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Claudio
de Moura Castro
Na
contramão
da História
"Aos
cinqüenta anos, a Capes demonstra
a viabilidade de um serviço público
durável, dedicado, criativo e eficiente"
Ilustração Ale Setti
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Além
de seus importantes escritos, o educador Anísio Teixeira criou uma
instituição, a Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes), para cuidar da formação
de professores do ensino superior. Esta senhora estável, trabalhadeira
e respeitável faz cinqüenta anos em julho.
A data merece festejos, pois a Capes sempre trilhou na contramão
dos caminhos de nosso serviço público. A Capes conseguiu
ser séria e competente por meio século, em um país
de cartórios e distribuição política de benesses
públicas. Em períodos cuja memória sumiu, pode haver
dado um ou outro mau passo. Mas faz décadas que amadureceu e não
mais se deixou seduzir senão pelos méritos intelectuais
de seus proponentes, dando bolsas para os melhores estudantes e apoio
aos programas de pós-graduação que mais mereciam,
muito diferente de nossas burocracias, que distribuíam seus recursos
e favores por critérios ocultos e misteriosos. Os funcionários
sempre vestiram a camisa da Capes com idealismo e dedicação,
qualquer que fosse seu nível ou salário. Sua capacidade
de operar grandes programas com poucos funcionários (só
gastava 5% de seu orçamento em pessoal) contrasta com nossa burocracia
frondosa. E o círculo virtuoso de sua seriedade evitou que ela
fosse objeto de cobiça de políticos e dirigentes trêfegos
ou oportunistas.
Mas a maior inovação veio de Darcy Closs, que, em meados
dos anos 70, criou discretamente um sistema de avaliação
dos cursos de pós-graduação, com o objetivo inicial
de dar cotas de bolsas aos melhores programas nacionais, em vez de julgar,
caso a caso, os candidatos. Progressivamente, esse sistema amadurece,
adquire solidez, procedimentos bem definidos e transparência. Em
meados dos anos 80, as notas passam a ser públicas. O acoplamento
do sistema de avaliação à distribuição
de cotas de bolsas para os programas fecha o círculo. Quem mostra
competência na avaliação é premiado com mais
bolsas. Não há no mundo, rico ou pobre, um sistema tão
completo e sistemático de avaliação/premiação
da pós-graduação. Aliás, que outro serviço
público avalia e, em seguida, premia os melhores já
por um quarto de século?
Junto com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) e a Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da
Ciência e Tecnologia (Finep), a Capes co-assina a criação
e o fortalecimento da pós-graduação brasileira. Do
que o país já fez em educação, os mestrados
e doutorados são de longe nossa maior realização.
Muitos atingem facilmente níveis internacionais, levando o país
ao segundo lugar no Terceiro Mundo na produção de ciência
distanciando-nos da Argentina, que chegou a produzir três
prêmios Nobel quando nossa ciência ainda engatinhava.
Mas, completando meio século, é hora também de dar
um balanço, pois mesmo as senhoras mais virtuosas precisam ajustar-se
aos novos tempos. A Capes não deixou de sofrer com alguns dos maus
momentos passados por nosso serviço público e, por um tempo,
parou de andar à frente da pós-graduação.
As mudanças e inovações tardaram. As regras da pós-graduação
ficaram rígidas demais e passaram a sofrer o peso dos grupos de
interesse e das corporações. Houve excessiva valorização
dos diplomas e relutância em redirecionar os programas para o setor
produtivo (os chamados mestrados profissionais). Não se cuidou
da formação de professores para instituições
menores ou privadas, para as quais os atuais mestrados e doutorados são
excessivamente longos e dispendiosos. E, o que talvez seja mais inexplicável,
não se degolaram os mestrados científicos quando amadureceram
os programas de doutorado, como era previsto e como sucede nos
Estados Unidos, de onde copiamos o modelo. Isso nos leva a uma pós-graduação
demasiadamente longa.
Tudo isso são as correções de curso requeridas pelo
êxito da pós-graduação, cujo amadurecimento
teve em todos os momentos a mão da Capes. Mas a hora é de
festa. É preciso comemorar o aniversário desta senhora tão
guapa, saudável e séria, cuja biografia demonstra a viabilidade
de um serviço público durável, dedicado, criativo
e eficiente.
Claudio
de Moura Castro é economista e ex-diretor da Capes (claudiomc@attglobal.net)
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