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Edição 2065

18 de junho de 2008
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Economia
O Mr. X da bolsa

Aos 51 anos, bilionário e bon vivant, Eike Batista
faz a maior oferta de ações da história e se torna
expoente da modernidade na economia brasileira


Ronaldo França e Ronaldo Soares

Marcelo Correa
EMPREENDEDOR EXCÊNTRICO
Eike e o Mercedes de 1,2 milhão de euros na sala de sua mansão no Jardim Botânico: "Nas atuais condições, o Brasil é uma autopista de oportunidades"

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O empresário Eike Batista é conhecido por suas superstições. Entre outras esquisitices, todas as suas empresas têm o nome terminado com a letra X, símbolo da multiplicação, e todas as cifras de suas transações comerciais têm de conter a dezena 63, porque era esse o número de seu barco quando foi campeão mundial em corrida de lancha. Agora, Eike tem bons motivos para considerar que o 13 é seu novo número da sorte. Na sexta-feira, a oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) de sua empresa petrolífera, a OGX, captou 4 bilhões de dólares. É a maior operação desse tipo já feita no país. No fim do dia, as ações fecharam com alta de 8,3%, tendo elevado o valor de sua empresa ao patamar de 23,6 bilhões de dólares, dos quais 60%, ou 14 bilhões, são seus – uma montanha de dinheiro que vai se somar aos outros 6,6 bilhões de dólares de seu patrimônio, segundo a revista Forbes. A operação surpreende pelo valor, mas sua singularidade tem outro motivo: a empresa que tanto atraiu os investidores tem apenas um ano de existência e nenhuma reserva de petróleo provada. Em um só dia, Eike criou uma companhia petrolífera com quase 7% do valor de mercado da Petrobras, empresa com mais de cinqüenta anos de história, que produz 1.918 barris de petróleo por dia e dispõe da mais refinada tecnologia de extração em águas profundas.

O sucesso de Eike deriva de uma confluência de fatores objetivos extremamente favoráveis: a obtenção do grau de investimento pelo Brasil, a alta do petróleo no mercado internacional e a enorme expectativa de prosperidade proporcionada pela nova fronteira de exploração, na camada do pré-sal que se estende pela costa brasileira. Tudo isso forma o cenário definido por um experiente analista do mercado de capitais como "alinhamento dos astros". Graças a esse alinhamento e a uma eficiente capacidade de contratar as pessoas certas, Eike manteve o rumo nos momentos ruins e disparou nos bons. Isso não explica completamente o sucesso alcançado pela OGX. Para compreender o que se passou na Bovespa na sexta-feira, é preciso levar em conta um fator subjetivo, que vem sendo chamado de "efeito Eike".

O que é o efeito Eike? É o vórtice produzido em torno dos grandes movimentos do empresário. Se ele compra participação em uma empresa, as ações passam a ser acompanhadas mais de perto. Se é ele que está à frente da operação, como na semana passada, os grandes investidores se interessam. No volátil mundo das bolsas de valores, Eike virou uma espécie de biruta. Fique claro: trata-se do instrumento que ajuda os navegadores a saber a direção do vento, porque de maluco ele não tem nada. Aos 51 anos, tornou-se o símbolo do novo empreendedor brasileiro. Ele é a cara do capitalismo que começa a se instalar no país, no qual o empreendedorismo se sustenta no mercado de capitais, e não nas benesses estatais. Um ambiente em que o Brasil se afirma como país inserido na economia mundial, confiável aos olhos de investidores estrangeiros, onde os negócios produzem riqueza para empresários e mais ainda para os investidores, que podem ser tanto os grandes fundos quanto as donas-de-casa brasileiras.

Fernando Cavalcanti
NEGÓCIO FECHADO
O empresário com sócios da OGX no pregão da bolsa: mais 13 bilhões de dólares no patrimônio

Eike Batista está assumindo um lugar de destaque. Não está sozinho. Em qualquer lista que se faça dos expoentes de novo capitalismo brasileiro constará o nome de Jorge Paulo Lemann, fundador do poderoso GP Investimentos, o maior gestor de recursos de terceiros do Brasil, que segue como a grande referência no mundo dos negócios no país. Eike tem uma característica que o diferencia radicalmente. Não teme holofotes, enquanto Lemann tem aversão a aparecer. Esse estilo high profile o torna figura ímpar no cenário do empresariado brasileiro. Ele não tem medo de se expor e, principalmente, não vê problema algum em alardear sua fortuna. Ao contrário, orgulha-se disso. "Sou rico na pessoa física. Posso fazer o que quiser", costuma dizer.

