O secretário
do Tesouro americano diz que a
prosperidade mundial não vai durar para sempre,
mas o Brasil suportará melhor eventuais crises
Giuliano Guandalini
Anderson
Schneider
"A corrupção
é conseqüência
natural da burocracia. Quanto
mais burocracia, mais oportunidade para que a corrupção
prospere"
Há
pouco mais de um ano, Henry Paulson deixou a presidência
de um dos maiores e mais lucrativos bancos de Wall Street,
o Goldman Sachs, e aceitou o convite para ser secretário
do Tesouro dos Estados Unidos. Principal conselheiro econômico
do presidente George W. Bush, Paulson ocupa função
equivalente à do ministro da Fazenda no Brasil. Na
semana passada, ele fez sua primeira visita oficial ao Brasil.
Encontrou-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
entre outras autoridades, e defendeu a idéia de que
o país siga firme na sua trajetória vitoriosa
de estabilidade econômica e abertura comercial. Para
Paulson, o desafio, no atual momento, é aproveitar
para reduzir as desigualdades sociais. "O segredo reside em
estender as oportunidades a um maior número de pessoas",
afirma. "Como? Em primeiro lugar, investindo em educação."
Aos 61 anos, Paulson é bom conhecedor do Brasil
seja por sua atuação de mais de três décadas
como banqueiro, seja por seu envolvimento em causas ambientais.
Membro da organização The Nature Conservancy,
o secretário do Tesouro americano é fascinado
pela flora e fauna brasileiras. Tem especial predileção
pelo Pantanal. Paulson conversou com VEJA.
Veja Como
o Brasil pode tirar mais proveito do atual momento de prosperidade
mundial? Paulson O desafio,
neste momento, é aproveitar o bom desempenho econômico
para dirimir as desigualdades sociais. O segredo reside em
estender as oportunidades a um maior número de pessoas.
Como? Em primeiro lugar, investindo em educação
e em serviços básicos, como saúde e saneamento.
Depois e aí estamos falando da minha especialidade
, é necessário ampliar o acesso ao mercado
financeiro e ao capital para investimentos. Viajando pelo
Brasil, vê-se que a falta de investimentos em infra-estrutura
é uma questão central. O mundo, hoje, está
afogado por uma avalanche de dinheiro. Há recursos
de sobra. A questão é, dada a falta de capacidade
financeira do setor público, como atrair o capital
privado. Espero que possamos ajudar o Brasil a viabilizar
esses projetos, dando o apoio técnico necessário.
Veja Isso
vale para outros países da região? Paulson Alguns
países da América do Sul, obviamente, estão
se saindo melhor do que outros. Mas a região como um
todo passa por um momento positivo. O crescimento se acelerou
e existe uma sólida situação fiscal.
Porém, mesmo entre os países que têm alcançado
os melhores resultados econômicos, o Brasil entre eles,
ainda há índices elevados de pobreza.
Veja Com
a palavra o especialista: como atrair dinheiro para infra-estrutura
e outras áreas produtivas? Paulson Os investidores
estão atrás de boas oportunidades em todo o
mundo, mas só colocam capital se houver segurança.
Os projetos precisam ser bem planejados, para que façam
sentido do ponto de vista financeiro. Deixe-me dar um exemplo.
Quando eu trabalhava no setor privado, comandando um banco
de investimentos, vi que o financiamento de grandes obras
do setor público costuma ser frustrante. Os projetos
são complicados, custam a sair do papel, há
uma dose elevada de incerteza. Perde-se tempo precioso com
procedimentos que não são necessários.
Quanto ao setor privado, o investimento só virá
quando houver transparência a respeito dos riscos envolvidos
e se existir financiamento adequado. A questão-chave,
portanto, é dar ao investidor a segurança necessária
para que ele faça o desembolso. Penso que o Brasil
está na direção correta. As taxas de
juro ainda são elevadas, mas encontram-se em declínio.
Existe hoje mais crédito do que havia um ano atrás
e haverá mais no próximo ano do que no atual.
Veja
Afinal, como querem os cínicos, a corrupção
atrai ou ela afasta mesmo os investimentos? Paulson A corrupção
existe em todo o mundo. É uma carga extremamente pesada
para a economia e os cidadãos de vários países.
Ela é uma conseqüência natural da burocracia.
