A maravilhosa janela
para o mundo virtual também abre
uma porta para seus perigos. Aos pais, cabe a obrigação
de
controlar a circulação dos filhos num ambiente
incontrolável
Sandra Brasil
Pedro Rubens
ON-LINE
DESDE BEBÊ André,
6 anos de idade e quase cinco de mouse e teclado: chamada
para esclarecer uma dúvida, a mãe o encontrou
entretido no computador, jogando truco com um desconhecido
Para muitos pais
e mães que passaram a infância na pré-história
eletrônica, ver o filho de 6 anos manusear mouse e teclado
com a desenvoltura de quem nasceu para isso e nasceu
mesmo é de encher o coração de
orgulho. Um pequeno empurrão, que nem precisa vir de
casa (um colega esperto ou um primo um pouco mais velho fazem
o mesmo efeito), e em dois tempos o pequeno gênio domina
o vocabulário da rede, baixa música e vídeo,
descobre sites, joga on-line, troca mensagens com os amigos.
É bom que assim seja? É espetacular. O acesso
ao conhecimento e ao infinito mundo de conexões propiciado
pela internet é talvez o mais transformador fenômeno
do mundo contemporâneo. Nunca é demais exaltar
as maravilhas que essa janela virtual para o mundo propicia.
Nesta reportagem, porém, vamos falar do lado escuro
da força da rede, realidade que nenhum adulto responsável
por uma criança conectada pode se permitir ignorar.
A internet é um espaço aberto e ingovernável,
no qual circula todo tipo de boas e más intenções.
Nele, qualquer ser humano que saiba ler está sujeito
a encontrar o que quer, o que não quer e o que nem
sabe que não quer. Se adultos escorregam na rede, risco
muito maior correm as crianças, inexperientes e influenciáveis
situação que demanda dos pais supervisão
constante e preocupação permanente, visto que
controle total e absoluto eles nunca vão ter. "A gente
cresceu ouvindo os pais dizer para não abrir a porta
para estranhos, não aceitar carona de desconhecidos,
não falar com qualquer um na rua. Pois na internet
a criança abre a porta para o mundo. Muitos pais ainda
acham que ela está segura dentro do quarto, brincando
no computador", espanta-se a gerente da área de segurança
da Microsoft no Brasil, Marinês Gomes.
Qualquer especialista
que se consulte vai dizer que todo pai e toda mãe de
filho pequeno têm a obrigação de se informar
e acompanhar suas atividades virtuais. "Ninguém pode
dar orientação sobre o que não conhece",
diz a psicóloga Ceres Alves de Araujo, de São
Paulo. Ceres recomenda que, quando os filhos começam
a acessar a internet, os pais estejam do lado, indicando os
melhores caminhos, cortando excessos e alertando para os riscos.
Tudo isso, evidentemente, com boa dose de sabedoria parental
desde muito antes de a web nascer, a forma de apresentar
um conteúdo proibido pode acabar atiçando a
curiosidade sobre ele. Não é só para
orientar que os adultos responsáveis têm de saber
mexer no computador. É para fiscalizar também,
vigiar mesmo, clara e abertamente, com a maior naturalidade,
sem autoritarismo e sem medo de exercer a obrigação
da autoridade. "O pai e a mãe não podem se sentir
constrangidos de estar ao lado do filho, cumprindo seu dever
de protegê-lo. Se isso começar cedo, vai ser
natural, e o filho se sentirá à vontade para
chamá-los quando vir algo estranho na internet", afirma
a advogada Patricia Peck, especialista em direito digital.
Lailson Santos
A
ETERNA VIGILÂNCIA
Luísa e Arthur brincam, os pais fiscalizam: na
casa dos Stefani, a sirene de alerta para os perigos da
web soou quando uma pesquisa de imagens da Branca de Neve
para um trabalho de escola trouxe entre os resultados
uma série de fotos pornográficas, com cenas
de sexo explícito. "A gente pode até dificultar,
mas não há 100% de proteção
na internet", conforma-se Marcelo Stefani
Em Curitiba, a
dentista Mariângela Fortes, 40 anos, pôs o filho,
André, 6, em contato com o computador quando ele tinha
apenas 1 ano e meio. "Eu o colocava no colo enquanto estava
conectada; em pouco tempo ele dominava o mouse", diz. Quando
André cresceu, bastou um momento de distração
para que entrasse onde não devia. "No começo
do ano, deixei-o sozinho um instante e ele me chamou para
esclarecer uma dúvida. Quando cheguei perto, vi que
estava jogando truco on-line com um desconhecido. Disse que
aquele site não era apropriado para a sua idade e que
não devia acessá-lo de novo", conta. "A criança
é mais ingênua do que se pensa", afirma a psicóloga
e consultora educacional Rosely Sayão, com base na
experiência pessoal. "Por dever de trabalho, entro em
sites de relacionamento infantil como se tivesse a idade declarada
pelo grupo. E nunca saí sem saber pelo menos um telefone."
