Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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CINEMA
Mais é menos

É pena: Por um Fio mostra que a
fase "minimalista" do diretor Joel
Schumacher durou pouco e já acabou


Isabela Boscov


Divulgação
Farrell: seu cachê já anda pela casa dos 10 milhões de dólares


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Velhos hábitos custam a morrer. Depois de ser massacrado por causa dos exageros histéricos de Batman & Robin, o diretor Joel Schumacher entrou numa espécie de retiro cinematográfico. Saiu dele acreditando-se renovado. Inspirado pelos cineastas do movimento dinamarquês Dogma, Schumacher decidiu explorar o caminho mais virtuoso da modéstia. Fez o pequeno Ninguém É Perfeito, com Robert De Niro, e o drama de guerra Tigerland, rodado em apenas 28 dias, com a câmera na mão e um novato incrivelmente promissor à frente dela – o irlandês Colin Farrell, que custeou a própria passagem aérea para ir encontrar o diretor (e pedir-lhe o emprego) durante uma visita deste a Londres. Ambos colheram elogios rasgados por Tigerland, razão pela qual resolveram reeditar a parceria em Por um Fio (Phone Boothe, Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país. À primeira vista, esse misto de drama e suspense honra todas as premissas da nova fase de Schumacher: foi filmado em meros dez dias, numa rua do centro de Los Angeles (fazendo-se passar por Nova York), não tem efeitos especiais e, à época da filmagem, no fim de 2000, também não tinha um astro – situação que Farrell, cujo cachê anda agora pela casa dos 10 milhões de dólares, já reverteu. Seu enredo também sugeria um tipo de cinema cru e urgente, ao estilo dos anos 70: ao entrar numa cabine telefônica, Stu Shepard, um agente de celebridades, se vê sob a mira de um franco-atirador. Se cortar a ligação ou não atender às exigências do desconhecido, levará um tiro. O resultado, porém, não tem nada de urgente. Ao contrário, ele demonstra que o instinto de Schumacher para o sensacional e o sensacionalista já levou a melhor de novo.

Farrell, é verdade, se desdobra no papel de Stu, um tipo muito ambicioso e medianamente inescrupuloso – razão pela qual o atirador o escolheu como alvo. Stu não pode sair da cabine, não pode revelar a ninguém o motivo pelo qual está lá e, portanto, não pode se defender quando o atirador mata um transeunte e a culpa recai sobre ele. A cada minuto – o filme se passa em tempo real – a situação se complica e envolve mais gente: a mulher de Stu, uma jovem atriz que ele pretendia conquistar, o policial que se encarrega de organizar o caos e negociar com Stu. O que o atirador quer é que Stu confesse publicamente, e da forma mais humilhante possível, os seus pecadilhos. E o que o diretor quer é fazer uma versão de Um Dia de Cão – mas à sua moda. O que inclui muitos cortes, grandes doses de sentimentalismo e a escolha de Kiefer Sutherland, um ator sem nenhuma sutileza, para dar voz ao franco-atirador. Schumacher sempre teve talento para manipular e envolver a platéia – tanto talento, aliás, que não consegue abrir mão dele nem quando está de posse de uma boa história, que dispensa o seu arsenal de truques. Tivesse ele confiado mais em Farrell e no seu roteiro, Por um Fio faria jus à sua pretensão, de ser um retrato da hostilidade urbana. Da maneira como ficou, a única coisa que se pode depreender do filme é que Schumacher e seu circo estão de volta a Hollywood.

 
 
 
 
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