Atenção: dólares pousando

Os fatores que estão atraindo investimentos são os
mesmos que tornam a bolsa atraente a longo prazo

Antenor Nascimento Neto e João Sorima Neto

O sinal Brasil está piscando nos centros financeiros como Nova York e Londres. Ali se observa um país que levantou vôo. Um milhão de dólares, metabolizado pelas bolsas de valores brasileiras, pode virar 1,5 milhão em apenas cinco meses, como está acontecendo neste primeiro semestre de 1997. Há estatais gigantescas no Brasil, bancos e indústrias para comprar, oportunidades que estão atraindo corporações com marca mundial. O consumo da população cresce, e um dos melhores negócios do mundo, a telefonia celular, está para ser concedido a empresários privados. A imagem, nesses centros financeiros do Primeiro Mundo, é a de uma fronteira na América Latina com muitas oportunidades e promessas de lucro. Por isso, não há grande banco que não esteja apresentando a pasta Brasil a seus clientes. Os investidores estão respondendo. Além do dinheiro que mandaram para as bolsas, estão enviando um Boeing de dólares para comprar ou montar fábricas, bancos, supermercados.

No ano passado, o Brasil recebeu mais de 9 bilhões de dólares em investimento direto, aquele que desembarca para montar negócios e não para a ciranda do mercado financeiro. Para este ano, a previsão é de 15 bilhões. Se ela se concretizar, o Brasil terá recebido em 1997 quase o mesmo que recebeu durante a década de 80 inteira. No capítulo do investimento estrangeiro, portanto, o país está percorrendo dez anos em apenas um. Durante quinze anos, o Brasil esteve riscado da opção dos capitalistas internacionais. Voltou a ser interessante por razões que o analista de Wall Street ou da City londrina muitas vezes compreende melhor do que o próprio brasileiro. Os libretos em inglês a respeito do Brasil, que os bancos andam distribuindo aos investidores, falam de uma economia estabilizada, com 160 milhões de habitantes, PIB de 750 bilhões de dólares, o décimo maior parque industrial do mundo e a possibilidade de crescimento da economia de 6% ao ano. Aliás, são também esses os ingredientes que estão por trás do interesse que a bolsa de valores brasileira está despertando. Não o interesse espasmódico dos primeiros cinco meses deste ano. O que vigora, entre investidores mais tarimbados, é uma perspectiva de avanço gradual da bolsa no prazo longo.

Muita gente enxerga o Brasil com outra retina, bem diferente, de acordo com a qual nada avançou e nada avançará com o pouso dos bilhões estrangeiros nem com o investimento dos próprios empresários brasileiros na produção, coisa que também está crescendo. Afinal, continuam aí os sem-terra e os sem-teto, os políticos corruptos, os miseráveis, os analfabetos. Essas tragédias existem, estão incrustadas na pele do país há muito tempo e terão de ser resolvidas. Mas a planilha dos financistas indica que alguma coisa mudou, sim. Eles chamam países como o Brasil de "emergentes", ou seja, que começam a pesar na economia mundial. Nessa classificação entram outros como Argentina, México, China, Índia, Indonésia, Coréia, Tailândia, Paquistão e Polônia. Todos os emergentes têm os seus corruptos e os seus miseráveis, mas estão enriquecendo com a ajuda dos dólares que vêm de países que emergiram há mais tempo -- e por isso puderam resolver os seus problemas sociais.