Quanto mais regulamentação, mais burocracia
e é maior a oportunidade para que a corrupção
prospere. A maneira ideal de enfrentar a corrupção
é atacar a burocracia e o excesso de regulamentações,
tornando mais fácil o estabelecimento de empresas e
projetos. O setor privado brasileiro passa por um momento
de salto de produtividade. Por outro lado, o setor público
é hiperdimensionado com seus 37 ministérios.
O governo precisa aprender com o setor privado a ser mais
eficiente. Menos regulamentações e reformas
ajudariam bastante. Em conversas com empresários e
analistas brasileiros, ouvi bastante a respeito de como é
complicado o atual sistema de arrecadação de
impostos no país. É flagrante a necessidade
de se fazer uma reforma tributária. Outra reforma prioritária
seria a trabalhista, para que houvesse maior flexibilidade
e se estimulassem as contratações.
Veja
Como está o Brasil, em comparação
com os demais países em desenvolvimento, em particular
os outros do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China)? Paulson Bem, esses
países são muito distintos entre si. O Brasil
exibe uma grande complexidade, em termos de desafios na interligação
de sua infra-estrutura e na diversidade de suas regiões.
Em vários aspectos, não deixa de ser positivo
ter toda essa riqueza em recursos naturais, como a Amazônia
e o Pantanal. O Brasil é uma democracia bem-sucedida,
um país aberto ao capital externo e com uma moeda cujo
poder de compra é determinado pelas forças de
ação do mercado. O fato é que todos os
países do Bric estão tirando proveito de uma
maior integração com a economia global e por
isso recebem grande fluxo de investimentos. Essas economias
também se beneficiam das relações comerciais
entre si. É nisso que todos saem ganhando.
Veja
Até quando? Paulson Sempre há
riscos. Mas nunca, em toda a minha vida profissional, vi a
economia mundial em uma situação tão
sólida. As taxas de crescimento econômico dos
emergentes estão elevadas, o dobro da média
registrada na década passada. A liquidez de recursos
nos mercados financeiros também permanece em patamares
muito altos. Desde 1998, não vemos nenhuma grande crise
financeira na economia mundial. Em algum momento ocorrerá
um choque global. Foi sempre assim no passado e é errado
pensar que agora será diferente. Sempre haverá
pontos vulneráveis. Isso não se discute. Mas,
no que diz respeito ao Brasil, gostaria de frisar que, hoje,
o país não é o mesmo que sofreu forte
abalo com as crises financeiras dos anos 90. Se o Brasil perseverar
nas políticas econômicas corretas que vem fazendo,
os efeitos de uma eventual crise mundial serão bem
menores por aqui. O risco seria dar uma guinada rumo às
práticas do passado.
Veja
A ameaça maior que paira sobre todos os países
do mundo não é o duplo déficit americano,
o fiscal e o da balança comercial? Paulson Os Estados
Unidos são muito importantes para a economia global.
Estamos falando de 20% do produto interno bruto (PIB) mundial.
Temos a economia mais aberta e a mais competitiva do planeta.
Os sinais de que temos uma economia bastante saudável
estão por toda parte. Estamos, no momento, fazendo
uma transição, a meu ver bem-sucedida, rumo
a um ritmo de crescimento econômico mais sustentável.
Como vocês estão provando no Brasil, o pilar
econômico primordial deve ser sempre o combate à
inflação. Na minha avaliação,
temos conseguido conter as pressões inflacionárias
nos Estados Unidos. Por outro lado, o mercado de trabalho
americano continua forte, assim como o consumo. Houve, sim,
uma significativa correção nos preços
do mercado imobiliário. Mas acredito que os efeitos
desse ajuste estejam sob controle. A economia americana é
extremamente diversificada. Vários setores estão
indo muito bem. Além disso, nós nos beneficiamos
de atuar globalmente. Tiramos proveito do fato de a economia
mundial passar por um grande momento.
Veja
Recentemente, o presidente Lula afirmou que não
podia fazer nada a respeito da desvalorização
do dólar, porque o dólar está caindo
em todo o mundo, como conseqüência dos déficits
americanos. É isso mesmo? Paulson Acredito
que seja do interesse dos Estados Unidos ter um dólar
forte. Mas acredito também que as taxas de câmbio
devem ser determinadas pela ação de mercados
abertos e competitivos, refletindo os fundamentos econômicos
do país. O primordial, então, é possuir
uma política econômica que tenha a confiança
dos investidores como, na minha opinião, temos
nos Estados Unidos. Quando vejo alguém se queixar de
que a moeda brasileira, o real, está forte demais,
digo que isso deveria ser visto como algo positivo. A economia
brasileira vai muito bem, há mais confiança,
e isso atrai capital.
