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Receita
para crescer
Economista de Harvard diz
que o
Brasil só melhorará
quando exportar
produtos de alta tecnologia
Eduardo Salgado
O professor de comércio internacional da Universidade Harvard Jeffrey
Sachs é um dos economistas mais influentes do mundo. Presidente
da comissão de macroeconomia da Organização Mundial
de Saúde, Sachs nasceu nos Estados Unidos em 1954 e é um
estudioso das razões que influem no desenvolvimento dos países.
Durante a década de 90 esteve várias vezes no Brasil, e
conhece os desafios básicos do país. Segundo Sachs, o Brasil
só poderá exibir altos índices de crescimento econômico
com uma mudança na atitude nacional em relação ao
mundo. Argumenta que os empresários brasileiros deveriam olhar
mais para os mercados externos, em busca de oportunidades de exportação,
enquanto o governo precisaria investir pesadamente em educação
e na atração de companhias de alta tecnologia. Sugere que
o governo crie uma estratégia tecnológica e diz que a sociedade
brasileira deveria colocar-se como meta ter metade dos jovens nas universidades
em 2020. Sachs mora em Boston, nos Estados Unidos, com a família,
mas passa boa parte de seu tempo prestando assessoria e proferindo palestras
em várias partes do mundo. Recém-chegado da Ásia,
concedeu a VEJA a seguinte entrevista.
Veja O Brasil está mal colocado no ranking do desenvolvimento
tecnológico divulgado na semana passada pela ONU. Por que estamos
nessa situação?
Sachs
O
Brasil precisa urgentemente de uma estratégia de crescimento baseada
em tecnologia. O país deve investir mais em pesquisa e desenvolvimento,
em universidades e na atração de empresas de alta tecnologia,
como as de semicondutores. Viajei recentemente pela Ásia e constatei
que quase todos os países têm uma estratégia de ciência
e tecnologia. Mesmo os pobres dão prioridade a essa área.
Não se vê isso na América Latina. Brasil, Argentina
e Chile são países que poderiam fazer muito mais com os
próprios recursos, mas não fazem.
Veja Por quê?
Sachs
Para
a maioria dos analistas, o Brasil é um paradoxo. O país
tem uma base industrial desenvolvida, um setor da sociedade altamente
sofisticado e um corpo considerável de cientistas. O mistério
é que tudo isso ainda não se traduziu em competitividade.
Isso é um reflexo do desdém dos brasileiros pelo mercado
internacional. Lembro-me de quando viajava periodicamente ao Brasil, em
meados da década de 90, e sempre ouvia os empresários dizerem:
"Não temos preocupações porque nosso mercado interno
é enorme". Esse tipo de postura tem causado grandes prejuízos
ao país. O Brasil precisa exportar para atingir a prosperidade.
Não vendendo produtos agrícolas, mas, sim, de alta tecnologia.
Se isso fosse feito, o país poderia realmente dar um grande salto.
Com o fim da Guerra Fria, as velhas divisões ideológicas
acabaram, dando lugar a uma divisão baseada na tecnologia. Países
onde vivem cerca de 15% da população mundial são
responsáveis por quase todas as invenções. Países
onde está a metade da humanidade têm condições
de adotar essas tecnologias. Os restantes 2 bilhões de seres humanos,
um terço do total, não as produzem nem sabem como usá-las.
As fronteiras das regiões excluídas não são
as mesmas do mapa-múndi. A região da Amazônia no Brasil,
por exemplo, faz companhia a vários países africanos no
grupo dos excluídos.
Veja Há muito se fala que o Brasil precisa exportar
produtos de alta tecnologia, mas como se alcança esse objetivo?
Sachs
A retórica no Brasil até pode ser essa, a da busca da competitividade
internacional. O fato é que a retórica até agora
não foi transformada em uma estratégia. Ainda estou esperando
o governo garantir, com todas as letras, que o país irá
basear seu crescimento nas exportações. O Brasil precisa
de um plano bem delineado de como chegar a seus objetivos. Quais são
as empresas que o país quer atrair? O Brasil necessita de uma política
industrial para beneficiar esses setores de alta tecnologia. Os asiáticos
vêm fazendo isso com sucesso há trinta anos. Até mesmo
nos Estados Unidos temos políticas industriais. É o caso
da internet, da biotecnologia. O governo dá incentivos fiscais,
investe em desenvolvimento e tecnologia. O governo americano diz para
os demais países cortarem gastos nessas áreas, mas não
faz o que diz.
Veja O Brasil tem um longo histórico de proteção
e incentivos fiscais cujo resultado foi uma indústria pouco competitiva
internacionalmente. O senhor quer a volta desse modelo?
