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Edição 1 709 - 18 de julho de 2001
Entrevista: JEFFREY SACHS

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Receita para crescer

Economista de Harvard diz que o
Brasil só
melhorará quando exportar
produtos de alta tecnologia

Eduardo Salgado

O professor de comércio internacional da Universidade Harvard Jeffrey Sachs é um dos economistas mais influentes do mundo. Presidente da comissão de macroeconomia da Organização Mundial de Saúde, Sachs nasceu nos Estados Unidos em 1954 e é um estudioso das razões que influem no desenvolvimento dos países. Durante a década de 90 esteve várias vezes no Brasil, e conhece os desafios básicos do país. Segundo Sachs, o Brasil só poderá exibir altos índices de crescimento econômico com uma mudança na atitude nacional em relação ao mundo. Argumenta que os empresários brasileiros deveriam olhar mais para os mercados externos, em busca de oportunidades de exportação, enquanto o governo precisaria investir pesadamente em educação e na atração de companhias de alta tecnologia. Sugere que o governo crie uma estratégia tecnológica e diz que a sociedade brasileira deveria colocar-se como meta ter metade dos jovens nas universidades em 2020. Sachs mora em Boston, nos Estados Unidos, com a família, mas passa boa parte de seu tempo prestando assessoria e proferindo palestras em várias partes do mundo. Recém-chegado da Ásia, concedeu a VEJA a seguinte entrevista.

Veja – O Brasil está mal colocado no ranking do desenvolvimento tecnológico divulgado na semana passada pela ONU. Por que estamos nessa situação?
Sachs – O Brasil precisa urgentemente de uma estratégia de crescimento baseada em tecnologia. O país deve investir mais em pesquisa e desenvolvimento, em universidades e na atração de empresas de alta tecnologia, como as de semicondutores. Viajei recentemente pela Ásia e constatei que quase todos os países têm uma estratégia de ciência e tecnologia. Mesmo os pobres dão prioridade a essa área. Não se vê isso na América Latina. Brasil, Argentina e Chile são países que poderiam fazer muito mais com os próprios recursos, mas não fazem.

Veja – Por quê?
Sachs – Para a maioria dos analistas, o Brasil é um paradoxo. O país tem uma base industrial desenvolvida, um setor da sociedade altamente sofisticado e um corpo considerável de cientistas. O mistério é que tudo isso ainda não se traduziu em competitividade. Isso é um reflexo do desdém dos brasileiros pelo mercado internacional. Lembro-me de quando viajava periodicamente ao Brasil, em meados da década de 90, e sempre ouvia os empresários dizerem: "Não temos preocupações porque nosso mercado interno é enorme". Esse tipo de postura tem causado grandes prejuízos ao país. O Brasil precisa exportar para atingir a prosperidade. Não vendendo produtos agrícolas, mas, sim, de alta tecnologia. Se isso fosse feito, o país poderia realmente dar um grande salto. Com o fim da Guerra Fria, as velhas divisões ideológicas acabaram, dando lugar a uma divisão baseada na tecnologia. Países onde vivem cerca de 15% da população mundial são responsáveis por quase todas as invenções. Países onde está a metade da humanidade têm condições de adotar essas tecnologias. Os restantes 2 bilhões de seres humanos, um terço do total, não as produzem nem sabem como usá-las. As fronteiras das regiões excluídas não são as mesmas do mapa-múndi. A região da Amazônia no Brasil, por exemplo, faz companhia a vários países africanos no grupo dos excluídos.

Veja – Há muito se fala que o Brasil precisa exportar produtos de alta tecnologia, mas como se alcança esse objetivo?
Sachs – A retórica no Brasil até pode ser essa, a da busca da competitividade internacional. O fato é que a retórica até agora não foi transformada em uma estratégia. Ainda estou esperando o governo garantir, com todas as letras, que o país irá basear seu crescimento nas exportações. O Brasil precisa de um plano bem delineado de como chegar a seus objetivos. Quais são as empresas que o país quer atrair? O Brasil necessita de uma política industrial para beneficiar esses setores de alta tecnologia. Os asiáticos vêm fazendo isso com sucesso há trinta anos. Até mesmo nos Estados Unidos temos políticas industriais. É o caso da internet, da biotecnologia. O governo dá incentivos fiscais, investe em desenvolvimento e tecnologia. O governo americano diz para os demais países cortarem gastos nessas áreas, mas não faz o que diz.

