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Agnelli,
do Bradesco, que tem o maior fundo de ações: mais de 700 000 aplicadores |
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| Foto: Antonio Milena |
É nesses momentos que o investidor defronta com duas perguntas difíceis. Pode ser a hora de vender as ações, levar o dinheiro para um campo mais seguro e ver no que é que dá. Mas pode ser, também, o momento de jogar todas as fichas nesse cassino para beber um pouco do lucro. A decisão depende da cobiça e do temor de cada um. Quem decide ficar sofre o risco de perder dinheiro com uma queda das cotações. Quem decide sair corre o risco de não ganhar ainda mais dinheiro com uma subida repentina. "Qualquer caminho que se tome, nessas horas, tem seu risco", diz Flavio Menezes, diretor do Banco Patrimônio.
Esse é o problema eterno do mercado de ações. Ele tem comportamento imprevisível, como o de um animal selvagem. Não existe profissional de bolsa que não tenha errado várias vezes na aposta, nem aqueles com muitos anos de carreira. Aliás, os profissionais acabaram de errar. Previram, no ano passado, um rendimento mais modesto, de 30%, para este ano. Nos primeiros seis meses, o desempenho foi o dobro, e os profissionais já apareceram com nova estimativa. As bolsas, dizem, vão crescer mais 15% (talvez 20%) até o final do ano. É só um palpite. Na verdade, ninguém sabe o que vai acontecer.
Sobre um fato não há dúvida. Bolsa e fundo de ações estão se tornando investimento popular. São a febre do momento. Há dois anos, a Bolsa de São Paulo -- a maior do país, com 90% das operações -- negociava cerca de 200 milhões de dólares por dia. Está negociando, com freqüência, mais de 1 bilhão de dólares por dia. A cada hora, entra cerca de 1,5 milhão de reais nos fundos de investimento em ações oferecidos pelos bancos a seus clientes. Não figura nessa conta o dinheiro que grandes fundos de pensão ou seguradoras jogam no pregão. Nem o dinheiro de investidores estrangeiros. Estes aplicaram 3 bilhões no ano passado e mais 3 neste primeiro semestre. A Bolsa de São Paulo já é a maior da América Latina e está entre as vinte maiores do mundo.
| Eles aplicam, no mínimo, 51% de seus recursos em papéis nas bolsas | Eles aplicam em ações, mas têm mais liberdade para investir em outros papéis | |||
(rentabilidade
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(rentabilidade |
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| Opportunity
Lógica - CL |
75,6% | CCF Telbrás | 85,6% | |
| CCF- Francial Ações | 70,0% | Opportunity Lógica II - CL |
80,2% | |
| Síntese Ações | 65,3% | Fundo Galileu | 80,2% | |
| Lloyds Institutional | 63,7% | CCF Ações | 79,4% | |
| Lloyds Equity | 61,5% | CCF Fundações | 75,1% | |
| Boston Ações | 58,1% | Unibanco Strategy Fund II |
74,1% | |
| Citiações | 56,7% | Private Índice Ações | 72,4% | |
| Uniações | 54,8% | Itaú Carteira Livre | 72,2% | |
| Unibanco Blue | 54,8% | Carteira Livre PR | 69,6% | |
| Citibank Private | 52,8% | Citiações Livre | 65,5% | |
| *
ranking com todos os fundos acima da média de patrimônio da categoria |
Fonte: Anbid |
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Muito bem, a bolsa está um esplendor, cresce com o dinheiro da dona de casa e do banco americano, e seu rendimento esmaga a poupança, o dólar, o CDB. Aí está outro tema para matutar. Por quanto tempo essa pirâmide continuará crescendo? Os especialistas também não têm essa resposta, mas dão indicações. A primeira é um conselho de prudência. Nenhum investimento dá lucros exorbitantes por prazo muito longo. "Não é porque a bolsa subiu tanto no primeiro semestre que esse ganho vai repetir-se nos próximos meses", diz Antônio Carlos Molina, diretor da Brasilpar, uma consultoria financeira de São Paulo. "Ação é investimento de longo prazo." Portanto, aquele que deseja entrar na bolsa deve ter a qualidade da paciência.
