loira Gwen Stefani, superou em 100 000 unidades o álbum físico mais vendido no mesmo período – o disco do american idol Chris Daughtry. O dado confirma aquilo que as gravadoras vêm anunciando há tempos, em tom de lamento: as vendas de CDs estão despencando e o mercado fonográfico, assolado pelos downloads ilegais, não pára de encolher. Depender da vendagem de música deixou, portanto, de ser uma opção para a sobrevivência dos selos. Mas os analistas começam a enxergar outra informação crucial nesse cenário: o mercado de música vai muito bem, obrigado, e está crescendo – mas em direções que escapam à alçada das gravadoras. O sucesso do single digital de Gwen Stefani pode ser tomado como prova de um dos aspectos dessa mudança: a decadência do suporte físico para a música. Outra direção, ainda mais surpreendente, acaba de ser sinalizada por Prince. O cantor programou para este 15 de julho a distribuição gratuita de seu novo disco, Planet Earth, juntamente com o jornal inglês The Mail on Sunday. Prince é um dos artistas que mais faturam no mundo, hoje, com apresentações ao vivo. Calcula-se que, em 2004, a turnê do álbum Musicology lhe tenha rendido 90 milhões de dólares, muito mais do que obteve com a venda de 1,9 milhão de cópias do CD propriamente dito. Prince é bom de aritmética e de golpe de vista. Ao dar um CD de graça, ele diz com todas as letras que este não passa de uma mera isca para seu verdadeiro negócio – vender ingressos de shows.

A banda curitibana Terminal Guadalupe: pioneira no lançamento de um disco em pen drive no país

Trata-se de um caminho que enche de apreensão as gravadoras, tradicionalmente privadas de qualquer participação nesse tipo de ganho. Por isso mesmo, revelou a revista The Economist num artigo recente, elas se armaram para modificar suas táticas. Uma das novidades é o chamado "contrato de 360 graus": a gravadora passa a engolir o trabalho que antes era dos empresários do artista, cuidando também de seus shows e da criação e venda de produtos – por exemplo, camisetas – com a marca dele. No Brasil, é um modelo que ainda nem começou a engatinhar. No exterior, nomes populares como o cantor Robbie Williams e a banda Korn já aderiram a ele. Mas a resistência é grande: muitos artistas sentem que só têm a perder ao entregar a totalidade de sua carreira a uma empresa. Para saltarem o obstáculo, algumas gravadoras estão partindo para a compra das agências que gerenciam vários artistas ao mesmo tempo. Isso implica desembolsar quantias vultosas, mas delineia a possibilidade de rápida recuperação. A premissa é a de que, se o consumidor está comprando menos música, então está lhe sobrando mais dinheiro para gastar com ingressos e badulaques de seus artistas favoritos. É esse lucro "em migração" (favorecido, veja-se só, pela pirataria) que os executivos do setor pretendem capturar.

Skank: o primeiro "celular de ouro", com mais de 50 000 unidades vendidas


A edição especial de trinta anos de Exodus, de Bob Marley: versão em cartão de memória para pendurar no pescoço

Na tentativa de segurar o faturamento que está escapando por entre seus dedos, gravadoras e artistas não passam uma semana sem bolar formas de incentivar os fãs a permanecer como compradores de música. Dentre as apostas constam o MusicPac, um CD com embalagem econômica, ou o CD Zero, que preserva a capa e o encarte originais, mas contém apenas cinco faixas – sempre a preço mais convidativo que o das versões completas. "Hoje o consumidor está muito arredio. Temos de utilizar todas as maneiras possíveis de lançamento", diz José Eboli, presidente da Universal Brasil. O celular é outra dessas novas mídias: recentemente, o álbum Carrossel, do Skank, vinha como cortesia na memória de determinado aparelho. A banda acaba de comemorar o primeiro "celular de ouro" da história do mercado brasileiro, uma vez que a vendagem do telefone ultrapassou as 50.000 unidades. O veículo que tem se revelado mais versátil para esse tipo de venda, entretanto, é a memória portátil – os populares pen drives e memory sticks. Do grupo independente curitibano Terminal Guadalupe à megabanda americana White Stripes – passando pela edição comemorativa de trinta anos do álbum Exodus, de Bob Marley –, hoje se pode adquirir todo gênero de música nesse tipo de memória. Nada, contudo, é mais atraente do que simplesmente receber um CD inédito de graça, como o que Prince distribui nesta semana. A iniciativa, claro, tem feito chover protestos de lojistas e executivos do ramo. Mas certamente há de encher outros artistas de idéias.

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