A Organização
Mundial de Saúde (OMS) estima que
30% da população mundial sofra ao menos uma
vez
por ano de intoxicação alimentar. São
quase 2 bilhões
de pessoas. Uma parte delas, diz o estudo, passa mal
por um descuido básico: elas ignoram o prazo de
validade dos alimentos.
Monica Weinberg
A falta de hábito
de conferir a data de vencimento dos produtos é pior
no Brasil, segundo os especialistas. Apesar de o prazo vir
estampado por exigência da lei na embalagem
de remédios, bebidas, cosméticos, produtos de
limpeza e alimentos industrializados, muita gente ignora solenemente
a informação. E passa mal depois. "As pessoas
vão parar no hospital porque ingeriram remédio
vencido ou comida velha, mas na maioria das vezes nem se dão
conta de que a origem do mal-estar é essa", diz o toxicologista
Anthony Wong, do Hospital das Clínicas, em São
Paulo. Wong e outros especialistas consultados por VEJA fizeram
uma lista dos produtos que, após o vencimento do prazo
de validade, mais costumam resultar em visitas ao pronto-socorro.
Os profissionais dão uma aula sobre como, cada item,
depois de vencido, perde a eficácia e ainda
pode prejudicar a saúde.
1
ÁGUA MINERAL
Prazo
de validade*: oito meses (com gás) e um ano (sem
gás) Por que evitar o produto
depois disso: a água pode estar contaminada por
bactérias. Às vezes, elas causam problemas gastrointestinais,
como a diarréia. Em casos bem mais raros, prejudicam
o sistema nervoso. O que determina a validade da água,
afinal, é a duração da embalagem
e não a da bebida. Depois da data-limite, a garrafa
de vidro pode ficar menos vedada e a de plástico está
mais sujeita a sofrer ranhuras praticamente imperceptíveis.
Parece detalhe, mas é justamente por meio de tais brechas
minúsculas que as bactérias eventualmente conseguem
infiltrar-se, infestar o líquido e causar danos à
saúde de quem o consome. Outro aviso: depois de vencida,
a água perde pelo menos 10% do gás
2
REFRIGERANTE
Prazo
de validade: em lata, três meses (as versões
diet e light) e seis meses (a tradicional). Em garrafas pet,
dura a metade do tempo Por que evitar o produto depois
disso: primeiro, porque a embalagem pode estar danificada,
o que facilita a proliferação de bactérias
na bebida. Segundo, pela possibilidade de o açúcar
contido no refrigerante ter fermentado. Em ambos os casos,
o mais comum é a ocorrência de diarréia.
É bom saber ainda que o líquido terá
perdido até 15% do gás e iniciado um processo
de oxidação que lhe rouba parte do aroma e do
sabor. Em suma, o refrigerante estará insosso. As versões
diet e light vêm com validade ainda mais curta por causa
do aspartame: ele não só perde sua capacidade
de adoçar como deixa gosto amargo na bebida
3
PÃO DE FORMA
Prazo
de validade: de oito a doze dias Por que evitar o produto depois disso: os estudos indicam
que ele pode causar toda sorte de danos à saúde
de diarréia a (bem mais raros) problemas no
sistema nervoso. A razão: o pão vencido está
mais vulnerável à proliferação
de fungos, aqueles que deixam sobre a superfície do
alimento manchas esverdeadas e costumam infestá-lo
de toxinas nocivas. Há ainda prejuízos ao paladar:
o pão fica mais seco e seu gosto, puxado para o amargo
4 MOLHO DE TOMATE
(em lata)
Prazo
de validade: dois anos Por que evitar o produto
depois disso: os riscos à saúde vêm da
embalagem. Vencida, a lata de alumínio está
mais propensa a danificar-se e deixar de garantir a
vedação necessária ao molho.
Por meio de pequenas
brechas, podem mesclar-se à receita fungos e bactérias
causadores de diarréia e alergias. Com ferrugem na
lata, a situação piora: ainda que remoto, há
risco, sim, de se contrair botulismo (envenenamento alimentar
que pode levar à morte). Depois de aberto, o produto
deve ser consumido em até cinco dias mesmo (como pede
o fabricante), sob o risco de tornar-se uma colônia
de microrganismos. Mais um aviso: molho de tomate que passa
do tempo sofre um processo de oxidação que lhe
rouba cor, sabor e aroma
5
REMÉDIO
Prazo de validade:
dois anos Por que evitar o produto
depois disso: os medicamentos perdem o efeito gradativamente
depois que passam do prazo, até, enfim, deixarem de
surtir resultado. A experiência dos pronto-socorros
mostra que não são raros os casos de intoxicação
por meio de um remédio vencido. Normalmente, as pessoas
sofrem de diarréia e dor de cabeça, mas, em
situações extremas, podem até ser vítimas
de infecções generalizadas
6
DESINFETANTE
Prazo de validade:
dois anos (se levar cloro na fórmula, cai para seis
meses) Por que evitar o produto depois disso: os especialistas
dizem que as pessoas costumam prestar mais atenção
na data de validade dos alimentos do que na de produtos de
limpeza, como o desinfetante. O que elas não sabem
é que, uma vez vencidos, eles perdem 100% da eficácia.
Isso mesmo: passam a ter efeito nulo. Como o desinfetante
se presta a eliminar bactérias que podem prejudicar
a saúde, não tenha dúvidas ao descartar
um produto já expirado e comprar um novo
7 CREME HIDRATANTE
Prazo
de validade: dois anos Por que evitar o produto
depois disso: o creme não oferece mais benefício
nenhum e às vezes faz mal à pele. A origem
do problema é o conservante, que, vencido, deixa de
atuar em duas frentes: na manutenção da fórmula
original e na proteção do creme contra a invasão
de microrganismos.
É justamente por essa razão que um creme velho
tem mais probabilidade de ser infestado por bactérias,
que podem causar coceiras e lesões na pele. Os especialistas
avisam ainda que cosméticos do gênero exalam
cheiro de "manteiga rançosa" e perdem sua textura original,
quando passam do tempo. Ficam líquidos ou sólidos
demais s e podem piorar o estado da pele
* Todos os prazos de validade
publicados nesta página expressam a média do
mercado
Pesadelo com
uma sopa vencida
É assim
que a bacharel em letras Loana Lagos Maia, 53
anos, define as doze horas seguintes à ingestão
de uma sopa cuja data de validade havia vencido três
meses antes. Sentiu cólicas "insuportáveis".
Até então, Loana achava o assunto irrelevante.
No caso da sopa, não havia sequer consultado
a embalagem para saber se consumia um produto nos limites
do prazo regular. Foi depois do mal-estar que ela descobriu
seu erro, ao vasculhar a lata de lixo e encontrar a
velha embalagem vencida.
"O sofrimento
daquele dia me tornou ortodoxa em relação
à validade dos produtos. Fiquei tão neurótica
que chego a jogar comida fora alguns dias antes de expirar.
Passar mal à toa, nunca mais na vida"