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O efeito tango

Raul
Juste Lores
| Ilustração Dalcio |
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UM
PAÍS NO FUNDO DO POÇO
A recessão argentina se arrasta há três anos.
O PIB caiu 3,2% em 1999, 0,5%
em 2000 e deve ficar estagnado em 2001
A Argentina tem uma dívida externa de 140
bilhões de dólares, o que equivale a 51%
do PIB
Só os juros da dívida externa neste ano equivalem
a 20% da arrecadação,
ou a quase metade das exportações
Nos últimos doze meses, as vendas do comércio caíram
19%, as de imóveis 39%
e as de carros 40%
O desemprego, que atingiu 16%
em maio, está acima dos 10%
desde o início dos anos 90
10 milhões dos 37 milhões
de argentinos estão abaixo da linha de pobreza
37% dos habitantes da Grande
Buenos Aires vivem abaixo da linha da pobreza. Em 1994, eram 23%
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Nos últimos
anos, quando o Brasil espirrava, a Argentina, tão dependente que
era da economia brasileira, caía de cama com pneumonia. A situação
hoje é bem pior. Com a economia mergulhada até o pescoço
numa crise profunda, é a Argentina que puxa o Brasil para baixo.
Na semana passada, Domingo Cavallo, o superministro argentino da Economia,
precisou recorrer duas vezes ao tratamento de choque para impedir que
a nau portenha fosse a pique. Na terça-feira, numa tentativa desesperada
de fazer caixa, ele se pôs a oferecer 14% de juros a quem quisesse
ficar com papéis do governo era quase o dobro do que pagara
quinze dias antes, mas mesmo assim foi necessário obrigar um banco
estatal a comprar boa parte. No dia seguinte, Cavallo decretou um pacotaço
que cortou salários de funcionários públicos, aumentou
o imposto do cheque e deu calote parcial nos fornecedores do Estado. A
cada novo revés do vizinho correspondeu um tumulto no mercado financeiro
do Brasil. Numa demonstração explícita de que o brasileiro
teme o efeito tango, o dólar ultrapassou a casa dos 2,50 reais,
um recorde desde a criação da moeda, há sete anos.
Por causa do Mercosul, que amarrou as duas economias, a crise em Buenos
Aires repercute muito no Brasil mas não só por aqui.
Todos os chamados mercados emergentes ficaram agitados na semana passada.
O tratamento
de choque adotado por Cavallo teve o efeito de um placebo ministrado num
caso terminal. De nada serviu para eliminar a fragilidade da economia
platina. Um dia depois do pacotaço, o índice risco-país
da Argentina, que dá a medida da confiança dos investidores
estrangeiros, subiu às alturas, com 1.519
pontos. Apenas a Nigéria, nação da África
conhecida pela corrupção e pelas rivalidades tribais endêmicas,
alcança um número pior. Quando desvalorizou sua moeda, a
Turquia só atingiu 1.000 pontos. A leitura
desse índice é a seguinte: ninguém de bom senso vai
investir um tostão na Argentina. Como o país está
quebrado, com uma dívida externa de 140 bilhões de dólares
que só em juros consome mais de 10 bilhões de dólares
por ano, a falta de investimento externo equivale a uma sentença
de morte para o modelo econômico adotado pelo país. Num desabafo
público, Cavallo admitiu com franqueza que seu país não
tem mais crédito. Os credores ficaram ainda mais aflitos, especulando
se o ministro se prepara para decretar moratória da dívida
externa. Seria um abalo nas finanças internacionais. A Argentina
precisa desesperadamente de dinheiro, de crescimento econômico e
de estabilidade política. Não tem nada disso. Está
endividada, os investimentos externos cessaram, a economia estagnou nos
últimos três anos, a coalizão governamental se desfez,
o partido no governo detesta o ministro da Economia, o líder da
oposição, o ex-presidente Carlos Menem, está preso.
Muita gente dá como certo que, por falta de apoio político,
o presidente Fernando de la Rúa não terminará o mandato,
que vai até 2003. Dentro de três meses, serão realizadas
eleições legislativas, e uma derrota esmagadora do governo
é dada como líquida e certa.
Joedson Alves/AE

Vizinhos
vulneráveis: De la Rúa, presidente fraco que não
inspira confiança, levou a Argentina à beira do abismo;
FHC, em crise de popularidade e com o real em queda, prefere evitar
brigas no Mercosul |
O governo
brasileiro enviou o presidente do Banco Central, Armínio Fraga,
primeiro a Basiléia e depois a Nova York para dizer ao mundo que
o Brasil é diferente. É uma estratégia recorrente.
