Genética O corpo está intacto.
Mas não dá
para clonar
Gabriela Carelli
Os mamutes foram
extintos há relativamente pouco tempo, considerando-se
a história da vida no planeta. Os últimos espécimes
desapareceram há 4.000 anos. Hoje, fósseis desses
gigantes pré-históricos são encontrados
com freqüência na Sibéria quando se vasculha
o chamado permafrost, a camada de terra permanentemente congelada
da região. Uma das mais espetaculares dessas descobertas
foi anunciada na semana passada. Um bebê mamute, que
viveu há 10.000 anos e morreu aos 6 meses de idade,
foi encontrado na Península de Yamal. O que espanta
os cientistas é o extraordinário estado de conservação
do fóssil. O corpo, a tromba e os olhos do mamute,
uma fêmea, estão intactos, assim como boa parte
do pêlo. "Já encontramos muitas carcaças,
mas nada se compara com essa em termos de preservação.
Ela não tem defeito. Falta-lhe apenas o rabo", diz
o paleontólogo Alexei Tikhonov, diretor do Instituto
Zoológico da Academia Russa de Ciências. Para
muitos geneticistas, a descoberta do bebê mamute siberiano
reacende a esperança de que, no futuro, se consiga
criar clones de mamute e de outros animais extintos. Dessa
forma, seria possível fazer com que espécies
desaparecidas voltassem a habitar a Terra.
O processo para
criar clones de animais extintos não seria muito diferente
daquele mostrado no filme Jurassic Park, de Steven
Spielberg. No caso dos mamutes, o que tornaria possível
recriá-los, em teoria, é seu parentesco com
os elefantes. Geneticamente, os mamutes são 95% idênticos
aos elefantes que vivem na Ásia e na África.
Primeiro, é preciso encontrar no fóssil uma
célula que possua o DNA intacto. O próximo passo
é substituir o código genético original
do núcleo de um óvulo de elefanta pelo material
genético retirado do fóssil do mamute. A seguir,
o óvulo fertilizado é implantado no útero
de uma elefanta. "Quanto mais bem preservado o animal, maiores
as chances de conseguirmos amostras de DNA intactas e, assim,
recriarmos espécies extintas", disse a VEJA Larry Agenbroad,
diretor do Centro de Estudos de Mamutes, laboratório
independente de Dakota do Sul. A maior dificuldade para clonar
um animal extinto está justamente em conseguir uma
amostra de DNA intacta. Quando o congelamento se dá
em condições especiais, como se faz nos laboratórios,
o material genético da célula pode ser preservado
indefinidamente. Mas as condições de congelamento
nos permafrosts estão muito aquém das ideais
tudo o que se encontrou até hoje foram fragmentos
de DNA.
Nem por isso os
cientistas desistem. O biólogo Don Colgan, do Museu
Australiano, tenta há quase uma década clonar
o tigre-da-tasmânia, extinto em 1936. Colgan já
conseguiu reproduzir milhões de cópias de fragmentos
do DNA de um tigre-da tasmânia morto há 140 anos,
mas admite que as chances de ter um clone da espécie
são "muito pequenas". A carcaça do filhote de
mamute recém-descoberta será encaminhada à
Universidade Jikei, no Japão, destino de grande parte
dos fósseis congelados encontrados na região
do Ártico. Animais bem preservados são a maior
fonte de informações sobre como era o planeta
no tempo em que eles viveram. Ao analisá-los, consegue-se
descobrir o seu tipo de dieta, a fauna e flora locais e as
condições climáticas do período.
"Nos últimos 3 milhões de anos, houve 27 ciclos
glaciais e interglaciais. Uma das poucas formas de desvendá-los
é por meio desses fósseis", diz Jefferson Cardia
Simões, coordenador do Núcleo de Pesquisas Antárticas
e Climáticas da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul.
Ainda não
há uma certeza sobre o que provocou a extinção
dos mamutes. Uma das hipóteses, levantada em pesquisas,
é que tenham sido caçados extensivamente pelo
homem. Armados com lanças com pontas de pedra lascada
e fogo, os caçadores, ao que tudo indica, acuavam os
mamutes até que eles caíssem de penhascos. Até
hoje, os fósseis de animais extintos permitiram aos
geneticistas apenas iniciar o seqüenciamento do DNA das
espécies. O maior especialista do mundo em genética
arqueológica, o sueco Svante Paabo, está prestes
a seqüenciar o DNA de um exemplar do homem de Neandertal,
um parente próximo do homem moderno que desapareceu
há 30.000 anos. "O trabalho de Paabo é importante
porque permitirá a comparação entre o
Neandertal, o homem e os primatas, e assim será possível
entender o nosso passado evolucionário", diz o geneticista
mineiro Sérgio Danilo Pena. "Mas, por enquanto, a possibilidade
de clonar mamutes ainda pertence ao terreno da ficção
científica", ele avalia.