Sachs
Não. Sou contra a adoção de políticas protecionistas,
como a lei de informática. Um país tem acesso a novas tecnologias
atraindo grandes companhias globais. Foi isso que fizeram Israel, Malásia
e Costa Rica. O que é chocante é o fato de o Brasil ainda
não ter recebido grandes investimentos na área de semicondutores.
Isso mostra uma falta de esforço do governo na atração
dessas empresas. O Brasil deve convencer-se de que precisa tornar-se uma
plataforma de exportação de produtos de alta tecnologia.
Veja Se o governo der incentivos fiscais para atrair companhias,
não terá novos problemas para fechar suas contas?
Sachs
O Brasil já torrou muito dinheiro protegendo setores ineficientes,
financiando políticas industriais regionais, tentando levar fábricas
para o meio da Amazônia. Política industrial não é
necessariamente assim. A verdade é que os problemas existem. Se
você der muitos incentivos, poderá complicar-se na Organização
Mundial do Comércio (OMC). Outros países poderão
reclamar de competição desleal, como fez o Canadá
no caso da Embraer. Ainda assim, há espaço para uma estratégia.
Se o governo decidir dar incentivos fiscais a empresas de alguns setores
de alta tecnologia, não terá necessariamente problemas de
caixa. Vai abdicar de receber impostos por alguns anos. Se essas empresas
não forem para o Brasil, o governo não irá receber
esse dinheiro de qualquer forma.
Veja Por que o desempenho dos cientistas brasileiros é
pífio?
Sachs
Em 1999, para cada grupo de 1 milhão de coreanos, foram feitos
76 registros de patentes de invenções nos Estados Unidos.
No caso dos israelenses, o número foi de 124. A média dos
brasileiros foi de meia patente. Na Coréia do Sul, para cada grupo
de 1 milhão de habitantes, há 2.200 cientistas trabalhando
em pesquisa. No Brasil, há 168. Recebo há vários
anos formulários de alunos brasileiros interessados em estudar
em Harvard. Uma das coisas que percebi é que existe um certo desleixo.
As cartas de recomendação escritas pelos professores brasileiros
são risíveis, muitas escritas a mão. Os formulários
são preenchidos de forma desorganizada. Isso revela a postura dessas
pessoas. O Brasil investe muito pouco em tecnologia e desenvolvimento.
Apenas 0,8% de toda a riqueza do país vai para essa área.
Já na Coréia do Sul o porcentual é de 2,7%.
Veja Como se pode mudar isso?
Sachs
A
formação universitária dos brasileiros, seja no exterior
ou no próprio país, é vital. O Brasil não
será competitivo internacionalmente se não investir na educação
de nível superior. Em 1996, 55% dos jovens sul-coreanos estavam
matriculados em universidades. No Brasil, apenas 12%. O país necessita
de líderes empresariais, de engenheiros para chegar a um estágio
adiantado de desenvolvimento. O Brasil deveria ter objetivos do tipo:
em 2020, metade dos jovens estarão estudando em faculdades públicas
ou privadas.
Veja O senhor acha que o Brasil ainda precisa encontrar um
modelo de desenvolvimento?
Sachs
Estou otimista em relação ao Brasil. A crise depois da queda
do real foi muito bem conduzida e me deu a esperança de que o país
irá acordar para at face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2" color="#000000">
Veja O senhor acha que o Brasil ainda precisa encontrar um
modelo de desenvolvimento?
Sachs
Estou otimista em relação ao Brasil. A crise depois da queda
do real foi muito bem conduzida e me deu a esperança de que o país
irá acordar para a necessidade de adotar uma estratégia
voltada para fora. Os fundamentos da economia estão todos em dia.
O Brasil tem tudo na mão: instituições estáveis
e fortes, uma base industrial invejável e o fim da inflação.
A sociedade brasileira é uma das mais injustas do mundo. Uma das
coisas que me preocupavam era a inexistência de políticas
para melhorar as possibilidades de sucesso dos menos favorecidos. Os progressos
feitos na área da educação nos últimos anos
estão começando a mudar isso. O Brasil inicia o século
XXI em uma situação bem melhor do que nas últimas
décadas.
Veja Por que a abertura da economia brasileira não
imprimiu velocidade ao crescimento econômico?
Sachs
Para a maioria dos países em desenvolvimento, abrir a economia
às importações e atrair investidores estrangeiros
é um bom negócio. O que é óbvio é que
isso não é suficiente para resolver todos os problemas.
Se partes consideráveis da população estão
marginalizadas ou se os custos de transporte são altos, não
é apenas o bom gerenciamento da economia que vai dar jeito.
Veja Por quê?