Nas crises do México, em 1995, da Ásia, em 1997, e da Rússia,
em 1998, também se tentou demonstrar que a economia brasileira
tem bases mais sólidas que qualquer um desses países. Isso
é verdade, em parte, visto que nenhuma das três crises externas
jogou o Brasil na lona, embora tenham travado o crescimento por aqui e
provocado um clima de enorme apreensão. A situação
é diferente agora, em dois aspectos principais. Em primeiro lugar,
a Argentina é mais que um sócio o Mercosul nos tornou
irmãos siameses nas horas de bonança e nas horas de crise.
De 1990 para cá, o comércio entre os dois países
cresceu seis vezes. A Argentina é o segundo maior comprador das
exportações brasileiras, e o Brasil fica com um quarto de
tudo que a Argentina exporta. Entre 1992 e 1998, houve 648 fusões
e aquisições de empresas dentro do Mercosul, concentradas
nos setores financeiro, da indústria química, de alimentos
e de bebidas.
A crise
argentina não é a única razão para preocupações.
O Brasil tem os próprios problemas. O racionamento de energia reduziu
as expectativas de crescimento do PIB para pífios 2% ou 2,5% e
ajudou na desvalorização do real. Com a moeda mais fraca,
todos os produtos cotados em dólar, como o petróleo, ficaram
mais caros, o que vai aumentar as previsões de inflação.
Ao mesmo tempo, a oposição está em situação
animadora nas pesquisas de intenção de voto para presidente
da República, enquanto os candidatos do governo estão afundados
nas pesquisas, na companhia do barbudo Enéas. Como não existe
garantia de que um presidente esquerdista manterá as atuais regras
do jogo, os investidores estão cautelosos. O investimento externo
no Brasil deve ficar em 20 bilhões de dólares neste ano,
contra 33 bilhões no ano passado. "Pode parecer injusto, mas o
contágio da economia brasileira pelos problemas na Argentina é
um fato", diz o economista-chefe para a América Latina do banco
ING Barings, Lawrence Krohn. "Para os investidores estrangeiros, há
falta de confiança em tudo o que a Argentina toca, seus vizinhos,
parceiros e países em condições parecidas." O contágio
da crise argentina afetou quase todos os países sul-americanos,
chegando até o México, que até agora se mantinha
ileso devido à união comercial com os Estados Unidos. Houve
um começo de desconfiança também em relação
a países como África do Sul, Polônia, Hungria e a
eterna Turquia, que vive na corda bamba. O quadro ganha tons mais cinzentos
em decorrência do desânimo que ataca algumas nações
ricas. O Japão continua estagnado, enquanto os Estados Unidos e
a Europa caminham a passos lentos. Sem a força desses motores,
fica difícil reerguer os países pobres.
AP

Dólar
fica mais caro no Chile: crise argentina contagia os mercados emergentes,
afugentando investidores e derrubando moedas |
A situação
é mais delicada para os países latino-americanos. O continente
parece estar chegando ao fim de uma fase de otimismo. Depois de uma década
de dinheiro farto, impulsionado pelos programas de abertura e privatizações
na região, a fonte está secando. Em boa parte dos países
não há mais nada para privatizar. Os investidores estrangeiros
começam a achar que os mercados emergentes oferecem mais riscos
que vantagens. Apesar de uma década de discurseira, nenhum país
latino-americano levou até o fim as reformas necessárias
para modernizar a economia. Ficaram por completar os ajustes fiscais,
os investimentos em infra-estrutura e as reformas do Estado. Isso é
bem visível na Argentina. Atormentado por um enorme déficit
fiscal, o governo do presidente De la Rúa só se atreveu
a reduzir salários dos funcionários públicos, aprofundando
a recessão. Não falou em acabar com a enorme corrupção
nas províncias, onde nepotismo, funcionários fantasmas e
gastança são moedas comuns. A sonegação é
estimada em 30 bilhões de dólares, dinheiro capaz de cobrir
o déficit público e pagar os juros da dívida externa
por um ano. Quase nenhum argentino usa cheque e as transações
são feitas na maioria das vezes com dinheiro vivo, sem nenhum comprovante.
"Ser vizinho
da Argentina e parte da América Latina é um problema", escreveu
o economista americano Rudiger Dornbusch, do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts, em artigo no jornal Financial Times. Ele observa
que a América Latina sempre parece bem enquanto o dinheiro está
entrando, mas se vê em maus lençóis quando precisa
enfrentar as próprias mazelas. Conhecido como um analista afeto
a cenários catastróficos, Dornbusch escreve que "nos próximos
dez anos a América Latina terá de criar (seu próprio)
crescimento; o investimento estrangeiro não cuidará
disso". Esse é o problema. A Argentina já tentou literalmente
de tudo para tonificar sua economia. Há dez anos, ainda no governo
do presidente Carlos Menem, o ministro Cavallo atrelou o valor do peso
ao do dólar. Um peso vale 1 dólar, chova ou faça
sol. A estratégia derrubou a hiperinflação e deu
estabilidade ao país. O Estado ganhou muito dinheiro com seu enorme
programa de privatizações. Durante quase uma década,
o país cresceu à excelente taxa média de 5% ao ano.
