Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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ARQUEOLOGIA
Será Nefertiti?

Pesquisadores acreditam ter achado
a múmia da famosa rainha do Egito

 
Divulgação
A múmia mutilada: identificação com provas circunstanciais


Galeria de imagens

Um busto antigo, exposto no Museu Egípcio de Berlim, não deixa dúvida sobre a beleza de Nefertiti, rainha no tempo dos faraós. Só a falta de uma íris destoa no conjunto harmonioso – diz a lenda que a imagem foi deixada intencionalmente incompleta para que a formosura da rainha não causasse inveja às deusas. Nefertiti morreu jovem, há 3.300 anos, e seu corpo desapareceu sem deixar traços. Pelo menos até agora. Uma equipe de arqueólogos ingleses acredita que uma múmia encontrada há mais de 100 anos numa tumba secundária ao lado de uma câmara real no Vale dos Reis é a da rainha famosa. Os restos estão em estado deplorável, sem identificação, com as bandagens removidas, o braço direito arrancado e dois rombos, um no peito e outro na boca (estragos provavelmente feitos por ladrões de tumbas). Mas os traços do rosto e do pescoço conservam certa elegância, se é que se pode falar assim de uma múmia.

As provas reunidas para a identificação são intrigantes, mas circunstanciais. O indício mais importante é o braço arrancado. Está torcido e com a mão crispada, como se segurasse o cetro real – isso só ocorre com múmias de faraós e rainhas. Há marcas de uma faixa na cabeça e o crânio foi raspado. Seria para acomodar melhor a grande coroa que usava? Há também dois furos para brincos no lóbulo da orelha esquerda. "Entre todas as imagens de mulheres egípcias que eu conheço, apenas duas exibiam esse tipo de perfuração: a de Nefertiti e a de uma de suas filhas", diz a arqueóloga inglesa Joann Fletcher, da Universidade de York, responsável pela identificação. Nefertiti foi uma rainha especial. Ela tinha 12 anos quando se tornou a esposa principal de Amenófis IV, que subiu ao trono em 1353 a.C. Seu reinado durou dezessete anos e foi tempestuoso. O faraó aboliu o sistema politeísta e tornou oficial uma nova religião, com base na adoração de Aton, o deus-sol. Até trocou o próprio nome para Akhenaton – "aquele que serve a Aton". A rainha ocupava lugar de destaque na nova liturgia – mas alguma coisa aconteceu no 12º ano do reinado e ela sumiu dos registros. Pode ter morrido ou, como acreditam alguns estudiosos, se tornado co-regente e até mesmo faraó por um curto tempo, depois da morte do marido.

O certo é que um novo faraó restaurou a antiga religião e mandou apagar o nome de Nefertiti e o de seu marido da história egípcia. Seus corpos foram retirados da tumba e sumiram. Fletcher conhecia a tal múmia de fotografia e só no ano passado teve autorização do governo egípcio para entrar na tumba e examiná-la de perto. Muitos egiptólogos põem em dúvida a identificação. Zahi Hawas, diretor de Antiguidades do Egito e uma voz respeitada nesses assuntos, argumenta que os sucessores – e inimigos – de Akhenaton não permitiriam que o corpo da rainha continuasse no Vale dos Reis, privativo da realeza. Será mesmo Nefertiti? "Nós nunca teremos 100% de certeza", admitiu Fletcher, numa entrevista à revista Time. "A múmia nunca vai se levantar e nos dizer quem ela é."

 
 
 
 
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