Há
alguns anos recebi esta carta comovida, procurando desfazer
"equívoco" sobre conhecido personagem de Nelson Rodrigues:
"Palhares, o cunhado canalha" (como se todos
não fossem). Não publiquei a carta achando que
podia ser apócrifa. Mas hoje, quando a internet consagrou
a apocrifidade (Houaiss), botando nosso nome em artigos alheios
e textos alheios com nosso nome, aqui vai a carta.
Rio de Janeiro, 20 de outubro
de 1999. Caríssimo amigo,
Ao vê-lo, participando
de almoço com José Lino Grünewald e Pedro
do Couto, vieram lembranças de meu passado,
quando ia com minha mãe ao seu estúdio. E voltou
a culpa, por fato ignorado por todos, não fosse a versão
feita pela pena mágica de Nelson Rodrigues.
A repercussão dessa versão
causou o martírio de um inocente, admirável
criatura que, devido a ocorrência da qual participei,
foi lançada à execração pública,
pecha da qual, por cavalheirismo, jamais se defendeu.
Agora pretendo revelar o que
ocorreu na tarde fatídica, a partir da qual um homem
de caráter sem jaça virou paradigma da abjeção,
canalha que não respeitava nem as cunhadas.
Se não lembra: sou Nanete,
filha de Isaura Nogueira Sande, que o conheceu quando era
rapaz, mas já conhecido jornalista. Eu era uma figura
juvenil, tipo "mignon", corpo de curvas tentadoras, o que
atraía o olhar de gula dos homens.
"Bem-feita", para os respeitosos,
"gostosa", quando passava na rua. Clara, alourada, era em
meu olhar que as pessoas identificavam minha sensualidade.
Minha mãe percebeu logo
meu poder de atração e me mantinha reclusa,
me escondendo em vestidos enormes, que escondiam meu corpo.
Roupa justa, nem pensar. Mas foram esses cuidados que ativaram
em mim a arte da sedução que passei a exercitar
sempre, excitando o interesse masculino, onde quer que estivesse.
E eu estava no auge quando Ofélia, minha irmã,
e Palhares se casaram.
Do meu cunhado recordo sempre
o carinho fraternal mas também o distanciamento respeitoso.
Sempre se esquivava de beijos e abraços. Era desligado
de tudo que não fosse sua devoção a Ofélia.
Isso, claro, excitava minha vaidade.
Depois os dois foram morar em
nossa casa, no quarto antes de meus pais, ao fundo do corredor
do andar superior. Os quartos tinham porta de comunicação,
mantida fechada, mas com bandeiras, com vidros nunca colocados.
Em conseqüência, toda noite os sons da faina amorosa
emprenhavam meus ouvidos. Minha imaginação tirava
Ofélia dos braços de Palhares e punha-me, sôfrega,
em seu lugar.
Então cruzamos no estreito
corredor que dava acesso aos quartos. O espaço de passagem
estreitava, no meio, por uma velha arca. Se duas pessoas saíssem
das extremidades do corredor, uma devia esperar a outra ultrapassar
a arca. Interagiram então a distração
dele e o meu oportunismo.
Logo escorregávamos um
sobre o outro. O rápido contato ateou em mim o incêndio.
Palhares, no entanto, sem mostrar emoção, só
pedia desculpas por me atrapalhar. Inocente Palhares!
Passei a forçar o encontro.
Na passagem, eu forçava a lentidão. Em Palhares
havia, de início, apenas espanto. Mas logo ligeiro
rubor coloria a morenice de seu rosto. Até aparecer
a cumplicidade do pijama que se avolumava e escorregava por
minhas coxas, e semipenetrava minhas costas, que lhe oferecia,
sentindo-o percorrer as duas metades da topografia de minhas
carnes implorando pela continuidade da ação.
Tudo sem diálogo. Apenas
a respiração se apressava. A audição,
entretanto, desaparecia. O que só percebemos na tarde
sinistra. Não ouvimos os passos de Ofélia subindo
a escada. E ela surgiu no corredor no exato instante em que,
impulsionada pelo desejo incoercível, enlacei Palhares
e pespeguei o beijo arquitetado na loucura da longa espera.
Mas o que Ofélia viu,
naturalmente, foi a fúria do Palhares, estuprando a
irmãzinha indefesa. Seus gritos mobilizaram toda a
casa. Acorreram minha mãe, dois primos em visita e
as duas empregadas, todos testemunhas da ação
infame do cunhado canalha.
Mas Palhares permaneceu calado,
não esboçou nenhuma defesa, o que fez dele,
aos olhos de toda a família, um sátiro homérico
(coisa do Nelson). Apenas minha mãe via a cena com
outros olhos. Enquanto Palhares era escorraçado pela
porta da rua, ela fixava em mim olhar inequivocamente reprovador.
Mas nada disse. Ofegava como em suas piores crises. Meses
depois morria.
Daí vivi o tormento de
lidar com minha culpa. Minha mãe morta, sem ter-me
dado perdão, Palhares, o inocente, enxovalhado, e eu,
causa de toda a tragédia, protegida pela piedade de
todos. Tanto se falou na família, na rua, no bairro,
da abjeção de Palhares que a coisa chegou aos
ouvidos de Nelson, que logo o consagrou como "Palhares, o
canalha que não respeita nem as cunhadas".
Hoje, prezado amigo, já
fenecidos meus encantos, restrinjo minha vida ao lar e à
família. Já sou avó, mas não encontro
alívio para o peso em minha consciência. Por
você suplico a todos que façam justiça,
com a divulgação desta minha confissão.
Espero, caro, contar com a sua
compreensão por esta minha ousadia. Antecipo minha
gratidão pela recuperação do caráter
e, quem sabe, da alma do Palhares. Que morreu em junho do
ano passado. Fui ao enterro, disfarçada pela idade.