Tudo foi posto a perder porque o governo gastou além do que arrecadava,
a dívida externa mais que dobrou e, principalmente, porque não
se criou uma indústria dinâmica. A paridade do peso com o
dólar, que foi determinante para derrotar a hiperinflação,
hoje é uma camisa-de-força que só provoca instabilidade.
Quase todas as moedas do mundo se desvalorizaram em relação
ao dólar, o que fez com que a economia argentina ficasse ainda
menos competitiva. Apesar da opinião generalizada de que a Argentina
deve desvalorizar o peso para voltar a ser competitiva e atrair os dólares
de que tanto precisa, os argentinos relutarão muito até
chegarem ao ato final, a morte da paridade. Com mais de 70% das dívidas
em dólares dos negócios do governo aos contratos
de aluguel e às contas dos serviços públicos ,
uma desvalorização jamais viria sozinha. Seria o estopim
de uma quebradeira de empresas e de calotes do cidadão comum.
Com um desemprego
de 16%, um empobrecimento forçado da classe média, redução
de salários e mau humor social, qualquer novo plano só provoca
mais pessimismo. Parece sem saída? Já foram baixados sete
pacotes em pouco mais de um ano e meio de governo De la Rúa, com
três ministros da Economia. Resultado: zero. Há sete meses,
o Fundo Monetário Internacional (FMI) emprestou 40 bilhões
de dólares para servirem de "blindagem". Isso é, garantir
o pagamento dos débitos externos. Não adiantou. Foram criados
novos impostos, reduzidos os salários do funcionalismo e assinados
pactos de responsabilidade fiscal com as províncias. Em abril,
renegociou-se a dívida externa. Nada disso resultou em crescimento
da economia. Cavallo foi convocado a assumir o combate à crise
devido a sua fama de mágico. A habilidade de prestidigitador, porém,
parece ter se esgotado no golpe aplicado à hiperinflação.
Em tentativas canhestras para dar maior competitividade aos produtos argentinos,
Cavallo passou por cima de acordos comerciais com o Brasil, colocando
o Mercosul em sua pior crise. Ele reduziu as tarifas para a importação
de produtos eletrônicos e de telecomunicações. Significa
que os outros países poderão vender aos argentinos em igualdade
de condições com o Brasil. Isso colocou em risco 600 milhões
de dólares de exportações brasileiras que até
agora usufruíam vantagens tarifárias.
O que o
Brasil deve fazer com um sócio tão volúvel? O Itamaraty
divulgou nota enfurecida, ameaçando suspender as negociações
bilaterais. Mas teve de voltar atrás, visto que qualquer briga
debilita ainda mais o agônico parceiro. "O Brasil deve fazer com
que a Argentina cumpra os acordos assinados, mas não pode isolá-la.
Uma Argentina isolada e à deriva não interessa a eles nem
a nós", diz o presidente da Sadia, Luiz Fernando Furlan. Nos últimos
dois anos, Brasil e Argentina brigaram por divergências no comércio
de tecidos, veículos, açúcar, calçados, carne
de porco, frango, laticínios, produtos químicos, farmacêuticos
e trigo enfim, em quase tudo. Cavallo reclama que o Brasil, com
suas sucessivas desvalorizações, tirou toda a competitividade
e capacidade da Argentina de atrair investimentos. "Mesmo com todas as
queixas, o Mercosul é ainda a maior arma para as negociações
com outros blocos e o melhor mercado para nossos produtos industrializados,
que enfrentam dificuldades para entrar nos países ricos", diz o
diretor para o Mercosul da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp), Mario Mugnaini Júnior.
A pergunta
a responder é se a Argentina vai quebrar já ou se a agonia
vai continuar, criando uma situação de instabilidade no
continente. Do ponto de vista brasileiro, o pior cenário é
que a agonia argentina se arraste por vários meses, minando toda
a confiança dos investidores estrangeiros nos mercados da região.
Se a bancarrota do vizinho acontecer, o Banco Central pretende torrar
alguns bilhões de dólares para manter o valor do real. Para
evitar a inflação, o governo também elevaria os juros
e efetuaria novos cortes nos gastos públicos. Ou seja, a quebradeira
platina se traduziria em maior recessão no Brasil. Um economista
calcula que um eventual colapso argentino seguraria o crescimento brasileiro
por, no mínimo, seis meses. É mesmo hora de torcer pela
Argentina.
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