Veja – O Brasil tem um longo histórico de proteção e incentivos fiscais cujo resultado foi uma indústria pouco competitiva internacionalmente. O senhor quer a volta desse modelo?
Sachs – Não. Sou contra a adoção de políticas protecionistas, como a lei de informática. Um país tem acesso a novas tecnologias atraindo grandes companhias globais. Foi isso que fizeram Israel, Malásia e Costa Rica. O que é chocante é o fato de o Brasil ainda não ter recebido grandes investimentos na área de semicondutores. Isso mostra uma falta de esforço do governo na atração dessas empresas. O Brasil deve convencer-se de que precisa tornar-se uma plataforma de exportação de produtos de alta tecnologia.

Veja – Se o governo der incentivos fiscais para atrair companhias, não terá novos problemas para fechar suas contas?
Sachs – O Brasil já torrou muito dinheiro protegendo setores ineficientes, financiando políticas industriais regionais, tentando levar fábricas para o meio da Amazônia. Política industrial não é necessariamente assim. A verdade é que os problemas existem. Se você der muitos incentivos, poderá complicar-se na Organização Mundial do Comércio (OMC). Outros países poderão reclamar de competição desleal, como fez o Canadá no caso da Embraer. Ainda assim, há espaço para uma estratégia. Se o governo decidir dar incentivos fiscais a empresas de alguns setores de alta tecnologia, não terá necessariamente problemas de caixa. Vai abdicar de receber impostos por alguns anos. Se essas empresas não forem para o Brasil, o governo não irá receber esse dinheiro de qualquer forma.

Veja – Por que o desempenho dos cientistas brasileiros é pífio?
Sachs – Em 1999, para cada grupo de 1 milhão de coreanos, foram feitos 76 registros de patentes de invenções nos Estados Unidos. No caso dos israelenses, o número foi de 124. A média dos brasileiros foi de meia patente. Na Coréia do Sul, para cada grupo de 1 milhão de habitantes, há 2.200 cientistas trabalhando em pesquisa. No Brasil, há 168. Recebo há vários anos formulários de alunos brasileiros interessados em estudar em Harvard. Uma das coisas que percebi é que existe um certo desleixo. As cartas de recomendação escritas pelos professores brasileiros são risíveis, muitas escritas a mão. Os formulários são preenchidos de forma desorganizada. Isso revela a postura dessas pessoas. O Brasil investe muito pouco em tecnologia e desenvolvimento. Apenas 0,8% de toda a riqueza do país vai para essa área. Já na Coréia do Sul o porcentual é de 2,7%.

Veja – Como se pode mudar isso?
Sachs – A formação universitária dos brasileiros, seja no exterior ou no próprio país, é vital. O Brasil não será competitivo internacionalmente se não investir na educação de nível superior. Em 1996, 55% dos jovens sul-coreanos estavam matriculados em universidades. No Brasil, apenas 12%. O país necessita de líderes empresariais, de engenheiros para chegar a um estágio adiantado de desenvolvimento. O Brasil deveria ter objetivos do tipo: em 2020, metade dos jovens estarão estudando em faculdades públicas ou privadas.

Veja – O senhor acha que o Brasil ainda precisa encontrar um modelo de desenvolvimento?
Sachs – Estou otimista em relação ao Brasil. A crise depois da queda do real foi muito bem conduzida e me deu a esperança de que o país irá acordar para at face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2" color="#000000"> Veja – O senhor acha que o Brasil ainda precisa encontrar um modelo de desenvolvimento?
Sachs – Estou otimista em relação ao Brasil. A crise depois da queda do real foi muito bem conduzida e me deu a esperança de que o país irá acordar para a necessidade de adotar uma estratégia voltada para fora. Os fundamentos da economia estão todos em dia. O Brasil tem tudo na mão: instituições estáveis e fortes, uma base industrial invejável e o fim da inflação. A sociedade brasileira é uma das mais injustas do mundo. Uma das coisas que me preocupavam era a inexistência de políticas para melhorar as possibilidades de sucesso dos menos favorecidos. Os progressos feitos na área da educação nos últimos anos estão começando a mudar isso. O Brasil inicia o século XXI em uma situação bem melhor do que nas últimas décadas.

Veja – Por que a abertura da economia brasileira não imprimiu velocidade ao crescimento econômico?
Sachs – Para a maioria dos países em desenvolvimento, abrir a economia às importações e atrair investidores estrangeiros é um bom negócio. O que é óbvio é que isso não é suficiente para resolver todos os problemas. Se partes consideráveis da população estão marginalizadas ou se os custos de transporte são altos, não é apenas o bom gerenciamento da economia que vai dar jeito.