Para Rosely, "largar uma criança pequena sozinha na
internet é mais perigoso do que deixá-la sozinha
na Praça da Sé, no centro de São Paulo.
Na rua, ela sabe que corre o risco de ser assaltada ou seqüestrada
e fica mais atenta. No computador, ela se sente segura porque
está em casa".
Prevenir riscos
é tarefa mais fácil para pais que falam o idioma
dos downloads, dos games, do MSN, do Orkut e do YouTube. Fundamental
mesmo, porém, é prestar atenção.
A professora Mônica Martins, 41 anos, que mora em Brasília,
é das que admitem: tem antipatia pela máquina.
"Não dá para viver sem computador, mas eu e
ele não nos damos bem. Só abro meus e-mails
a cada dez dias. Sou de outro tempo", diz. Apesar da pouca
familiaridade com a web, ela ficou tão preocupada com
o uso excessivo do mundo virtual pelos filhos Lucas, 13, e
Bianca, 10, que mudou o horário de trabalho para estar
em casa ao mesmo tempo que eles. "Quando eu trabalhava à
tarde e eles estudavam de manhã, os dois viviam no
Orkut e no MSN. Só à noite eu ia olhar o histórico
dos sites que tinham visitado. Agora, controlo o acesso. Durante
a semana, cada um tem direito a quinze minutos por dia e estou
por perto para saber com quem estão falando", relata.
"Estabelecer horário é a primeira medida que
um pai deve adotar quando o filho começa a acessar
a rede", prega o psiquiatra Içami Tiba. "Computador
é diversão. E diversão a gente larga
quando é hora de fazer refeições em família
e de ir para a cama."
Oscar Cabral
EM
ALTO E BOM SOM
Os gêmeos Victor e Ana Leticia com a mãe,
Adriana: em nome da segurança, os três compartilham
um só computador, que fica bem à vista no
escritório, e os fones de ouvido foram proibidos;
conversar com amigos, só através de caixas
de som
Ajuda a estender
uma rede de proteção contra os riscos da internet
instalar no computador de casa um programa de bloqueio (veja
reportagem sobre tipos de programas). O paulista Fernando
Santos, 42 anos, preside uma empresa especializada em segurança
em informática e, por saber do que fala, tem práticas
específicas. "Prefiro restringir a policiar. Por isso,
equipei o micro da Paloma, minha filha de 11 anos, com filtro
de conteúdo para assuntos como pornografia, terrorismo,
armamentos e pedofilia", diz. "O computador é dela,
mas as regras de utilização são minhas."
Santos também ditou alguns "mandamentos" quando Paloma
começou a acessar a internet, aos 8 anos, entre os
quais constam: 1) só se conectar quando pai ou mãe
estiverem em casa; 2) pesquisas para trabalhos escolares têm
de ser supervisionadas; 3) o limite máximo de uso é
duas horas por dia, nunca após as 21 horas; e 4) por
enquanto, nada de MSN e nada de Orkut. Santos está
perfeitamente ciente de que tudo isso só funciona,
se funciona, quando Paloma está em casa. "Quando ela
está fora, não há muito que fazer", admite.
O incidente que
levou o empresário Marcelo Stefani, 40 anos, de São
Paulo, a instalar mecanismos de controle nos computadores
usados pelos filhos Luísa, 9, e Arthur, 10, partiu
de uma pesquisa sem um pingo de malícia: a busca de
ilustrações de Branca de Neve para um trabalho
de escola. "Verifico sempre o histórico de sites acessados
e de conversas dos meus filhos. Foi assim que percebi a presença
de fotos pornográficas entre os desenhos. Numa delas,
uma mulher fantasiada de Branca de Neve fazia sexo explícito",
lembra. "Imagino que a Luísa não tenha ampliado
aquilo, mas, por precaução, decidi travar o
acesso ao Google Imagens." Outro programa na casa de Stefani
impede o acesso a sites com conteúdos de sexo e violência.
"Cada um tem o próprio micro no quarto, mas não
é permitido usar o equipamento com a porta fechada
nem baixar programas quando não estou junto", diz ele,
que também guarda a sete chaves, e digita pessoalmente,
a senha de conexão dos filhos. Mesmo dispondo de tal
arsenal, Stefani não alimenta ilusões: "A gente
pode até dificultar, mas não há 100%
de proteção na internet. Vai haver sempre um
link para burlar o bloqueio".