A segunda indicação diz respeito ao comportamento da economia brasileira, o fator principal do aquecimento das bolsas. Na década de 80, o pregão era lugar de poucos especuladores profissionais e as bolsas não tinham maior importância. Em 1991, foram abertas para os investidores estrangeiros. Melhoraram bastante, mas só deram o seu grande salto com o Plano Real, em 1994 (veja gráfico). Depois da implantação do Real, a inflação caiu, o consumo cresceu, grandes privatizações foram feitas e a rentabilidade das estatais subiu. No terreno das empresas privadas está em curso um processo de ajuste para que possam competir no mercado mundial. "O crescimento da bolsa não é uma bolha especulativa. Ele é sustentado por avanços concretos na economia brasileira", diz Fábio de Oliveira, diretor do Banco de Boston.
Essa é a opinião da maioria dos banqueiros, que estão arriscando o dinheiro dos clientes, e dos economistas de boa vontade, que arriscam só o prestígio. Eles apontam como sinais de segurança os investimentos estrangeiros que estão chegando ao Brasil (veja reportagem) não só com destino à bolsa, mas para construir ou comprar empresas. Isso indica que, na opinião das matrizes estrangeiras, o Brasil é uma praça saudável a longo prazo. "O capital estrangeiro busca estabilidade e consistência", explica Marcelo Audi, diretor de análises de investimentos do banco Merrill Lynch. Eles dizem também que a bolsa sustenta um ciclo longo de alta porque o país ainda é um campo virgem para muitos negócios. A concessão da banda B da telefonia celular, de acordo com um cálculo do Citibank, pode render negócios da ordem de 10 bilhões de dólares, em dois anos. Há ainda todo o estoque de empresas de telefonia convencional a ser vendido. E boa parte das companhias geradoras e distribuidoras de energia elétrica pode ser privatizada nos próximos anos. Nesses casos, fala-se no surgimento de quarenta ou cinqüenta grandes empresas e num investimento brutal.
O palpite dos especialistas aponta, a médio prazo, boas possibilidades em outros setores. Se a economia crescer, o comércio inevitavelmente a acompanhará. Atente-se para as ações do Ponto Frio, Arapuã, Pão de Açúcar, Lojas Renner. Essas empresas comerciais abriram seu capital em bolsa há pouco tempo. A mesma coisa pode acontecer no ramo de alimentos. As pessoas estão consumindo mais, procurando produtos de maior valor, e isso pode favorecer o desempenho de empresas dessa área. Se forem feitos investimentos na recuperação de estradas e portos, os papéis de companhias ligadas à área de construção disparam.
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Bandeira
da Brahma na Bolsa de Nova York: ação negociada no maior pregão do mundo |
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| Foto: Divulgação |
Em países como o Japão e os Estados Unidos, o investimento em ações é esporte nacional. O americano tem o hábito de ir comprando ações ao longo dos anos para complementar a renda na hora da aposentadoria. Poupa em ações para pagar a universidade do filho. Faz isso em grandes fundos de investimento. No Brasil, a moda começou. O caminho mais fácil para entrar nesse jogo é procurar os fundos de investimento. Eles funcionam como condomínios de aplicadores administrados por bancos e corretoras. O cliente entrega seu dinheiro no guichê, e quem faz o trabalho de escolher os papéis e a hora de comprar ou vender são profissionais preparados para isso.
Existem dois tipos de condomínio que aplicam na bolsa -- o fundo mútuo de ações e o fundo de carteira livre. O fundo de ações pode colocar seu dinheiro todo na bolsa ou pode comprar tanto ações quanto outros papéis, como títulos públicos ou CDB dos bancos. Mas a lei manda que pelo menos 51% das aplicações de cada fundo se dirijam para as ações. O fundo de carteira livre não tem essa limitação. Pode aplicar tudo em ações ou, se o mercado acionário estiver fraco, trocar a bolsa por outros papéis, como índices futuros de câmbio, juros ou outra especulação desse tipo. Quando entra num fundo desses, a pessoa vai cuidar de outros problemas enquanto seu dinheiro está rodando no balcão de apostas, carregado pelas mãos de profissionais. Os fundos foram feitos para isso mesmo. Para dar ao pequeno lojista a chance de lucrar em ações de companhias elétricas, no índice futuro do câmbio, em operações na Bolsa de Mercadorias & Futuros.

