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Edição 1 709 - 18 de julho de 2001
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Meu assunto preferido

"Não há país desenvolvido que
proíba
o aborto. A proibição é
bandeira de países atrasados"

Você está seguindo a disputa sobre as células estaminais embrionárias? Virou meu assunto preferido. Só falo nisso. Arrependo-me de ter matado tantas aulas de ciência nos tempos de escola. Leio todas as notícias que aparecem e as comento com ar doutoral, apesar de compreendê-las pouquíssimo. Outro dia, por exemplo, cientistas introduziram células estaminais num rato infartado e seu tecido cardíaco se reconstituiu. Existe uma razoável esperança de que as células estaminais possam fazer o mesmo com outros tecidos lesados, sobretudo os do cérebro, ajudando a curar mal de Parkinson, Alzheimer ou paralisia cerebral. O problema é que as experiências mais promissoras nesse campo envolvem células estaminais retiradas de embriões humanos. Para retirá-las, é necessário destruir os embriões. A Igreja Católica é contrária. Diz que equivale a um aborto. Um documento do Vaticano, assinado pelo professor Juan de Dios Vial Correa, considera o uso científico de embriões humanos "gravemente imoral e, portanto, gravemente ilícito". Não é a opinião do governo britânico, o primeiro a consentir esse tipo de experimentação. A seguir, vieram países como Austrália e Israel. Alguns dias atrás, foi a vez da Alemanha. A posição dos Estados Unidos é mais complicada. O ex-presidente Clinton autorizou o financiamento federal de pesquisas com células embrionárias. Assim que George W. Bush assumiu o cargo, pensou em suspender a autorização. Mas está tendo de voltar atrás, por causa da pressão de parlamentares de seu próprio partido. Seja como for, parece que nada será definido antes de 23 de julho, quando Bush se encontrará com o papa.

O Brasil nunca fez uma descoberta científica importante. Significa que qualquer opinião do nosso governo sobre a experimentação com embriões humanos será irrelevante, assim como é irrelevante a opinião expressa neste artigo. Indiretamente, porém, a coisa nos diz respeito. Meu filho sofreu uma grave asfixia durante o parto. Li que um cientista de Harvard, Evan Snyder, está analisando o efeito de células estaminais implantadas no cérebro de animais que sofreram grave asfixia perinatal. É possível que, um dia, essas pesquisas envolvam células estaminais retiradas de embriões humanos. O que fazer? Deixar as pesquisas de lado? Decretar guerra contra a Igreja Católica? Perda de tempo. A Igreja Católica já perdeu. Veja a controversa questão do aborto. Não há um único país desenvolvido que o proíba. A proibição é uma bandeira exclusiva de países subdesenvolvidos, como o Brasil. Não implica que ele não seja praticado. As brasileiras abortam como em qualquer outro lugar. A diferença é que as brasileiras ricas vão a clínicas mais ou menos seguras, enquanto as pobres correm o risco de morrer. A clandestinidade do aborto não preserva a vida, preserva um privilégio de classe. Como sempre, na base do nosso comportamento não há um princípio ético, mas apenas a aceitação de uma iniqüidade social. Como no caso da prisão especial. Felizmente, podemos contar com os lobistas da indústria farmacêutica americana. Pensando no lucro das empresas que representam, eles farão com que as pesquisas com células estaminais embrionárias possam prosseguir. E a opinião da Igreja Católica se tornará tão irrelevante quanto a minha.

 
 
   
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