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Roberto
Pompeu de Toledo
As
aventuras de
São
Tomé no Brasil
Ler
Sérgio Buarque é
se dar ao prazer
enquanto se tomam lições de história,
inteligência, estilo
Uma
vez, os índios, revoltados, dispararam suas flechas contra o santo
homem, e o que aconteceu? As flechas, como pontiagudos bumerangues, inverteram
sua trajetória e vieram precipitar-se sobre os que as haviam disparado.
Outra vez, quando ele dormia sobre um monte de palha, o demônio
vislumbrou nova oportunidade. Convenceu os índios de que era mister
destruí-lo e os levou a atear fogo à palha. Milagre! Por
mais que a palha ardesse e levantasse altas labaredas, não o atingia,
e ele pôde sair do meio delas como se sai da cabana num ameno dia
de sol. Outra vez ainda, também sob instigação do
demônio, os índios o detiveram, açoitaram e amarraram.
Baixaram então lindas aves do céu, umas aves que costumavam
acompanhá-lo, em suas andanças, e o libertaram. Aves? Há
quem assegure, depois de detida mediação, que não
eram aves. Eram anjos.
O santo homem em questão, capaz de suscitar tamanhos prodígios,
é São Tomé, o apóstolo da descrença
aquele mesmo que só depois de tocar nas chagas acreditou
ter diante de si o Cristo ressuscitado. As histórias acima integram
a lenda de que São Tomé, muito antes dos portugueses, esteve
no Brasil, com passagens também pelo Paraguai e pelo Peru, em missão
evangelizadora. À época do Descobrimento, tratava-se de
crença persistente, que contagiou e entusiasmou os
jesuítas. Imaginaram-se pegadas de São Tomé em várias
partes do Brasil: São Vicente, Cabo Frio, Paraíba. Na Bahia,
havia sinais delas em Itapuã e na Praia do Toque, cujo nome viria
exatamente do toque dos pés do santo. O padre Manoel da Nóbrega
afirma numa de suas cartas que, "para maior certeza da verdade", foi conferir
o que tanto lhe diziam e viu "com os próprios olhos quatro pisadas
muito nítidas, com seus dedos". Na Paraíba, ao lado de pegadas
maiores, notavam-se umas menores. Seriam de um segundo apóstolo,
que costumava acompanhar Tomé, de acordo com alguns. Outros afirmavam
tratar-se de seu anjo da guarda.
A lenda da passagem de São Tomé pelo Brasil compõe
um dos capítulos de Visão do Paraíso, de Sérgio
Buarque de Holanda, um dos mais belos e eruditos livros brasileiros, publicado
em 1958. O autor tece um painel dos mitos que dominavam a imaginação
dos europeus na verdade mais dos espanhóis, dotados de inventiva
mais ardente, segundo Sérgio Buarque, que dos portugueses
à época da chegada ao continente americano. O próprio
Cristóvão Colombo atingiu estas paragens ao impulso da fantasia.
Tinha a convicção, expressa em seus escritos, de que havia
chegado ao Éden, "o sítio abençoado onde viveram
nossos primeiros pais".
Ler e reler Sérgio Buarque (1902-1982), o de Visão do
Paraíso como também o de Raízes do Brasil,
Monções ou Caminhos e Fronteiras, é se
dar ao prazer enquanto se tomam lições de história,
de inteligência, de estilo. O mito de São Tomé na
América, que mais do que qualquer outro ele dissecou, rastreando-lhe
as origens e os significados, toma cores ainda mais vivas quando se desloca
para as paragens hispânicas. Se no Brasil o santo andava descalço,
e tanto assim que suas pegadas se fixavam no solo, com dedos e tudo, no
Paraguai calçava sandálias. Tais sandálias viraram
relíquias que operavam milagres e além disso exalavam inigualável
fragrância. No Peru, andava com uma cruz. Também ela virou
relíquia, mas, como a de Jesus, por mais que lhe arrancassem pedaços,
continuava do mesmo tamanho. A cruz era muito resistente, incorruptível
à água, ao sol e ao vento, e tinha um cheiro agradável.
Um ilustre jesuíta espanhol, Antonio Ruiz de Montoya, um dos fundadores
das missões do Paraguai, diz ter possuído um fragmento do
precioso lenho. Ao examiná-lo pôde comprovar que fora feito
de uma árvore brasileira, que os espanhóis chamavam de pau
santo e os nativos, de jacarandá.
A título de conclusão, se é que é necessária
uma conclusão a estas linhas, vai a seguinte: São Tomé
não acreditou no Cristo, mas a América Latina acreditou
em São Tomé. Merecia melhor sorte.
A
lembrança de Sérgio Buarque e de Visão do Paraíso
vem a propósito de um livro recém-lançado, o
segundo volume de Introdução ao Brasil Um Banquete
no Trópico, organizado por Lourenço Dantas Mota (editora
Senac). A boa idéia que norteia o trabalho é apresentar,
em resenhas feitas por especialistas, mas ao alcance do leitor comum,
os livros fundamentais para conhecer o Brasil. Esse segundo volume trata
de dezessete livros, a começar por Visão do Paraíso,
incluindo História Geral do Brasil, de Varnhagen, Minha
Formação, de Joaquim Nabuco, e História da
Literatura Brasileira, de José Veríssimo. O primeiro
volume, lançado em 1999, abordava outros dezenove livros, dos Sermões
do padre Vieira a Os Sertões, de Euclides da Cunha,
e Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freire. Ao se ponderar
a quantidade e a qualidade dos livros expostos nos dois volumes, conclui-se
(se, de novo, é necessária uma conclusão) que, se
este país não tem dado certo, não é por falta
de ser pensado.
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