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PONTO
DE VISTA: Claudio de Moura Castro
Lições
do futebol
"Quem
quer melhorar seu futebol
procura o Brasil, porque ganhamos
cinco vezes. Mas nós nem sequer
sabemos como se alfabetiza nos
países que ganharam a copa do
mundo da educação"
Quando
os países mais avançados do mundo querem melhorar
seu futebol, já sabem aonde ir. Como temos um currículo
de cinco vitórias em Mundiais, eles vêm aqui aprender
ou contratar nossos técnicos. Assim fazem Estados Unidos,
Japão, China e muitos outros. Com humildade, vêm procurar
quem mais sabe, em vez de inventar teorias futebolísticas
próprias.
Nossos
educadores têm a aprender, acerca de modéstia e pragmatismo,
com o futebol dos países ricos. Silo Meireles saiu campeando
para ver como os países alfabetizam suas crianças
e reforçou sua busca com o livro Apprende à Lire.
Ilustração Ale Setti
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Nos países com ortografias alfabéticas, há
duas formas de ensinar a ler e escrever. Em primeiro lugar, há
uma concepção fônica (parecida com o velho bê-á-bá),
que considera indispensável ensinar de forma explícita
a relação entre fonema (som) e grafema (o garrancho
que representa uma letra). Em segundo lugar, há uma concepção
ideovisual, que entrega textos ao aprendiz e espera que ele formule
hipóteses e construa seu saber. Ou seja, o aluno recebe a
frase inteira e vai tentando tirar conclusões acerca do que
significa e de como é a engenharia de transformar grafemas
em fonemas.
Deixemos
de lado a discussão das teorias por trás de cada método
e abordemos o problema de outro ângulo. Quem usa um e quem
usa outro? Fiquemos apenas com os países mais bem-sucedidos
em educação. Afinal, se a educação deles
deu certo, por alguma razão será. Tomemos o Pisa,
o teste dos países da OCDE, a Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (praticamente,
o time dos ricos). Esse teste de compreensão de leitura mostrou
quem é quem na educação do primeiro time. Nesse
grupo, quase todos usam o conceito fônico, incluindo a Finlândia,
campeã no Pisa. Ou seja, o fônico (com suas variantes)
é a escolha de quem deu certo em educação.
Estados Unidos e Reino Unido tentaram os conceitos ideovisuais.
Mas uma coleção de 115.000
avaliações (sic) mostrou resultados alarmantes,
levando ao seu abandono.
Quem
ainda usa o conceito ideovisual? O Brasil. Também é
adotado em pedacinhos da Espanha, do México e da Argentina.
A Nova Zelândia usa, mas não conta muito, pois sua
população total é equivalente à de Belo
Horizonte. Por acaso, o Brasil participou do Pisa e ficou em último
lugar. O penúltimo foi o México. Ou seja, dentre os
participantes do Pisa, o que se encontra em pior colocação
usa o conceito ideovisual de alfabetização. Será
que só nós estamos certos?
Um
conhecido garimpou nas bibliotecas das nossas faculdades de educação
e nos periódicos brasileiros o que se escreve acerca de alfabetização
na Europa e nos Estados Unidos. Não encontrou quase nada.
Silo buscou, nas inúmeras fontes bibliográficas dos
países avançados, referências aos métodos
e autores da linha ideovisual. Descobriu que, lá na metrópole,
o assunto morreu de inanição.
Perdoemos
o desinteresse da Europa e dos Estados Unidos por métodos
hoje só usados nos países de terceiro time (com mínimas
exceções). Mas será que, dado o desempenho
catastrófico da nossa educação, podemos nos
permitir não ler os livros e artigos que falam dos métodos
usados pelos países cuja educação deu certo?
E por que ignorar os poucos que começam a entrar no tema
(Alfabetização: Método Fônico, de
Alessandra G.S. Capovilla e Fernando C. Capovilla), exibindo resultados
muito promissores? É essa soberbia que se espera de intelectuais
financiados pelo contribuinte e que pontificam sobre nosso ensino
público?
A
escolha da concepção de alfabetização
deveria ser tratada, corriqueiramente, como os cientistas tratam
assuntos desse naipe. Para saber qual é o melhor método,
tentam-se os dois, de forma controlada, e mede-se qual produz melhores
resultados. Infelizmente, a questão é tratada como
um auto-de-fé. Para quem viu as luzes, aleluia. Quem acredita
no conceito fônico é excomungado e vai para o inferno.
Os
países que querem melhorar seu futebol procuram o Brasil,
não porque têm afinidade ideológica conosco,
mas porque ganhamos cinco vezes. Mas nós nem sequer sabemos
como se alfabetiza nos países que ganharam a copa do mundo
da educação (o Pisa).
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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