Como faz isso bem! Eike é bilionário assumidíssimo. Mora numa casa de 3.500 metros quadrados, construída em um terreno de 60.000 metros quadrados, sem vizinhos que o separem do Cristo Redentor. Além do Mercedes de 1,2 milhão de euros que fica estacionado em uma das salas da mansão, tem catorze automóveis na garagem, três lanchas, três aviões e um helicóptero. Brinda a cada novo contrato com champanhe junto a uma fonte em seu jardim, de onde se descortina uma das mais lindas vistas da Lagoa Rodrigo de Freitas. Faz negócios e corre riscos à luz do dia. Mais Eike tornaria o ambiente de negócios no Brasil melhor? Sem dúvida. "Isso é muito bom para um país que precisa ser mais assumidamente capitalista, globalizado e moderno", afirma o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. "Ele foge do estereótipo do empresário chapa-branca, atrasado, que não gosta de capitalismo."

Antonio Gauderio/Folha Imagem
MÁQUINA DE FAZER DINHEIRO
Usina de minério da MMX: a empresa cresceu mais de seis vezes em apenas dois anos

Como em quase todos os negócios de sua vida, a estratégia no ramo de petróleo parecia uma sandice. Ele causou comoção entre seus pares no 9º Leilão da Agência Nacional de Petróleo ao pagar a espantosa quantia de 1,2 bilhão de dólares por 21 blocos de exploração nos quais não há nenhuma gota de óleo confirmada. Seus lances somados totalizaram 70% de todas as ofertas do dia. Entrou praticamente sozinho em um leilão de que as grandes empresas se recusaram a participar porque o governo, à última hora, mudou as regras do jogo e deixou de fora o filé mignon, que eram os blocos nas promissoras águas profundas do pré-sal. Ele saiu comprando a toda a velocidade. Quando já lhe reluzia sobre a cabeça uma implacável aura de maluco, ele anunciou o IPO. Apresentou o relatório da empresa americana de auditoria DeGolyer & MacNaughton, que estima haver 4,8 bilhões de barris em suas reservas. Mesmo que a maioria dos analistas não endosse essa avaliação, Eike formou quatro pelotões de executivos que, durante dezessete dias, desembarcaram mundo afora em apresentações para 363 fundos de investimento, em jornadas de dezoito horas de trabalho. E convenceu até investidores que nunca haviam posto um centavo num país da América do Sul, como o fundo soberano da China.

A aposta dos investidores foi influenciada pela aura de Midas que se formou em torno dele a partir de 2006, quando fez o IPO da MMX, sua empresa do ramo de mineração. Até então, Eike era visto como um sujeito meio excêntrico, instável e com uma extraordinária capacidade de se meter em maus negócios. Fama, aliás, justificada. Ele se estatelou investindo em mineração na Grécia e na Rússia, fracassou na tentativa de construir uma termelétrica na Bolívia, quebrou uma fábrica de jipes e terminou crivado de processos judiciais quando a empresa de cosméticos que abriu para a ex-mulher faliu. Ainda hoje há quem estranhe, no mundo dos negócios, o fato de ter chegado tão longe um empresário que até bem pouco tempo atrás era conhecido quase exclusivamente por ser o marido da modelo Luma de Oliveira, sempre esvoaçante em suas aparições públicas. Seu casamento foi, durante anos, combustível para as revistas de fofoca. No lançamento das ações da MMX, o negócio foi encarado com desconfiança, não só por esse passado conturbado mas também porque a empresa não havia começado a produzir no momento em que foi ofertada. As dúvidas se dissiparam dois anos depois, quando ele vendeu parte da sociedade à mineradora Anglo American por 5,5 bilhões de dólares. Quem investiu 1 dólar na abertura do capital da empresa lucrou 6 com a venda à multinacional. Na semana que vem, o empresário recolherá ao caixa do Tesouro Nacional 450 milhões de dólares, a fatia de impostos que pagará por essa operação. "Vai ser um checão na conta do Lula", alardeou recentemente numa roda carioca, com as mãos erguidas como se estivesse segurando um cheque gigante, maior do que ele.

Kadu Ferreira/Agnews
NOVOS TEMPOS
Mudança radical: foram-se os tempos de "ex da Luma" (à esq.), com quem tem dois filhos, Olin e Thor (ao centro); hoje, Eike namora a advogada Flávia (à dir.)

