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Meu
assunto preferido
"Não
há país desenvolvido
que
proíba o aborto. A proibição
é
bandeira de países atrasados"
Você está seguindo a disputa sobre as células estaminais
embrionárias? Virou meu assunto preferido. Só falo nisso.
Arrependo-me de ter matado tantas aulas de ciência nos tempos de
escola. Leio todas as notícias que aparecem e as comento com ar
doutoral, apesar de compreendê-las pouquíssimo. Outro dia,
por exemplo, cientistas introduziram células estaminais num rato
infartado e seu tecido cardíaco se reconstituiu. Existe uma razoável
esperança de que as células estaminais possam fazer o mesmo
com outros tecidos lesados, sobretudo os do cérebro, ajudando a
curar mal de Parkinson, Alzheimer ou paralisia cerebral. O problema é
que as experiências mais promissoras nesse campo envolvem células
estaminais retiradas de embriões humanos. Para retirá-las,
é necessário destruir os embriões. A Igreja Católica
é contrária. Diz que equivale a um aborto. Um documento
do Vaticano, assinado pelo professor Juan de Dios Vial Correa, considera
o uso científico de embriões humanos "gravemente imoral
e, portanto, gravemente ilícito". Não é a opinião
do governo britânico, o primeiro a consentir esse tipo de experimentação.
A seguir, vieram países como Austrália e Israel. Alguns
dias atrás, foi a vez da Alemanha. A posição dos
Estados Unidos é mais complicada. O ex-presidente Clinton autorizou
o financiamento federal de pesquisas com células embrionárias.
Assim que George W. Bush assumiu o cargo, pensou em suspender a autorização.
Mas está tendo de voltar atrás, por causa da pressão
de parlamentares de seu próprio partido. Seja como for, parece
que nada será definido antes de 23 de julho, quando Bush se encontrará
com o papa.
O Brasil nunca fez uma descoberta científica importante. Significa
que qualquer opinião do nosso governo sobre a experimentação
com embriões humanos será irrelevante, assim como é
irrelevante a opinião expressa neste artigo. Indiretamente, porém,
a coisa nos diz respeito. Meu filho sofreu uma grave asfixia durante o
parto. Li que um cientista de Harvard, Evan Snyder, está analisando
o efeito de células estaminais implantadas no cérebro de
animais que sofreram grave asfixia perinatal. É possível
que, um dia, essas pesquisas envolvam células estaminais retiradas
de embriões humanos. O que fazer? Deixar as pesquisas de lado?
Decretar guerra contra a Igreja Católica? Perda de tempo. A Igreja
Católica já perdeu. Veja a controversa questão do
aborto. Não há um único país desenvolvido
que o proíba. A proibição é uma bandeira exclusiva
de países subdesenvolvidos, como o Brasil. Não implica que
ele não seja praticado. As brasileiras abortam como em qualquer
outro lugar. A diferença é que as brasileiras ricas vão
a clínicas mais ou menos seguras, enquanto as pobres correm o risco
de morrer. A clandestinidade do aborto não preserva a vida, preserva
um privilégio de classe. Como sempre, na base do nosso comportamento
não há um princípio ético, mas apenas a aceitação
de uma iniqüidade social. Como no caso da prisão especial.
Felizmente, podemos contar com os lobistas da indústria farmacêutica
americana. Pensando no lucro das empresas que representam, eles farão
com que as pesquisas com células estaminais embrionárias
possam prosseguir. E a opinião da Igreja Católica se tornará
tão irrelevante quanto a minha.
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