Sachs
Há outros fatores que devem ser levados em conta. Na África,
um porcentual alto da população sofre de Aids e de malária
e isso tem uma forte influência no desempenho econômico. Por
muito tempo, os organismos internacionais se negaram a levar esses fatores
em conta. Não viam que a solução desses problemas
está intimamente ligada às metas de crescimento sustentável
de longo prazo. Pressionavam os governos para tocar reformas fiscais,
para privatizar, enquanto mais da metade da população do
país estava morrendo. Isso foi um grande erro.
Veja E a América Latina?
Sachs
Muitos dos países latino-americanos são tecnologicamente
atrasados, não investem em pesquisa e desenvolvimento, o ensino
de matemática e ciências que oferecem é ruim. Por
isso, suas economias não são competitivas em áreas
de alta tecnologia. Continuam sem condições de competir
nos mercados internacionais, dependentes da exportação de
produtos minerais ou agrícolas, como petróleo, carne, trigo,
suco de laranja, cobre e vinhos. As políticas do FMI conseguem,
em alguns casos, promover a estabilidade, mas não incentivar o
crescimento econômico. Em seguida, esses países acabam sofrendo
outra crise de balança de pagamentos e o FMI surge de novo para
a operação de salvamento. Os problemas de longo prazo continuam
sem resposta.
Veja A Área de Livre Comércio das Américas
(Alca) é bom negócio para o Brasil?
Sachs
A Alca não trará grandes benefícios a nenhum dos
países do continente. Para o Brasil, exportar para os Estados Unidos
é tão importante quanto vender seus produtos para a Europa.
Por outro lado, a Alca também não fará grande mal.
O Brasil só deve estar atento para não permitir que os Estados
Unidos fechem a porta às exportações agrícolas
brasileiras. Outro ponto importante: o Brasil deve lutar na OMC pelo fim
das barreiras ao comércio e firmar um acordo com os europeus.
Veja Qual é a saída para a crise argentina?
Sachs
Não há saídas mágicas para a Argentina. A
lei da convertibilidade, que foi importante para livrar o país
de anos de hiperinflação, é agora uma camisa-de-força.
A paridade entre o peso e o dólar não é opção
porque a economia da Argentina e a dos Estados Unidos são muito
diferentes. Se a Argentina pudesse desvalorizar o peso em 30%, faria um
grande negócio. Mas não pode. A melhor saída para
a Argentina é formar uma união monetária com o Brasil.
Na verdade, os dois países têm ótimas condições
de obter sucesso com a adoção dessa medida. Há muita
complementaridade entre as duas economias e o estágio da integração
já é avançado.
Veja Existe uma receita para tirar a África da miséria?
Sachs
Os países mais pobres do mundo não têm como bancar
as medidas necessárias para atingir o desenvolvimento. Não
têm dinheiro nem para bancar a saúde e a educação
básica. Sem ajuda internacional, a África corre o perigo
de entrar em colapso. De onde o dinheiro virá? Terá de vir
dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão.
A ajuda internacional dos Estados Unidos é ridiculamente baixa.
O total para a África tem ficado na marca de 1 bilhão de
dólares por ano. Para países como Equador, Bolívia,
Honduras, El Salvador, é preciso cancelar a dívida externa.
Veja O perdão da dívida desses países
irá melhorar a vida das suas populações?
Sachs
Só se os governos forem obrigados a aumentar os gastos nas áreas
sociais. Esse plano deve ser monitorado de perto. Existe algo nessa discussão
que me incomoda muito. Quando falam em perdoar as dívidas, os países
ricos estão trabalhando com valores muito pequenos. O FMI se nega
a examinar as verdadeiras necessidades desses países porque os
poderosos da Europa e dos Estados Unidos não querem ficar sem os
pagamentos. Se o FMI olhasse bem, perceberia que para uma dúzia
de países é preciso perdoar 100% da dívida.
Veja Por que os americanos, europeus e japoneses deveriam
ajudar os africanos e alguns países da América Latina?
Sachs
Há três argumentos para tentar convencer os cidadãos
do Primeiro Mundo. Preciso confessar que não tenho obtido muito
sucesso em convencê-los. O primeiro é que temos um dever
ético de auxiliar outros seres humanos em dificuldade. Quando peço
2 bilhões de dólares extras dos Estados Unidos para ajudar
a combater o problema da Aids na África, explico que é coisa
pouca. São 8 dólares por americano. É trocar uma
sessão de cinema por uma vida. Companhias americanas têm
investimentos nesses países e o colapso de governos afeta os negócios.
Se os países africanos tivessem um serviço de saúde
decente quando os primeiros casos de Aids surgiram, será que a
doença teria se espalhado pelo mundo da forma como vimos?
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