Os donos do dinheiro pesado, que podem ser acusados de tudo menos de tolos, compararam no caso brasileiro os fatores risco e oportunidade e concluíram que a oportunidade sai ganhando. "O Brasil é outro. Agora dá para produzir, ter lucro e fazer projetos de longo prazo. É essa a mensagem que transmitimos a quem tem dinheiro para investir", diz Patrick Ledoux, diretor do Banco de Boston. Essa conclusão é visível na atitude das montadoras de carros. Essa indústria produzia apenas 960.000 veículos no Brasil no início desta década. Vai produzir neste ano 2 milhões de unidades, mais que o dobro. E, com um investimento previsto de 17 bilhões de dólares até o ano 2000, estará fabricando daqui a apenas três anos nada menos que 2,5 milhões de veículos. Com isso, o Brasil se tornará o quinto, talvez o quarto maior fabricante de carros do mundo. Nesse período, logotipos novos como Chrysler, BMW, Subaru, Audi, Mitsubishi e Mercedes-Benz vão-se instalar no país. Alguns retratos da virada: a holandesa Philips montou uma fábrica de monitores para computador em São José dos Campos, São Paulo. Investiu 55 milhões de dólares. A coreana Samsung está produzindo fornos de microondas, videocassetes e TVs em Manaus desde 1995. A Glaxo Wellcome, inglesa, está construindo a maior fábrica de medicamentos da América Latina no Rio de Janeiro, com um investimento de 110 milhões de dólares. A Polti, italiana, está fabricando o Vaporetto em Araras, São Paulo e ampliará a fábrica. O valor total do investimento é de 40 milhões de dólares. A Honda japonesa montará uma fábrica de motos em Goiás. A americana Mars está produzindo chocolate no Recife e a brasileira Lacta foi comprada pela Philip Morris, americana. A Bosch-Siemens-Continental gastará 65 milhões de dólares numa fábrica de freezer e geladeiras no interior de São Paulo. Registrados no Ministério da Indústria, Comércio e Turismo, há 600 projetos em estudo ou andamento, cada um deles com investimento de pelo menos 10 milhões de dólares.

O resultado é um choque de sinal positivo no país inteiro. "Fábricas novas geram mais emprego, produtos melhores, impostos e concorrência -- a senha para a redução de preços", diz José Roberto Mendonça de Barros, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Conforme os números frios da planilha econômica, o Brasil dá sinais de que está entrando num novo ciclo de prosperidade -- igual ou melhor do que viveu nos anos 70. O crescimento do investimento estrangeiro é apenas a maior evidência disso. "Eu nunca vi um momento tão oportuno", diz José Monforte, vice-presidente do Citibank. Conforme sua análise (que se acaba transferindo para clientes do Citi tanto dentro como fora do Brasil), a fase de crescimento poderá perdurar muitos anos. É curioso que, num dos melhores períodos econômicos dos últimos tempos, aconteça uma onda de pessimismo entre os brasileiros.


Foto: Frederic Jean
Nova fábrica de monitores da
Philips em São Paulo: 55 milhões
de dólares investidos

Há uma percepção, fortemente amplificada pelo noticiário dos jornais, de que o país está em processo de decadência. Na semana passada, a Confederação Nacional da Indústria, CNI, e o Ibope divulgaram uma pesquisa realizada em maio, segundo a qual a porcentagem dos que acreditam no fracasso do Plano Real subiu de 11% em março para 19% em maio. A porcentagem dos que crêem no sucesso do plano caiu de 46% em março para 36% em maio. A excitação em torno desses números foi enorme. Eles refletem um momento específico, no qual o governo foi encurralado em Brasília pela marcha dos sem-terra, vendeu um símbolo nacional chamado Vale do Rio Doce e foi respingado pela lama de um escândalo -- o comércio de votos para a emenda da reeleição. Muito bem, veja-se agora o que não foi divulgado com estardalhaço sobre a mesmíssima pesquisa do Ibope. Segundo o levantamento, em maio do ano passado os otimistas a respeito do Real eram 31%. Em maio deste ano são 36%. Num prazo maior, portanto, a aprovação cresceu. O índice de pessimismo subiu apenas 1 ponto nesse período. A ótica do investidor estrangeiro é diferente porque olha o conjunto e o longo prazo. Precisa ter esse cuidado. Seu dinheiro está em jogo.