Veja – Por quê?
Sachs – Há outros fatores que devem ser levados em conta. Na África, um porcentual alto da população sofre de Aids e de malária e isso tem uma forte influência no desempenho econômico. Por muito tempo, os organismos internacionais se negaram a levar esses fatores em conta. Não viam que a solução desses problemas está intimamente ligada às metas de crescimento sustentável de longo prazo. Pressionavam os governos para tocar reformas fiscais, para privatizar, enquanto mais da metade da população do país estava morrendo. Isso foi um grande erro.

Veja – E a América Latina?
Sachs – Muitos dos países latino-americanos são tecnologicamente atrasados, não investem em pesquisa e desenvolvimento, o ensino de matemática e ciências que oferecem é ruim. Por isso, suas economias não são competitivas em áreas de alta tecnologia. Continuam sem condições de competir nos mercados internacionais, dependentes da exportação de produtos minerais ou agrícolas, como petróleo, carne, trigo, suco de laranja, cobre e vinhos. As políticas do FMI conseguem, em alguns casos, promover a estabilidade, mas não incentivar o crescimento econômico. Em seguida, esses países acabam sofrendo outra crise de balança de pagamentos e o FMI surge de novo para a operação de salvamento. Os problemas de longo prazo continuam sem resposta.

Veja – A Área de Livre Comércio das Américas (Alca) é bom negócio para o Brasil?
Sachs – A Alca não trará grandes benefícios a nenhum dos países do continente. Para o Brasil, exportar para os Estados Unidos é tão importante quanto vender seus produtos para a Europa. Por outro lado, a Alca também não fará grande mal. O Brasil só deve estar atento para não permitir que os Estados Unidos fechem a porta às exportações agrícolas brasileiras. Outro ponto importante: o Brasil deve lutar na OMC pelo fim das barreiras ao comércio e firmar um acordo com os europeus.

Veja – Qual é a saída para a crise argentina?
Sachs – Não há saídas mágicas para a Argentina. A lei da convertibilidade, que foi importante para livrar o país de anos de hiperinflação, é agora uma camisa-de-força. A paridade entre o peso e o dólar não é opção porque a economia da Argentina e a dos Estados Unidos são muito diferentes. Se a Argentina pudesse desvalorizar o peso em 30%, faria um grande negócio. Mas não pode. A melhor saída para a Argentina é formar uma união monetária com o Brasil. Na verdade, os dois países têm ótimas condições de obter sucesso com a adoção dessa medida. Há muita complementaridade entre as duas economias e o estágio da integração já é avançado.

Veja – Existe uma receita para tirar a África da miséria?
Sachs – Os países mais pobres do mundo não têm como bancar as medidas necessárias para atingir o desenvolvimento. Não têm dinheiro nem para bancar a saúde e a educação básica. Sem ajuda internacional, a África corre o perigo de entrar em colapso. De onde o dinheiro virá? Terá de vir dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão. A ajuda internacional dos Estados Unidos é ridiculamente baixa. O total para a África tem ficado na marca de 1 bilhão de dólares por ano. Para países como Equador, Bolívia, Honduras, El Salvador, é preciso cancelar a dívida externa.

Veja – O perdão da dívida desses países irá melhorar a vida das suas populações?
Sachs – Só se os governos forem obrigados a aumentar os gastos nas áreas sociais. Esse plano deve ser monitorado de perto. Existe algo nessa discussão que me incomoda muito. Quando falam em perdoar as dívidas, os países ricos estão trabalhando com valores muito pequenos. O FMI se nega a examinar as verdadeiras necessidades desses países porque os poderosos da Europa e dos Estados Unidos não querem ficar sem os pagamentos. Se o FMI olhasse bem, perceberia que para uma dúzia de países é preciso perdoar 100% da dívida.

Veja – Por que os americanos, europeus e japoneses deveriam ajudar os africanos e alguns países da América Latina?
Sachs – Há três argumentos para tentar convencer os cidadãos do Primeiro Mundo. Preciso confessar que não tenho obtido muito sucesso em convencê-los. O primeiro é que temos um dever ético de auxiliar outros seres humanos em dificuldade. Quando peço 2 bilhões de dólares extras dos Estados Unidos para ajudar a combater o problema da Aids na África, explico que é coisa pouca. São 8 dólares por americano. É trocar uma sessão de cinema por uma vida. Companhias americanas têm investimentos nesses países e o colapso de governos afeta os negócios. Se os países africanos tivessem um serviço de saúde decente quando os primeiros casos de Aids surgiram, será que a doença teria se espalhado pelo mundo da forma como vimos?

 
 
   
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