Esses fundos têm feito sucesso. Eram 178 em junho de 1994, com patrimônio de cerca de 2 bilhões de dólares. Hoje, são 315, e seu patrimônio pulou para 15 bilhões. Suas captações cresceram, portanto, sete vezes em apenas três anos. Só neste ano surgiram 71 fundos. No começo eles eram investimento de butique, para cidadãos que já tinham capital razoável. Tornaram-se mais flexíveis e mais populares. O Bradesco tem o maior fundo mútuo de ações do país, com patrimônio de 205 milhões de reais e 760.000 clientes. Nesse clube, pode-se participar do jogo da bolsa apostando um mínimo de 100 reais, o preço de uma calça. A rentabilidade média desses fundos, neste ano, foi de 37,25%. "Eles abrem para as pessoas a possibilidade de lucrar bastante", diz Roger Agnelli, o diretor do Bradesco que administra os fundos de ações do banco.

Os poupadores estão procurando os fundos de ações porque os investimentos tradicionais rendem muito menos, embora sejam mais seguros. Quem aplicou 1.000 reais na poupança em janeiro deste ano e sacou em maio ganhou 59 reais. Esse foi o rendimento nominal. Dos 5,94% desse valor, 4,3% é inflação. No fundo do Bradesco, esse poupador teria levado 370 reais. É essa percepção, de ganhos muito maiores, que tem inchado os fundos. Neste ano, o Itaú recebeu 450 milhões de reais em aplicações de pessoas físicas nos seus fundos de ações e carteira livre. Como quase meio bilhão de reais é dinheiro que não cai do céu, deduz-se que a soma saiu a galope de aplicações menos rentáveis, as que vivem dos juros no fim do mês.
Uma das administradoras de fundos mais agressivas do país é a Linear Investimentos, de Ibrahim Eris e Luís Paulo Rosenberg. Lá o jogo é arriscado, para quem pode perder dinheiro sem ter de colocar o apartamento à venda. O perfil do investidor da Linear é o de pessoas que conhecem bem o mercado financeiro. Elas investiam, em média, 50.000 reais. A Linear acabou abrindo o portão para os investidores de classe média. Três fundos foram criados para essa gente. "São pessoas que tiraram 10.000 reais da poupança e estão experimentando a bolsa pela primeira vez", diz Rosemberg. Os funcionários da Linear foram orientados para mostrar aos clientes quais os riscos envolvidos nesse tipo de aplicação.
Aquele que está pensando em ingressar num fundo de ações precisa calcular esse perigo. As tabelas mostrando o desempenho desses fundos, que são publicadas diariamente nos grandes jornais, apresentam alguns resultados estonteantes, superiores a 100% no ano. Mas estampam também grandes fracassos. Houve fundo que perdeu dinheiro. Nesse caso, para o investidor, teria sido melhor manter o dinheiro na caderneta. Existem algumas maneiras de evitar uma parte do perigo. A melhor é estudar o currículo do fundo. Se obteve rendimento razoável num prazo de três anos, o risco é pequeno. Os banqueiros recomendam que se analise o comportamento do fundo nos momentos de queda das bolsas. O bom administrador sabe proteger seus clientes nas horas ruins. Fundos com patrimônio muito pequeno e rendimento muito alto precisam ser analisados sob o microscópio. Podem estar sendo manipulados para atrair dinheiro.