A ONU divulga em Nova York que o Brasil é o 68º país do mundo em "desenvolvimento humano", como fez na semana passada, e o capitalista de Wall Street pensa que, ainda assim, só pode estar melhorando porque os brasileiros se tornaram um dos maiores consumidores de fralda descartável do mundo. O número dos excluídos é cada vez maior, recitam todos os sociólogos, os diplomados e os práticos, mas o olho do investidor brilha porque ele tem levantamentos segundo os quais os brasileiros compraram 8 milhões de aparelhos de TV só no ano passado. Nenhuma retórica pode mudar esse fato econômico. A Electrolux sueca enxergou uma multidão ávida por geladeiras e freezers e comprou a Prosdócimo de Curitiba. A GE comprou a fábrica de fogões Dako, uma indústria gigantesca que abastece as faixas de menor renda. A Arno, fabricante de batedeiras, liquidificadores e ventiladores, foi comprada pelo grupo francês SEB, dono da marca T-Fal. Na semana em que explodiu o caso dos deputados que venderam seu voto, um banqueiro de São Paulo ligou para um colega em Nova York. Queria saber a repercussão no mundo dos negócios. "Bem. Eu tenho aqui uma lista de vinte outros escândalos em países em que invisto", respondeu o banqueiro nova-iorquino. "Aqui ninguém faz a mais remota idéia de quem seja esse tal deputado Ronivon", comentou um outro banqueiro americano. Ronivon Santiago, é bom esclarecer, é o deputado do Acre acusado de levar 200.000 reais para votar a favor da reeleição de Fernando Henrique.

Países têm problemas e vantagens. Na década de 80, os problemas pesaram mais e por isso os investidores trancaram o cofre. Com toda a razão, já que os dados políticos e econômicos dos anos 80 mostravam um país sem rumo. A inflação chegou a 80% ao mês naquele período, não se importava carro ou grampo de cabelo (nem equipamentos para melhorar as fábricas) e o governo aplicou seis planos econômicos heterodoxos inesquecíveis. Vistos de hoje, esses planos, além de fracassados, parecem ridículos. Em 1987, o Brasil deu um calote nos credores externos. Foi riscado do mapa dos investidores internacionais. Agora, as vantagens estão pesando mais do que os defeitos. A prova é o Boeing de dólares que está pousando no Brasil. O país tem hoje uma economia aberta, e isso não é apenas um luxo supérfluo do credo neoliberal. No ambiente econômico sem tranca, o investidor estrangeiro pode montar sua indústria porque tem licença para importar maquinário e componentes do produto que fabrica. "Economias fechadas não trazem capital, não atraem tecnologia, não se tornam produtivas. Quem se fecha pensa que protege sua indústria, mas acaba proprietário de uma indústria sem valor", diz Luís Roberto Martins, sócio da consultoria Booz Allen, de São Paulo.

O dinheiro internacional começou de novo a olhar para o Brasil no momento em que aumentou o poder de compra da população, em decorrência da estabilidade da moeda. "O aumento do consumo provoca uma reação imediata. Ninguém quer perder um bom mercado para o concorrente", afirma Rogério Brecha, sócio da Ernst & Young, consultoria de São Paulo. Os investidores testaram a solidez do Plano Real com um volume pequeno de aplicações diretas. Foram 2,5 bilhões de dólares em 1994. No ano seguinte aplicaram 3,4 bilhões, para quase triplicar o volume em 1996. Neste ano aumenta em 50%. Não há nada de muito especial nisso. "O Brasil, um país ainda por construir, precisa de estradas, telefones, computadores, energia elétrica, remédios. Potencialmente, é um grande absorvedor de investimentos, principalmente em matéria de infra-estrutura", salienta o economista Octávio de Barros, um especialista no estudo de investimentos estrangeiros no Brasil. Pelos seus cálculos, a infra-estrutura do país precisa de uma injeção de 47 bilhões de dólares até o ano 2000 só para projetos novos. O Brasil tem, também, capacidade de produção. Aquele que monta uma fábrica encontra um banco para apoiá-lo, uma empresa de seguro-saúde para seus funcionários, uma montadora para fornecer-lhe caminhões. Pode comprar peças, contratar engenheiros com experiência.

