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![]() Foto: divulgação |
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Ao sonho da casa própria o brasileiro está adicionando um outro: o de uma casa bonita, bem decorada, onde possa envolver-se num agradável casulo de bem-estar e descansar os olhos da feiúra do dia-a-dia. Viver melhor, no aconchego do lar, ficou mais desejável e mais fácil com os novos patamares de consumo, que permitiram o acesso a equipamentos e objetos antes inalcançáveis. O interesse pela decoração anima um mercado em ebulição. As vendas do D&D, um dos maiores shoppings de decoração de São Paulo, vêm aumentando 10% em média a cada ano. Desde 1995, foram abertos três shoppings especializados só em Belo Horizonte. Quem procura um sofá novo para sua sala de estar pode encontrar, em uma única loja, 230 modelos diferentes, com 1.100 opções de padronagens de tecido. Há vinte anos, a Artefacto, uma das maiores fabricantes de móveis do país, produzia apenas uma linha de produtos. Hoje, tem 2 300 itens à venda, 30% deles importados da Ásia e da Europa. O número de visitantes da edição paulista da Casa Cor, a mais badalada mostra de decoração do país, multiplicou-se por dez desde a sua criação, em 1987. Deixou de ser programa de senhoras ociosas e de sobrenomes quilométricos para se tornar uma vitrine que atrai milhares de visitantes.
| O tropicalismo de Eder Meneghine, com bananas, felinos e cristal: "Estilo rococó hollywoodiano" | ![]() |
Foto: Rubem Monteiro |
A exposição deste ano, que fica aberta até o início de julho, espera receber 60 000 pessoas, a maioria de classe média. O sucesso é tanto que seus organizadores a transformaram em franquia. Há uma dezena de mostras Casa Cor fora de São Paulo, que exibem ambientes criados por profissionais de cada região. Esse tipo de evento está para a decoração assim como os desfiles de roupas de alta-costura estão para a moda. Os ambientes idealizados pelos decoradores exageram no uso de determinadas cores e na profusão de objetos para mostrar aos visitantes quais as últimas tendências do setor. A multiplicação de revestimentos com palha e até o chão descascado, como se vê na exposição atual, são exemplos da tendência "naturalista" que faz furor no momento e não devem ser levados ao pé da letra.
Casa ideal -- O abuso dos modismos é um dos maiores riscos que se pode enfrentar ao recorrer aos serviços de um profissional. Um bom decorador é aquele que sabe captar as expectativas gerais do cliente -- seja o endinheirado que o contrata para um projeto exclusivo ou o assalariado que, inspirado na foto da revista, bate perna em lojas para realizar o sonho da casa não só confortável mas também bonita. Na média, esse sonho não é muito complicado. Uma enquete realizada pela revista Arquitetura & Construção, por exemplo, ouviu 200 pessoas em São Paulo e Salvador para identificar o protótipo da casa ideal. Os paulistas anseiam por uma sala espaçosa, que integre vários ambientes, onde a família possa reunir-se para ver TV, fazer refeições e curtir o lazer doméstico. Os baianos, por sua vez, estão mais preocupados em ter conforto nos aposentos íntimos, como quartos e banheiros, que devem ser amplos e aconchegantes. "No caso de São Paulo, principalmente, a violência das ruas tem levado as pessoas a valorizar suas casas", diz Elda Müller, diretora de redação da revista Casa Claudia. "É um espaço para ficar com a família ou receber os amigos."
Na esmagadora maioria das vezes, decoradores são arquitetos que descobriram um filão subestimado pelos seus colegas de faculdade. Montar a casa com a ajuda de um deles pode custar dezenas de milhares de reais -- especialmente se o profissional for um daqueles cinco ou seis nomes badalados que habitam as revistas especializadas. O eclético paulista Sig Bergamin cobra até 80.000 reais para colocar sua assinatura em um projeto. Quinhentos reais por hora é quanto custa uma consultoria de Jorge Elias, adepto de ambientes suntuosos. Chiquérrimo ou mais antenado com a realidade da clientela de classe média, o bom decorador deve ser sempre paciente e meticuloso, de forma a esquadrinhar as preferências dos clientes, tanto em matéria de estilo quanto de modo de vida. "Gosto de saber até se o casal costuma assistir à televisão com as pernas esticadas", diz o paranaense Julio Pechman.
| O
tapete de sisal e a cama de palhinha, materiais do momento: naturalismo radical |
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| Foto: Frederic Jean |
Alçapão -- Estão se tornando coisa do passado as quedas-de-braço entre decoradores que não concordam em alterar um vaso que seja de suas criações geniais e clientes que desejam colocar um sofazão macio onde estava prevista uma ascética cadeira Breuer. "Se o cliente não gosta das minhas sugestões, refaço tudo sem problemas", garante Carolina Szabó. Não que as personalidades tenham se tornado menos explosivas -- a concorrência é que anda grande entre os decoradores. Há cada vez mais profissionais de bom nível atuando no mercado e, por isso, ficou fácil substituir um temperamental metido a artista. Como a ordem geral, mesmo entre os ricaços, é baixar os custos, os decoradores têm recorrido a matérias-primas mais modestas, daí a atual onda naturalista. Móveis e tapetes de fibras naturais e tecidos de algodão para sofás e cortinas podem ser usados com muito bom gosto, em lugar de tecidos preciosos, mobiliário de época ou aquela peça fenomenal de design italiano que custa quase tanto quanto um carro zero. Também não há mais lugar para ambientes sem função. "A casa tem de ser 99% usável", diz o arquiteto paulista João Armentano. "Ninguém pede aquelas salas para inglês ver." Para quem tem dinheiro sobrando, o trabalho de um decorador pode viabilizar experiências um tanto inusitadas no campo da arquitetura de interiores. Há pouco tempo, Armentano teve de construir um alçapão sob a cama de um casal. O buraco é ligado à rua por um túnel, o que facilita a fuga em caso de assalto ou incêndio. É o estilo paranóico de viver. Outro pedido que vem se tornando freqüente, embora para resolver um problema mais antigo do que as catástrofes urbanas, é o quarto de casal à prova de som -- para evitar que os ruídos de alcova cheguem aos ouvidos de quem está fora.
Apelos fervilhantes -- Um projeto de decoração nem sempre significa um atestado de bom gosto, ou pelo menos o que se tem como tal nos ambientes esteticamente privilegiados. Há uma boa quantidade de profissionais dispostos a carregar nas tintas para garantir a alegria de clientes chegados a um, digamos, exagero visual. O decorador Eder Meneghine, o preferido da chamada sociedade emergente carioca, tem uma notável vocação para criar ambientes fervilhantes de apelos à retina. A comerciante Eliane Pasini não sabia ao certo o que fazer com o espaço de 30 metros quadrados que separa a sala de visitas da varanda de seu apartamento em São Conrado. Ela pensava em um cantinho para bater papo e bebericar. Meneghine, que não cultiva intimidade com o estilo clean, empatou 50.000 reais no projeto. Encomendou um divã que foi instalado ao lado de um pufe com estampas tropicais. No teto, ele mandou dependurar um lustre de cristal de 2 800 reais, que oferece iluminação de sobra para os felinos da tela do pintor argentino Carlos Amesi, adquirida pela bagatela de 20.000 reais. "É o que eu chamo de estilo rococó hollywoodiano", explica o decorador. "Um revival dos anos 40 que lembra as divas do cinema e o hotel Copacabana Palace."
![]() O clima acolhedor do Filomena, cartão de visita da visita da bem-sucedida Patricia Anastassiadis, o lustre alemão do Dressing igual ao do |
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| Museu de Arte Moderna de Nova York e o Apollinari, de 3 milhões de dólares, em que cada um dos três ambientes leva uma assinatura diferente: depois das casas e das agências bancárias, chegou a vez de bares e restaurantes servirem de vitrine para decoradores badalados |
Às vezes decorar é, de fato, criar cenários. Prova disso é o furor decorativo que vem assolando bares e restaurantes, nos quais a preocupação com o ambiente até sobrepuja o cuidado com o cardápio. Um restaurante da moda pode alavancar carreiras que não são de chef. Formada em arquitetura há três anos, Patricia Anastassiadis estreou para o sucesso com a abertura do restaurante Filomena, em São Paulo, um de seus primeiros trabalhos. Os clientes gostaram tanto do ambiente acolhedor e ao mesmo tempo moderno, que os pedidos começaram a chover. Com apenas 25 anos, Patricia já imprimiu sua marca pessoal a outros restaurantes não menos badalados, decorou bancos e casas de colunáveis. Hoje, seu escritório tem dez empregados e ela chega a cobrar 50.000 reais por um projeto.
Restaurantes são um bom negócio porque os decoradores podem abusar da imaginação e dos modismos -- ninguém vai perguntar se continuarão válidos daqui a dez anos. Gastos mirabolantes fazem parte do conceito. Em São Paulo, o Dressing, reformado, ganhou um lustre alemão de 7.800 reais idêntico ao que enfeita um dos salões do Museu de Arte Moderna de Nova York. O recém-inaugurado Apollinari, que custou 3 milhões de dólares, reúne o trabalho dos decoradores Brunete Fracarolli, Sig Bergamin e João Armentano. Cada um ficou com um ambiente. A própria idéia de chamar três dos nomes mais conhecidos do mercado já demonstra como a ambientação pode ser uma isca para fisgar uma freguesia ávida de cenários bonitos. Os decoradores, por sua vez, firmam a fama. "O restaurante é uma grande vitrine para eles", diz Miriam Abicair, uma das sócias do novo estabelecimento.
E quem não pode, ou não quer, contratar um decorador, mas anseia por uma casa bonita e funcional? Vai ter um trabalho danado -- uma das grandes vantagens dos profissionais é sua agenda de endereços, que exclui experiências traumatizantes com marceneiros desastrados. A graça de arrumar a própria casa, no entanto, pode ser justamente o tempo que isso demora e a alegria que traz a descoberta da peça há tanto desejada. A casa da designer de jóias Vera Duvernoy, por exemplo, não deixa nada a desejar aos melhores projetos assinados por decoradores chiques do eixo Rio--São Paulo. O segredo da decoração está na conjunção de peças antigas, compradas pela família, e móveis de design avançado. Para a biblioteca, ela mesma desenhou a estante que cobre uma parede inteira. "Gosto de visitar algumas lojas e sempre consulto revistas estrangeiras em busca de inspiração", diz Vera. No fundo é o que basta.
Com reportagem de
Glenda Mezarobba
e Roberta Paixão
Projeto básico
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