Mais de 90 milhões
de chineses podem responder
que sim; é o problema da escassez de sobrenomes
Juliana Vale, de Pequim
Reuters
Quem é quem: 85% da população
divide uma centena de sobrenomes
Se você é
brasileiro, se chama João da Silva e acha que tem problema
com homônimos, console-se muito, mas muito pior
é viver na China e ter o sobrenome Wang. Pela última
contagem, 93 milhões de chineses, mais ou menos metade
da população brasileira, são Wang, e
isso num país onde sobrenome vem antes do nome, o que
aumenta mais ainda a confusão. A proliferação
de Wangs é fruto de um problema que, quanto mais a
população cresce e já são
1,3 bilhão de pessoas , mais premente fica: a
escassez de sobrenomes. Segundo uma pesquisa recente encomendada
pelo Ministério de Segurança Pública,
por questão de tradição e costumes milenares,
85% dos chineses ou han, como a maioria se denomina
compartilham não mais que 100 nomes de família.
"Nunca entro em uma consulta médica sem antes verificar
se a ficha é minha mesmo", diz o aposentado Wang Bin,
60 anos, que penou durante muito tempo para esclarecer que
não era sua uma dívida dos tempos de faculdade.
"Eu era de um comitê estudantil ligado ao Partido Comunista.
Alguns colegas aproveitaram para pedir favores e pegar dinheiro
emprestado, apresentando a identidade de gente que tinha o
mesmo nome", conta.
Poliana
Pinto
Chen: orgulho do nome, mesmo
sendo igual ao de conhecidos corruptos
Os chineses se tratam
mais pelo sobrenome, até porque ele vem primeiro, do
que pelo nome próprio. Além disso, os nomes
completos, em sua imensa maioria, são curtos, compostos
de dois ou três caracteres, o que facilita ainda mais
a existência de uma multidão de homônimos.
"É o que mais vejo por aqui", confirma Bao Ran, escrivão
de um cartório no centro de Pequim. A administradora
de empresas Liu Yin, 32 anos, nunca vai se esquecer do vexame
que passou na adolescência: tímida e apaixonada
por um colega de classe, declarou-se em uma carta, com foto.
Infelizmente, o endereço estava incompleto e a carta
foi devolvida para outra Liu Yin, da mesma classe.
O amor secreto virou notícia, o rapaz não se
interessou e Yin morreu de vergonha.
Poliana
Pinto
Zhou: "Quando o chefe me chama,
eu e outras quatro levantamos"
A falta de sobrenomes
transformou-se num problema tão grande que o governo
anunciou um projeto de lei destinado a aumentar a variedade.
Até agora, todas as crianças recebem apenas
um sobrenome, geralmente do pai. A nova lei, ainda sem data
para entrar em vigor, permite que os filhos tenham o sobrenome
dos dois progenitores. "Numa família de pai Liu e mãe
Wu, por exemplo, o filho pode ter sobrenome Liu, Wu ou uma
combinação dos dois, como Liuwu ou Wuliu", diz
Yuan Yida, pesquisador-chefe do Instituto de Genética
e Biologia Evolutiva da Academia Chinesa de Ciências,
que dedicou os últimos 28 anos ao estudo genealógico
dos chineses dentro e fora da China e identificou os sobrenomes
mais populares (veja a lista abaixo). Outra mudança
significativa: chineses de etnias minoritárias poderão
transmitir os nomes de família que possuem em seus
dialetos de origem, cujo uso oficial, em outras circunstâncias,
é proibido. Com isso, o governo espera que se crie
1,28 milhão de novos sobrenomes, evitando situações
como a de Zhou Li, 31 anos, que trabalha no departamento de
marketing de uma multinacional em Pequim. "Cada vez que o
chefe me chama, eu e pelo menos outras quatro nos levantamos.
Já estamos acostumadas. Na nossa geração,
não tem jeito mesmo", diz Zhou Li. Em família,
acrescenta, a solução é usar apelidos.
"Temos a Xiao Zhou (jovem Zhou), a Lao Zhou (velha Zhou),
a Zhou alta, a Zhou baixa."
Além
dos sobrenomes, os nomes próprios também variam
pouco, ressaltando muitas vezes qualidades ou carreiras. Os
meninos se chamam Yong (corajoso), Liang (brilhante) ou Jun
(exército), e as meninas, Li (bonita), Xin ou Yue (ambos
com significado de alegre, feliz). Apesar da pouca diversidade,
os nomes da moda variam conforme a época nos
anos 50, quando o comunismo vitorioso levou à fundação
da República Popular da China, muitas crianças
ganharam nomes como Jianhua, Jianguo ou Xinhua ("construir
a China", "construir o país" e "nova China", respectivamente).
O estatístico Yuan acha que vai demorar algumas gerações
até que os chineses resolvam abandonar os sobrenomes
clássicos em favor dos novos. "A tendência é
usar sempre os mesmos, enquanto outros menos comuns vão
desaparecendo", diz. Segundo ele, o povo chinês, além
de muito apegado às tradições, acredita
que alguns sobrenomes são melhores que outros, ou pelo
significado (Ji, sorte; Wang, rei; Huang, amarelo, a cor imperial),
ou pela linhagem ancestral. O jornalista Chen Ou, 25 anos,
já ouviu dos amigos que seu sobrenome vai lhe trazer
problemas profissionais, "simplesmente porque é o mesmo
de gente como Chen Liangyu e Chen Xitong, ex-dirigentes do
Partido Comunista demitidos por corrupção".
Mas jamais consideraria uma troca. "Aliás, quando tiver
um filho, vou pedir à minha mulher para manter o Chen",
informa.