Transformers
(Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira
no país, é um filme caído do céu
para Michael Bay. Não só dá ao diretor
de Armageddon e Pearl Harbor a chance de, mais
uma vez, perpetrar destruição em larga escala,
como o deixa livre para assumir de vez seu caso de amor com
o mundo mecânico, lubrificado a óleo e movido
por quantidades indecentes de combustíveis fósseis.
Para quem conseguiu de alguma forma escapar dos anos 80, vale
explicar: os Transformers, originalmente, são brinquedos
em forma de carrinhos e aviões que, nas mãos
de crianças ou marmanjos dotados de alguma destreza,
podem ser convertidos em robôs. Os do "bem" são
os Autobots e os do "mal" são os Decepticons. Todos
são originários do planeta Cybertron, destruído
numa guerra. No filme, convenientemente, eles vêm acertar
suas diferenças na Terra. Sam Witwicky (Shia LaBeouf),
um adolescente da Califórnia, está sem saber
em posse de um objeto que pode trazer de volta à ativa
Megatron, o líder da falange malvada, e permitir que
esta "desperte" todos os motores do planeta. Será,
portanto e como sempre nesses casos , o fim da
humanidade. A esperança é que Sam não
deixe esse objeto crucial cair em posse dos Decepticons. Para
tanto, os bem-intencionados Autobots mandam um emissário
para protegê-lo, na forma de um velho Camaro amarelo
que, na revendedora, parece literalmente implorar ao rapaz
para ser comprado.
O diretor Michael Bay: com Spielberg
e sem Bruckheimer, uma personalidade menos tóxica
Sam, é evidente,
não tem idéia de que está levando para
casa um robô gigantesco. E é claro também
que, passado o susto da descoberta, ele vai se tomar de amores
por esse monte de lata e pelos seus companheiros, ainda mais
descomunais, que logo desembarcam na Terra. Os Transformers
tornaram a Hasbro a segunda maior fabricante de brinquedos
do mundo exatamente por causa desse apelo irresistível
para pessoas de certa inclinação mecânica
a idéia de que seus motores estão de
alguma forma vivos e se comunicam com elas. Na década
de 80, quando comprou esse conceito de uma companhia japonesa,
a Hasbro inverteu toda a lógica do mercado ao lançar
histórias em quadrinhos e desenhos animados para promover
sua linha. (O normal, até então, era que os
brinquedos nascessem das atrações, e não
que dessem origem a elas.) Transformers leva essa lógica
às últimas conseqüências. Todo o
filme é uma peça de merchandising dos
brinquedos, que acabam de ganhar novas versões, dos
acordos com marcas de refrigerantes e dos carros de uma grande
montadora americana. Dado que o roteiro não faz nenhuma
questão de esconder essa inspiração mercantilista,
o filme poderia constituir uma experiência das mais
irritantes. A surpresa, entretanto, é que ele tem muito
mais charme do que se esperaria.
Boa parte dessa
simpatia qualidade que até aqui se desconhecia
em Michael Bay advém do fato de o diretor ter
desfeito, pelo menos nesta ocasião, sua parceria com
o produtor Jerry Bruckheimer. No lugar dessa combinação
tóxica de personalidades, tem-se aqui a influência
moderadora de Steven Spielberg. Pode-se creditar a ela a ausência
conspícua do jingoísmo que sempre sublinhou
a marca Bay/Bruckheimer, o tom de brincadeira em que a história
é levada e até o visual atraente dos robôs.
Embora pesadíssimos e barulhentos, eles mantêm
a qualidade amigável das miniaturas nas cores vivas
e na animação engenhosa, a cargo da Industrial
Light & Magic. O dedo de Spielberg fica especialmente
evidente na escolha do elenco, que favoreceu atores competentes
e agradáveis, dos veteranos John Turturro e Jon Voight
a recém-chegados como Josh Duhamel, Anthony Anderson
e Rachael Taylor. E Shia LaBeouf, que lembra o John Cusack
de vinte anos atrás, se desincumbe com desenvoltura
da tarefa de conduzir esse time. De fato, por alguma razão
difícil de explicar, é divertidíssimo
ver carros e aviões se metamorfoseando em robôs.
Mas o que segura Transformers, em última análise,
é o mais básico dos fatores o fator humano.