A Argentina nem sequer
teve tempo para comemorar os sinais de recuperação
da crise que encolheu seu PIB em 11% em 2002 e já enfrenta
outro caos. Em um de seus invernos mais rigorosos, que fez
até nevar em Buenos Aires pela primeira vez em 89 anos,
o país está enfrentando um apagão energético
desde o início de julho, causado pela escassez de gás
natural. Na semana passada, muitas termelétricas alimentadas
com gás natural pararam de funcionar, deixando dezenas
de cidades sem luz – inclusive Bariloche, apinhada de turistas
brasileiros. Diversas usinas tiveram de usar diesel como combustível,
mais caro e mais poluente. Postos de gasolina foram proibidos
de vender a versão veicular do gás natural.
Com a escassez de gás e as eleições batendo
à porta da Casa Rosada, o presidente Néstor
Kirchner decidiu priorizar o conforto doméstico – e
sua própria popularidade – em detrimento da estabilidade
da economia argentina. Por ordem do governo, as indústrias
foram obrigadas a reduzir o consumo diário. A medida
prejudicou a produção de mais de 4.000 empresas
e pode reduzir o crescimento do PIB em 1 ponto porcentual
neste ano.
Daniel Luna/AP
Kirchner: sem ação diante da crise que pode afetar a candidatura da
sua mulher,
Cristina
O governo Kirchner culpou o frio e o crescimento econômico pelo apagão. A desculpa está bem de acordo com a prática peronista de transformar um problema em uma notícia boa. A justificativa não se sustenta nos fatos, já que o PIB argentino ainda é menor do que o de 2000. A culpa também não está na falta de chuva, já que as hidrelétricas na Argentina representam menos de 5% da produção de energia. A crise no país vizinho, na verdade, é uma triste conseqüência da interferência catastrófica de governos populistas na economia. O apagão energético é resultado inescapável de um populismo tarifário, que consiste no congelamento de preços de serviços como luz, água, gasolina e gás natural. Em dez anos, essa política tirou a Argentina da confortável posição de exportadora de gás natural para se tornar uma importadora desesperada. Entre 1993 e 2001, com a venda de estatais energéticas como a YPF e a Gas del Estado, no governo de Carlos Menem, empresas privadas investiram na descoberta de novas reservas no subsolo, que dobraram no período. O país até se deu ao luxo de desdenhar a importação de gás natural da Bolívia e de exportar o produto para Chile, Brasil e Uruguai.
Damian Dopacio/AFP
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economia deve
crescer menos
neste ano
O quadro de fartura começou a mudar no início de 2002, quando o governo peronista decretou o congelamento do preço do produto. A medida teve dois efeitos. O primeiro deles foi o aumento do consumo. Estimulados pelo baixo custo, muitos argentinos se sentiram à vontade para esbanjar, comprando aquecedores a gás para suas piscinas, por exemplo. Dentro das casas, tornou-se habitual deixar a janela aberta para compensar o calor da calefação a gás, em vez de girar o botão do termostato. Donos de automóveis e taxistas converteram seus carros e criaram a maior frota de veículos a gás natural do mundo. O uso do produto se disseminou de tal maneira que hoje é o dobro do registrado no Brasil, cuja população é quase cinco vezes maior que a da Argentina. O segundo impacto do congelamento de preços foi a paralisação de novos investimentos na ampliação das reservas. Resultado: a produção de gás natural aumentou apenas 2% nos últimos seis anos, enquanto a demanda por energia cresceu mais de 40%. "Os argentinos criaram uma combinação explosiva: produção estável e consumo nas alturas", diz Marco Tavares, da consultoria Gás Energy, de Porto Alegre, que entre 2001 e 2005 foi diretor de uma empresa espanhola com negócios no setor de gás argentino. Um racionamento de energia pode prejudicar a primeira-dama-candidata Cristina Kirchner nas eleições presidenciais marcadas para outubro. Mas, durante toda a crise, o governo não esboçou intenção alguma de aumentar as tarifas do gás, hoje a metade das cobradas no Brasil. O populismo faz dos argentinos sua mais nova vítima.