Eike ganhou respeito também por outro episódio singular. Quando abriu o capital da MPX, sua empresa de energia, as ações caíram abruptamente, puxadas pela crise das hipotecas nos Estados Unidos. Para reduzir a perda dos que apostaram na empresa, transferiu para a MPX as ações que tinha em duas termelétricas. Na prática, entregou cerca de 1 bilhão de dólares a título de compensação a quem confiou nele. Ganhou o coração dos banqueiros – se é que banqueiro tem coração. Não há notícia, no mundo inteiro, de uma reparação aos investidores dessa magnitude. O que explica decisões como essa, que assustou até mesmo o board de sua holding, a EBX, é a crença em uma forma de fazer negócios que não é muito popular por aqui. Aos amigos, gosta de dizer que, enquanto o governo se preocupa em distribuir a riqueza aos mais pobres, ele a distribui aos ricos. Para ganhar seu primeiro bilhão de dólares, entre 1980 e 2002, repartiu em forma de dividendos outros 24 bilhões. Fez isso remunerando acionistas e oferecendo bônus monumentais a seus parceiros comerciais, categoria na qual inclui seus funcionários. Ficou conhecido no mercado o contrato com o ex-presidente da BR Distribuidora Rodolfo Landim. Eike o levou para sua empresa graças a um pacote de remuneração que pode chegar a 44 milhões de reais, de acordo com as metas de desempenho. É com essa voracidade pelos melhores talentos que tem abocanhado nacos inteiros de equipes de suas principais concorrentes, incluindo Petrobras e Vale.

Para quem tem tanto dinheiro na conta, Eike leva uma vida bem normal. Logo depois de se separar, engatou um relacionamento com a ex-modelo e advogada Flávia Sampaio. Não circulam sob os holofotes e flashes que iluminam a sociedade carioca. Eike dorme cedo, gosta de ver televisão na cozinha com os empregados e correr na Lagoa de manhã. Bebe, mas pouco. Seus vinhos não superam, na média, a casa dos 100 dólares. A decoração de sua casa não tem nenhuma grande obra de arte – ele diz não ver sentido em gastar milhões para pendurar na parede algo que pode ser substituído por uma cópia perfeita. Nos fins de semana, gosta de estar com os filhos, Thor, de 16 anos, e Olin, de 12 (nomes inspirados em deuses nórdicos), com quem viaja duas vezes por ano. E na sexta-feira, depois de avisar que em julho será a vez do IPO da LLX, sua empresa de logística, saiu da Bovespa e foi comemorar seus bilhões. Numa padaria, com café, leite, pão e manteiga.

Fotos Orlando Brito e Marcelo Correa
TALENTO HERDADO
O pai, Eliezer Batista (à esq.), e Eike aos 8 anos (à dir.): inspiração para os negócios

O sucesso empresarial de Eike nunca o livrou de uma história incômoda. Há quem afirme – ele sempre negou – que teria recebido de Eliezer Batista, seu pai e responsável pelo lançamento dos alicerces da Companhia Vale do Rio Doce, um mapa do subsolo brasileiro que serviu de guia a todos os seus investimentos em mineração. O mapa que Eike efetivamente recebeu foi outro: o da enorme rede de influência que Eliezer angariou desde o início dos anos 60, quando foi alçado à presidência da Vale do Rio Doce por Jânio Quadros. A outra herança inegável é a capacidade de convencer investidores do potencial de seus projetos. No começo dos anos 60, Eliezer pôs em prática uma idéia que o perseguia: estava convencido de que o Japão era o grande parceiro comercial a ser conquistado. Vinte anos mais tarde, essa história foi decisiva para mais um projeto megalomaníaco: convencer os japoneses a investir em Carajás – então um lugar perdido no meio da Floresta Amazônica. O resultado é o que se conhece. Foi graças a isso (e à privatização) que a Vale se tornou uma das maiores empresas de mineração do mundo. São histórias como essa que fazem de Eliezer o grande herói de Eike. O que não deixa de ser curioso e ilustrativo do desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Na primeira geração, brilha um executivo do período em que o crescimento só se dava à sombra do estado. Na segunda, um empresário que tem um pé no Brasil arcaico, o corpo avançando pelo capitalismo moderno e a cabeça no planeta muitas vezes insondável dos construtores de grandes fortunas instantâneas. Com um detalhe: aos 84 anos, Eliezer é um dos principais estrategistas do time do filho – e não acredita em superstições.

Com reportagem de Silvia Rogar

 



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