BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2017

18 de julho de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Lya Luft
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Contexto
Holofote
Radar
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Internacional
A Argentina apagou

Congelamento das tarifas, façanha do
populismo peronista, cria caos energético


Duda Teixeira
Natacha Pisaren/AP
Fila para abastecer em Buenos Aires: por ordem do governo, gasolina a preço de gás
VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
Em profundidade: Populismo na América Latina

A Argentina nem sequer teve tempo para comemorar os sinais de recuperação da crise que encolheu seu PIB em 11% em 2002 e já enfrenta outro caos. Em um de seus invernos mais rigorosos, que fez até nevar em Buenos Aires pela primeira vez em 89 anos, o país está enfrentando um apagão energético desde o início de julho, causado pela escassez de gás natural. Na semana passada, muitas termelétricas alimentadas com gás natural pararam de funcionar, deixando dezenas de cidades sem luz – inclusive Bariloche, apinhada de turistas brasileiros. Diversas usinas tiveram de usar diesel como combustível, mais caro e mais poluente. Postos de gasolina foram proibidos de vender a versão veicular do gás natural. Com a escassez de gás e as eleições batendo à porta da Casa Rosada, o presidente Néstor Kirchner decidiu priorizar o conforto doméstico – e sua própria popularidade – em detrimento da estabilidade da economia argentina. Por ordem do governo, as indústrias foram obrigadas a reduzir o consumo diário. A medida prejudicou a produção de mais de 4.000 empresas e pode reduzir o crescimento do PIB em 1 ponto porcentual neste ano.

Daniel Luna/AP
Kirchner: sem ação diante da crise que pode afetar a candidatura da sua mulher, Cristina

O governo Kirchner culpou o frio e o crescimento econômico pelo apagão. A desculpa está bem de acordo com a prática peronista de transformar um problema em uma notícia boa. A justificativa não se sustenta nos fatos, já que o PIB argentino ainda é menor do que o de 2000. A culpa também não está na falta de chuva, já que as hidrelétricas na Argentina representam menos de 5% da produção de energia. A crise no país vizinho, na verdade, é uma triste conseqüência da interferência catastrófica de governos populistas na economia. O apagão energético é resultado inescapável de um populismo tarifário, que consiste no congelamento de preços de serviços como luz, água, gasolina e gás natural. Em dez anos, essa política tirou a Argentina da confortável posição de exportadora de gás natural para se tornar uma importadora desesperada. Entre 1993 e 2001, com a venda de estatais energéticas como a YPF e a Gas del Estado, no governo de Carlos Menem, empresas privadas investiram na descoberta de novas reservas no subsolo, que dobraram no período. O país até se deu ao luxo de desdenhar a importação de gás natural da Bolívia e de exportar o produto para Chile, Brasil e Uruguai.

Damian Dopacio/AFP
Posto fechado: economia deve crescer menos neste ano

O quadro de fartura começou a mudar no início de 2002, quando o governo peronista decretou o congelamento do preço do produto. A medida teve dois efeitos. O primeiro deles foi o aumento do consumo. Estimulados pelo baixo custo, muitos argentinos se sentiram à vontade para esbanjar, comprando aquecedores a gás para suas piscinas, por exemplo. Dentro das casas, tornou-se habitual deixar a janela aberta para compensar o calor da calefação a gás, em vez de girar o botão do termostato. Donos de automóveis e taxistas converteram seus carros e criaram a maior frota de veículos a gás natural do mundo. O uso do produto se disseminou de tal maneira que hoje é o dobro do registrado no Brasil, cuja população é quase cinco vezes maior que a da Argentina. O segundo impacto do congelamento de preços foi a paralisação de novos investimentos na ampliação das reservas. Resultado: a produção de gás natural aumentou apenas 2% nos últimos seis anos, enquanto a demanda por energia cresceu mais de 40%. "Os argentinos criaram uma combinação explosiva: produção estável e consumo nas alturas", diz Marco Tavares, da consultoria Gás Energy, de Porto Alegre, que entre 2001 e 2005 foi diretor de uma empresa espanhola com negócios no setor de gás argentino. Um racionamento de energia pode prejudicar a primeira-dama-candidata Cristina Kirchner nas eleições presidenciais marcadas para outubro. Mas, durante toda a crise, o governo não esboçou intenção alguma de aumentar as tarifas do gás, hoje a metade das cobradas no Brasil. O populismo faz dos argentinos sua mais nova vítima.

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |