BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade
REVISTAS
VEJA
Edição 2065

18 de junho de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
André Petry
Diogo Mainardi
Millôr
Reinaldo Azevedo
Roberto Pompeu de Toledo
Stephen Kanitz
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 

Cinema
Vingança da natureza

Com o apocalíptico Fim dos Tempos, Shyamalan
reacerta o passo. Agora só falta maneirar na vaidade


Isabela Boscov

Wahlberg, Zooey e Ashlyn: pelo menos na primeira hora, uma experiência de fazer o sangue gelar

VEJA TAMBÉM
Na internet
Trailer do filme

Em 1989, quando ganhou a Palma de Ouro em Cannes por seu primeiro filme, sexo, mentiras e videotape, o diretor Steven Soderbergh comentou: "Daqui para a frente, é ladeira abaixo para mim". Tratava-se não de pessimismo, mas de uma profecia informada. Soderbergh viria, sim, a reverter a crescente decepção com que cada novo filme seu era recebido, mas demoraria mais de uma década até fazê-lo – com a vantagem, ao menos do ponto de vista pessoal, de que desde o início entendera que a expectativa é a inimiga natural da satisfação. Como aconteceu com Soderbergh, o indo-americano M. Night Shyamalan também vem convivendo com a frustração há quase uma década. Mas não dá mostras de que está perto de se conciliar com ela. Com Corpo Fechado, A Vila e A Dama na Água, o cineasta acumulou respostas negativas da crítica e na bilheteria. Shyamalan, porém, não acredita que o problema esteja em seus roteiros ou no dilema criado pelo sucesso de O Sexto Sentido, com que se lançou. Em quase todas as suas entrevistas, ele sugere ser vítima de inveja, de interferência e de incompreensão, nunca de sua própria arrogância (muito conhecida nos altos escalões de Hollywood) nem da fé exagerada no poder de venda de seu nome. Fim dos Tempos (The Happening, Estados Unidos/Índia, 2008), desde sexta-feira em cartaz no país, ilustra bem a polaridade entre as qualidades e os defeitos do diretor: é uma notável recuperação criativa. E, ao mesmo tempo, é menos do que poderia ser.

Em sua primeira hora, Fim dos Tempos põe em evidência tudo aquilo que fez de Shyamalan uma marca poderosa. Por volta das 8 da manhã de um dia qualquer, todos os freqüentadores do Central Park de Nova York param de correr, passear ou conversar e começam a se suicidar, usando qualquer coisa que tenham à mão. Em minutos, a onda já atingiu as imediações. Numa construção, os operários são surpreendidos pelo corpo de um companheiro batendo no chão, e depois por outro e mais outro, no que logo se torna uma tenebrosa chuva de suicidas. Chocar e horripilar são missões que o cinema de terror dificilmente consegue cumprir hoje em dia, e é um crédito ao diretor que em Fim dos Tempos ele o faça em tantas ocasiões, e pelo caminho mais virtuoso – não o do sangue e vísceras, mas o do inexplicável. À medida que acompanha um professor de ciências (Mark Wahlberg), sua mulher (Zooey Deschanel), seu amigo (John Leguizamo) e a filha pequena deste (Ashlyn Sanchez) na sua tentativa de fugir à febre de auto-imolação que vai se espalhando, Shyamalan tira o máximo do seu dom de explorar, em imagens simples e fortes, o mal-estar causado por aquilo que não é natural e que contraria a condição humana.

Na meia hora final, porém, essa sensação se dilui, por culpa daquele que é o grande fraco do cineasta: o desconhecimento de suas limitações. A idéia de que o agente que induz ao suicídio é um ato da natureza é boa; as razões dadas para tal ato são simplórias e pedestres, e só o diretor parece não se dar conta disso. O que falta a Shyamalan, enfim, é tanto estofo intelectual quanto a sabedoria para reconhecê-lo. Caso se abrisse a um processo mais colaborativo (ele também escreve e produz sozinho seus filmes), talvez deixasse de lado as explicações mal-ajambradas, ou as cenas desnecessárias como aquela em que o tratador de um zoológico se oferece aos leões – tão calculada para o choque que beira o ridículo. Aí, Fim dos Tempos poderia chegar até o desfecho como aquilo que seu início anuncia: uma experiência de gelar o sangue.



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |