Quando
criança, o técnico em computação
Guilherme Martins era dono de um temperamento intempestivo.
Por qualquer motivo, atracava-se com colegas de escola. Além
disso, o excesso de autoconfiança o fazia acreditar
que tinha poderes especiais entre os quais, o de acender
uma lâmpada com a força do pensamento. Aos 32
anos, Guilherme faz parte do contingente de vítimas
de distúrbio bipolar cujos primeiros sintomas, como
os descritos acima, surgiram na infância. Recentemente,
um estudo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostrou
que um em cada três adultos com o transtorno se encaixa
nesse grupo. A constatação de que o problema
pode manifestar-se muito cedo significa aumentar as chances
de conter o agravamento dos sintomas e evitar as perdas cognitivas
que ocorrem quando ele não é tratado. "É
uma mudança e tanto de paradigma. Até a década
passada, os especialistas que defendiam que a doença
podia aparecer em crianças eram vistos com reservas",
diz o psiquiatra Beny Lafer, coordenador do Programa de Transtorno
Bipolar da Universidade de São Paulo e presidente da
Associação Brasileira de Transtorno Bipolar.
Vinte anos atrás, publicavam-se cerca de dez estudos
científicos por ano relacionados à bipolaridade
infantil menos de um décimo do que se publica
hoje.
Conhecido até
o início da década de 90 pelo nome de psicose
maníaco-depressiva, o transtorno bipolar nem sempre
é fácil de ser identificado. Até receber
o diagnóstico correto, um paciente pode ser levado
a consultar-se com três médicos diferentes, num
calvário que demora anos fora os meses necessários
para chegar ao medicamento certo e às doses adequadas,
depois de constatado o distúrbio. Reconhecer o transtorno
bipolar na infância é ainda mais complexo. Na
maioria dos adultos, as manifestações clínicas
são clássicas o humor oscila de um extremo
ao outro, da alegria incontrolável e raciocínio
veloz à depressão e apatia. No caso das crianças,
não é comum ocorrer essa gangorra emocional.
A doença se apresenta por meio de uma conjunção
de sintomas menos específicos, como impulsividade,
irritabilidade, dispersão, agitação e
acessos de raiva. "Lembro de ter tido, aos 12 anos, um ímpeto
de agressividade que me fez cortar todas as flores de um arranjo,
sem nenhuma razão", diz o designer Luiz Lopes. No livro
Uma Viagem entre o Céu e o Inferno (editora
Planeta), escrito em parceria com sua terapeuta, Mara Ziravello,
ele relata o inferno emocional que enfrentou desde cedo.
Karine
Basilio
"A
partir dos 8 anos, hoje sei, comecei a exibir sinais
do transtorno bipolar. Era uma criança agitada,
às vezes eufórica, e freqüentemente
ficava entediado com as aulas do colégio. Costumava
ter crises de irritação e agressividade
e brigava por qualquer motivo. Na adolescência,
julgava ter poderes especiais. Acreditava que podia
mover objetos e apagar lâmpadas com a força
do meu pensamento." Guilherme Martins,
32 anos, técnico em computação
Por causa dos sintomas pouco específicos, é
recorrente que a criança bipolar seja diagnosticada
com outros males, como o transtorno do déficit de atenção
e hiperatividade (TDAH) e a depressão. "Para fazer
o diagnóstico diferencial, é preciso ficar atento
a sinais de humor cíclico e analisar o histórico
familiar", afirma o psiquiatra Flávio Kapczinski, diretor
do programa de transtorno bipolar do Hospital das Clínicas
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (veja
o quadro). Quase metade das pessoas que sofrem
de transtorno bipolar tem outros casos na família.
Na Conferência Internacional sobre Distúrbio
Bipolar, realizada no mês passado em Pittsburgh, nos
Estados Unidos, uma das novidades foi a relação
entre o TDAH e o transtorno bipolar. De acordo com uma corrente
psiquiátrica, o déficit de atenção,
em certos contextos, funciona como um marcador do distúrbio.
Ou seja, é um fator de risco que, por si só,
pode evoluir para o aparecimento da bipolaridade.
A constatação
de que crianças manifestam o transtorno é positiva,
já que antecipa o tratamento, mas tem uma contrapartida:
um grande número de diagnósticos apressados.
"Temos notado que muitos médicos sem experiência
clínica com bipolaridade acabam por prescrever remédios
pesados a seus pacientes, sem examinar mais a fundo o quadro",
diz o sociólogo Ronald Kessler, especialista em saúde
pública da Universidade Harvard. O transtorno bipolar
em crianças já virou tema de best-seller. No
livro O Brilho de Sua Luz, a autora americana Danielle
Steel narra a história dolorosa de seu filho, Nick.
Doente desde a infância, ele suicidou-se. Um final,
infelizmente, previsível além da conta. O índice
de suicídios entre vítimas não tratadas
do transtorno é trinta vezes maior que o da população
em geral.