O veto ao MSN e
ao Orkut na casa de Paloma é raro. Ambos são
freqüentadíssimos por menores, embora o termo
de adesão ao Orkut estabeleça 18 anos como idade
mínima de acesso. A criança que deseja criar
sua página mente a idade, claro. Mas, julgando estar
entre amigos, é capaz de candidamente divulgar a própria
foto, a escola em que estuda, o endereço da festinha
de sábado. Resultado: são comuns as situações
de alto risco como a do menino carioca (cuja identidade será
preservada), torcedor fanático do Botafogo, que no
ano passado deixou recados ofensivos em comunidades de torcidas
organizadas do Vasco e do Flamengo. Em poucos dias, sua própria
página no Orkut estava lotada de mensagens agressivas.
"Tinha até ameaça de morte", assusta-se a mãe,
que fez com que ele apagasse todos os seus recados
mas permitiu que continuasse na comunidade. Com muito maior
fiscalização, apesar dos protestos de "invasão
de intimidade".
Oscar Cabral
MARCAÇÃO
CERRADA
Bianca e Lucas, que têm quinze minutos por dia de
internet: a mãe, Mônica, que não gosta
de computador, mudou toda a sua rotina para fiscalizar
melhor a atividade dos filhos na web
Nas escolas, Orkut virou sinônimo de problema sério.
"Cada vez mais o site é usado para falar mal de professores
e colegas. Há muita discriminação, racismo,
fotomontagens ofensivas", diz a advogada Patricia Peck. Dois
meses atrás, Maria Teresa Abud, coordenadora de informática
da Escola Pacaembu, em São Paulo, descobriu uma comunidade
dedicada desde o título a tachar uma aluna de 10 anos
de mentirosa, obra de um colega de 11. "Felizmente, conseguimos
resolver antes que o problema se agravasse. A comunidade foi
tirada do ar e, desde então, fazemos um trabalho intensivo
com as crianças sobre o uso responsável da internet",
conta Maria Teresa. Outra dor de cabeça para os professores
é a utilização em pesquisas de cópias
descaradas de conteúdos da internet, incorreções
e absurdos incluídos. Na Pacaembu, todo trabalho de
pesquisa passou a ser feito na escola, sob as vistas de um
professor, a mesma providência adotada pelo Colégio
Santo Agostinho, no Leblon, Zona Sul carioca. "A internet
é uma bênção para quem sabe usar",
comenta o coordenador pedagógico César Bacchim.
"Quem é bom aluno deveria passar no máximo uma
hora por dia na internet; maus alunos, só nos fins
de semana", recomenda. Costuma ser atendido? "Não.
Dos 222 pais de alunos com baixo rendimento escolar que atendi
nos últimos dois meses, a grande maioria permite que
o filho use a internet de duas a três horas por dia."
Na casa da advogada
carioca Adriana Wanderley, 49 anos, ela é "a chefe"
do computador, que divide com os filhos gêmeos, Ana
Leticia e Victor, 10. "Eu tinha planos de colocar outro micro
no quarto deles, mas desisti porque é mais fácil
controlar o uso no escritório", diz. "Eles só
entram na internet com minha autorização e não
permito o uso de fone de ouvido. Toda conversa pela web é
por caixa de som." Adriana também contratou um técnico
para instalar bloqueios de acesso e tentar evitar o inevitável
quando viu Victor e um colega "procurando sites de mulher
pelada". O menino, até onde se sabe, ocupa seu tempo
de internet com jogos on-line e baixando músicas, ao
passo que sua irmã prefere bater papo com as amigas
pelo MSN. "No Brasil é cada vez maior o número
de usuárias meninas, que buscam principalmente os softwares
de comunicação", diz Alexandre Magalhães,
coordenador de análise do Ibope, que faz constantes
pesquisas sobre o uso da internet e utiliza os dados da americana
NetRatings para estudos comparativos. Deles se depreende (veja
quadro) que cada vez mais crianças brasileiras
entre 2 e 11 anos acessam a web e que elas já passam
mais tempo conectadas do que americanos da mesma idade
embora aí entrem variáveis como conexão
mais lenta e a conhecida disposição nacional
para jogar conversa fora. Outra pesquisa, da Millward Brown,
também do grupo Ibope, com crianças paulistanas
e cariocas de 8 a 12 anos, confirma o que os pais vêem
todo dia em casa: 67% preferem a internet à televisão.
Aliás, lembram-se dos tempos em que se falava mal da
influência da televisão? Dos videogames? Até
das histórias em quadrinhos? Pois é, toda geração
vê males rondando os filhos. No caso da internet, o
princípio é o mesmo, mas a realidade não
permite que tolerância se confunda com indiferença.
Os portais para o mundo virtual, que escancaram a sua casa,
exigem vigilância. Aos pais que se sentem incomodados
com o papel, sugere-se trocar a denominação:
em lugar de vigias, intitulem-se guardiães, honestos
aliados do lado bom da força.