Quando a inflação caiu para níveis muito baixos, 30 milhões de pessoas ficaram com algum dinheiro sobrando e passaram a consumir além do nível de subsistência. Também puderam empenhar uma parte do orçamento em crediários. A renda per capita do brasileiro ainda é muito baixa, cerca de 4.700 reais ao ano. Mas nem se compara à do chinês, que é de 530 dólares por ano, e à do indiano, de 360 dólares. A China e a Índia, note-se, são os grandes concorrentes do Brasil na atração de capitais. Países como o Brasil, que apresentam uma tabela de estabilidade econômica, abertura e consumo crescente, absorvem dinheiro em alta velocidade. É uma corrida entre empresas concorrentes. As montadoras, as já instaladas e as que estão chegando, anunciaram seus investimentos bilionários quase ao mesmo tempo. Não é coincidência. Quem se atrasar perde mercado. Os fabricantes de geladeiras e aparelhos de som também desembarcaram no Brasil simultaneamente. Agora é a vez dos bancos. O Hong Kong Shanghai Bank Corporation pagou quase 1 bilhão de dólares pelo Bamerindus em março. O Santander, espanhol, comprou o Banco Geral do Comércio no mesmo mês. "Quem chegar mais tarde terá de pagar mais", diz José Luiz Saicali, sócio da empresa de consultoria KPMG.

  Sede do antigo Bamerindus em Curitiba: comprado pelo Hong Kong Shanghai Bank
por 1 bilhão
Foto: Jader Rocha    

Saber que desastre espera os brasileiros na próxima esquina é uma discussão que está na praça, dividida entre os que prevêem um desastre, talvez uma enorme crise cambial ao estilo do México, e os operadores dos bancos de investimento, cujo otimismo às vezes beira a histeria. A resposta é que pode dar errado. A combinação que se vive hoje, de estabilidade da moeda e investimentos diretos crescentes, depende de alguns condicionantes. O governo não resolveu o seu problema antigo, o déficit público. Se não acertá-lo, cedo ou tarde a inflação vai voltar. Há a questão da balança comercial. Neste ano, o déficit estimado é de 13 bilhões de dólares. Como o país está recebendo muito dinheiro de fora, pode suportar esse desequilíbrio, mas não por muito tempo. Outra ameaça é a dívida interna do governo federal. Subiu de 89 bilhões no início do governo Collor para 125 bilhões hoje. Continuando a crescer nesse ritmo, o país terá de entrar em concordata. "Se todos esses problemas estivessem sendo resolvidos, o investimento estrangeiro poderia ser bem maior", explica o economista Roberto Macedo, presidente da Eletros, a associação dos fabricantes de equipamentos eletroeletrônicos.

 

 

Os riscos estão sendo ponderados pelos que investem no país. Por enquanto, não há sinal de preocupação. Se a estabilidade e o investimento continuarem, dá para fazer um exercício de imaginação muito otimista a respeito do futuro. Os empresários que estão chegando, com suas fábricas modernas, não vão querer estradas ruins, pontes que racham, telefones que não funcionam. Precisarão de operários com maior escolaridade. Uma rede de assistência médica razoavelmente eficaz torna-se uma necessidade, não apenas uma promessa de campanha política. "Sociedades que se engatam na roda da riqueza sofrem modificações profundas. É inevitável", afirma o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. O Brasil tem essa chance pela frente. Não vai resolver seus gigantescos problemas sociais em poucos anos nem entrará para o Primeiro Mundo na próxima década, mas pode melhorar bastante.

Com reportagem de Felipe Patury, de Brasília

 

 

Copyright © 1997, Abril S.A.