Veja Alguns
economistas defendem a idéia de que o câmbio
desvalorizado pode ser usado como propulsor de um crescimento
econômico maior... Paulson A taxa
de câmbio deve refletir os fundamentos da economia.
Em qualquer economia aberta, o mercado deve determinar o câmbio.
Se o país seguir as políticas corretas, terá
uma economia saudável e o crescimento duradouro virá
como conseqüência. O câmbio deve ser apenas
um reflexo disso. O foco de todos nós, na verdade,
deveria ser estimular aqueles que ainda não têm
moedas flexíveis e determinadas pelo mercado a se mover
nesse sentido. É o caso da China. Mas há vários
outros países que precisam se abrir mais à competição
e ao livre fluxo de capitais financeiros.
Veja Como
o senhor avalia o ritmo de abertura dos mercados na China
e da flexibilização de sua moeda? Paulson A China
está no caminho de se tornar uma economia de mercado
aberta. Seu crescimento espetacular está beneficiando
os próprios chineses, mas também os brasileiros,
os americanos e todo o mundo. Por isso devemos continuar incentivando
a China a caminhar na direção de ter uma moeda
mais flexível, determinada pela ação
dos mercados, e que reflita os fundamentos econômicos
do país. A China precisa fazer um pouco mais nesse
sentido. Isso beneficiaria os próprios chineses.
Veja Muitos
se queixam em seu país que os chineses têm se
beneficiado mais do que a população americana.
Isso não pode despertar sentimentos nacionalistas? Paulson Existe
aí uma grande contradição. Nos últimos
vinte anos, todos aqueles países que se abriram ao
comércio e à competição internacional
acabaram se beneficiando. Ainda assim, no entanto, há
sentimentos protecionistas em todos os países. Essas
pressões existem na China, nos Estados Unidos e no
Brasil. Por isso temos tanta dificuldade em avançar
nas negociações da Rodada Doha de abertura comercial.
Nos Estados Unidos, existe, sim, uma certa percepção
de que os benefícios do comércio mundial não
vêm sendo distribuídos de maneira igual e justa
e essa visão está refletida no Congresso
americano. Isso me preocupa, claro, mas faz parte do meu trabalho
defender a idéia de que os mercados americanos continuem
abertos, porque acredito que isso nos beneficiará.
Nossas exportações para a China vêm crescendo
rapidamente. Ao importarmos produtos chineses, nós
nos beneficiamos dos preços baixos, que ajudam a manter
a inflação sob controle. Algumas pessoas vêem
como uma ameaça o fato de a China ser a economia que
mais cresce no planeta. Prefiro ver isso como uma oportunidade.
Veja A
Rodada Doha parece ter entrado em um beco sem saída.
O senhor acredita que as divergências poderão
ser superadas? Os Estados Unidos estão preparados para
ceder um pouco mais? Paulson Com certeza
temos um grande desafio pela frente, não será
fácil superar os obstáculos. O importante é
não desistir. Penso que os negociadores dos principais
países envolvidos estão comprometidos com uma
resolução para o impasse. O presidente Lula
está comprometido, assim como o presidente Bush. Não
será fácil. Mas, se quisermos avançar,
todos os países terão de ceder e oferecer um
pouco mais.
Veja O
senhor vem de uma carreira de sucesso na iniciativa privada.
Como tem sido sua experiência em Washington? Paulson Não
há sombra de dúvida de que se trata de uma experiência
bastante diferente. Mas, como digo para as pessoas que trabalham
comigo: não sou nenhum diplomata. Tenho apenas mais
dezoito meses no cargo, até o fim do mandato do presidente
Bush, por isso gosto de trabalhar naquilo que me possibilite
entregar os melhores resultados práticos. Em alguns
aspectos, entretanto, as duas atividades são muito
semelhantes. O sucesso só vem quando se trabalha em
equipe, cedendo quando necessário e tentando convencer
as pessoas a fazer as coisas da maneira que você considera
mais adequada. De nada adianta aparecer com alguma idéia
brilhante que nunca sairá do papel.