No
documento divulgado pelo Vaticano na semana passada, o papa
Bento XVI reforça um aspecto central da doutrina católica.
Intitulado Respostas a Questões Relativas a Alguns
Aspectos da Doutrina sobre a Igreja, o texto reafirma
a Igreja Católica como a única Igreja de Cristo.
Elaborado pela Congregação para a Doutrina da
Fé em forma de perguntas e respostas e ratificado pelo
papa, o documento tem por objetivo esclarecer interpretações
teológicas modernosas, surgidas com o Concílio
Vaticano II, na década de 60. "As comunidades cristãs
nascidas da Reforma do século XVI não conservam
a genuína e íntegra substância do mistério
eucarístico e não podem ser chamadas Igrejas
em sentido próprio, segundo a doutrina católica",
diz o texto. A declaração causou protestos entre
os protestantes e os ortodoxos. Acusa-se o papa de dificultar
o diálogo ecumênico. Mas bancar as madalenas
enganadas não passa de jogo de cena dos cristãos
não-católicos. Afinal de contas, em mais de
2.000 anos de história, a Igreja Católica nunca
relativizou essa posição.
O próprio
nome da Igreja expressa como ela sempre se enxergou única.
A Igreja é Católica (palavra de origem grega
que significa "universal"), Apostólica (fundada por
Pedro e Paulo, herdeiros diretos da verdade de Cristo) e Romana
(não há legitimidade cristã fora do âmbito
papal). A unicidade é reforçada, ainda, por
dois dos oito títulos exibidos por um papa o
pontífice romano é o Vigário de Jesus
Cristo e o Sucessor do Príncipe dos Apóstolos
(Pedro). Depois do Concílio Vaticano II, que fez entrar
uma lufada de ar fresco na Santa Sé, passou a ser politicamente
incorreto bater nessa tecla. Em especial, porque criava embaraços
com as outras vertentes do cristianismo, com as quais se procurava
estabelecer algum diálogo.
Por que Bento XVI
voltou a afirmar o caráter único da Igreja Católica?
Para diminuir o ruído provocado pelos desvarios dos
padrecos que, ao questionar a autoridade de Roma em matéria
teológica, tentam também retirar a excelência
que a Igreja se atribui. Trata-se de uma limpeza de horizontes
periódica. Em 2000, por exemplo, ainda como o cardeal
Joseph Ratzinger, ele assinou um documento sobre a universalidade
de Jesus Cristo e da Igreja, chamado Dominus Iesus. Nele,
está dito que os cristãos não pertencentes
à Igreja Católica se encontram em situação
deficitária na busca por salvação quando
comparados aos católicos. Em 2006, Bento XVI renunciou
ao título de Patriarca do Ocidente justamente porque,
do ponto de vista da universalidade da Igreja, era contraditório
reconhecer a existência de uma Igreja do Oriente.
Em outro documento
divulgado recentemente, o papa tornou a encorajar as missas
em latim mais longas e nas quais o padre fica de costas
para os fiéis. Agora, as paróquias não
precisam mais do aval do Vaticano para realizá-las.
Basta que a maioria dos paroquianos o queiram. A missa em
latim, constituída pela liturgia tridentina (estabelecida
no Concílio de Trento, que foi de 1545 a 1563), inclui,
na Semana Santa, orações que exortam a conversão
dos judeus ao catolicismo. Mas os epítetos pejorativos
contra os seguidores do judaísmo foram extirpados para
todo o sempre por João XXIII. Ao estimular o uso do
latim, Bento XVI fez um gesto de boa vontade em relação
aos setores eclesiásticos mais conservadores, que se
ressentiam da abolição da língua oficial
da Igreja dos ritos litúrgicos. Quem sabe, agora, os
padres brasileiros se sintam estimulados a aprender o idioma.