O mercado de ações saltou de tamanho no Brasil, mas ainda é pequeno em relação à economia do país. Esse é outro argumento usado pelos que acreditam na sua expansão nos próximos anos. Há apenas 550 empresas negociando ações na Bolsa de São Paulo. No Chile, com um PIB muito menor, existem 315 empresas. O valor de mercado das ações brasileiras é de 270 bilhões de dólares. Em Taiwan, uma ilhota, as ações valem 320 bilhões. Comparar o Brasil com os Estados Unidos é uma injustiça, mas, por curiosidade, anote-se o valor das ações americanas: 7 trilhões de dólares.
No começo da década, a bolsa era muito menor e o seu risco, muito maior. Havia pouca gente investindo, normalmente com muito cacife, e as cotações oscilavam como gangorra todo dia. A volatilidade da bolsa -- jargão que os investidores usam quando falam nesse grau de oscilação -- era de 70% ao ano, ou 3,5% ao dia. Ou seja, ela podia subir ou cair 3,5%. Hoje, a volatilidade está em 26% ao ano, ou 1,3% ao dia. É um risco próximo do da Bolsa de Nova York. Os melhores corretores brasileiros de hoje são profissionais capazes de trabalhar em qualquer mesa de operações do mundo. Eles usam sistemas matemáticos complexos, pegam o telefone para falar com Tóquio, Frankfurt, estão informadíssimos sobre problemas políticos. "Antigamente o corretor de bolsa trabalhava com base em dicas. Agora segue o padrão mundial de análise de empresas. Por isso erra menos", diz Antonio Freitas Valle, sócio do Banco Matrix.
As bolsas são alavancas econômicas da maior importância. As economias modernas não vivem sem elas. Podem parecer cassino, curral de especuladores, lugar impróprio para velhinhas. De certa maneira, a jogatina faz parte do caráter das bolsas, e não há como fugir disso. Mas, na essência, elas são uma boa fonte de financiamento para as empresas. Mais: nos Estados Unidos são um índice de sua eficiência. O administrador que falha e provoca prejuízo perde a confiança dos acionistas e é castigado.
No Brasil tem sido diferente. A maior parte das empresas pertence a famílias. É natural que elas resistam a abrir o capital da companhia na bolsa. Nesse caso, teriam de dividir a mesa da administração com estranhos. Para seus financiamentos, até empresas que não são familiares ainda preferem o banco ao mercado de capitais, embora se esfolem para pagar os juros. Esse comportamento está mudando. Quando uma empresa vende ações na bolsa para captar dinheiro, ela não paga juros. Só terá de pagar dividendos aos compradores das ações caso tenha lucro.
A febre das bolsas revelou um fenômeno interessante. Muitas companhias brasileiras estão produzindo dois balanços no final do ano. Um em português, de acordo com as normas contábeis do país, e o outro em inglês, ajustado para o padrão americano e com valores expressos em dólar. É o começo de um namoro com o mercado mundial. O Pão de Açúcar, a rede de supermercados do empresário Abilio Diniz, lançou suas ações na Bolsa de Nova York em maio. Levantou 170 milhões de dólares para ampliar a rede no Brasil. A Brahma começou a negociar suas ações no dia 4 de junho, com festa em Wall Street. Na sacada do prédio da Bolsa de Nova York tremularam uma bandeira do Brasil e outra com o logotipo da Brahma. Após uma semana, os papéis da cervejaria estavam 8% mais caros na praça americana.
O estouro da bolsa ocorre contra um pano de fundo muito especial da economia brasileira (veja a reportagem seguinte). Vive-se uma época em que o país está sendo apalpado pelos investidores estrangeiros como uma mercadoria nova na prateleira. Eles observam uma moeda estável, crescimento consecutivo nos últimos três anos, privatizações bilionárias, uma população com renda para elevar o consumo. Os investimentos na bolsa, boa parte deles vinda do exterior, são um aspecto desse ambiente econômico. Outro é a dose de investimentos diretos que o Brasil está recebendo. Esse dinheiro é aplicado em novas fábricas, pesquisa e melhoria de produtos, empresas que prestam serviço. O país parado e desorientado nos anos 80 está decolando em meados dos 90.
Com reportagem de Raquel Almeida, do Rio de Janeiro

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