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ARQUITETURA
Na
moda, aos 95 anos
Festejado
como o Picasso do concreto,
Oscar Niemeyer inaugura obra em Londres

Raul
Juste Lores
Instalada
desde a década de 70 em Kensington Gardens, o parque londrino
onde vivia a princesa Diana, a Serpentine é uma das mais
respeitáveis galerias de arte contemporâneas da Inglaterra.
Todos os anos, cria-se um clima de expectativa e competição
em torno da escolha do arquiteto que a Serpentine convidará
para projetar seu pavilhão temporário para abrigar
exposições de verão. Em 2000, a escolha foi
previsível: a iraquiana Zaha Hadid, a arquiteta mais badalada
do momento na Europa e nos Estados Unidos. No ano seguinte, foi
outro figurão da arquitetura contemporânea, o americano
Daniel Libeskind, autor do projeto do novo World Trade Center, em
Nova York. O arquiteto do ano passado foi o japonês Toyo Ito,
famoso em sua terra natal e virtualmente desconhecido no resto do
mundo. Para o pavilhão de 2003, que será inaugurado
nesta quinta-feira, o convidado é o brasileiro Oscar Niemeyer.
Por que a Serpentine, que sempre escolhe uma "novidade", desta vez
preferiu um veterano de 95 anos? "Ele é o Picasso da arquitetura",
explica Julia Peyton-Jones, a diretora da galeria. Perto de completar
um século, o arquiteto de Brasília voltou à
moda no circuito internacional.
Os
jornais londrinos derramam-se em elogios quando falam nele. The
Times o chamou de "lenda viva do modernismo". O Financial
Times afirmou que "ele permanece ativo e criativo em um grau
de envergonhar os jovens arquitetos, com uma obra sem paralelo".
A revista Wallpaper, bíblia de estilo dos modernos,
usou a foto de uma de suas obras recentes, o Museu de Arte Contemporânea
de Niterói, que parece um disco voador pousado à beira
da Baía de Guanabara, para mostrar que o Brasil é
mais que o binômio biquíni-futebol. "Niemeyer é
o equivalente na arquitetura às formas de Gisele Bündchen
na moda", diz o correspondente da Wallpaper no Brasil, o
suíço Lorenz Ackermann. Nos últimos três
anos, uma grande exposição de Niemeyer com dezessete
maquetes, 140 desenhos originais e 45 fotos da construção
de Brasília está circulando pelo mundo e já
foi exibida em Buenos Aires, Lisboa, Paris, Bruxelas, Frankfurt
e até o fim do ano chegará a Copenhague, Oslo e Madri.
Magno Mesquita
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Obras
do mestre
das formas
em concreto:
o museu que lembra
um disco
voador, em
Niterói (acima),
o edifício
Copan (abaixo, à esq.), em São
Paulo, e o
Palácio da Alvorada
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Luiz Aurelião
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Pedro Rubens
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Oscar
Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares nasceu no Rio de Janeiro em
1907 e foi aluno do franco-suíço Le Corbusier, pai
da arquitetura moderna. Juntos, eles projetaram uma das primeiras
grandes obras modernistas, o Ministério da Educação,
no Rio, nos anos 40. Na década seguinte, o projeto dos principais
prédios de Brasília, como o Palácio do Planalto,
o Congresso Nacional e a Catedral, rendeu a Niemeyer reconhecimento
internacional. No exterior, ele esteve na equipe que criou a sede
das Nações Unidas, em Nova York, e, durante o regime
militar, quando se exilou, fez obras na França, na Argélia
e na Itália. Nos anos 70, a maré virou e os papas
da arquitetura internacional começaram a olhar torto para
seu trabalho. Numa época em que se privilegiava a funcionalidade,
sua obra foi criticada por ser muito escultórica e pouco
funcional. Nos anos 90, os arquitetos voltaram a privilegiar a forma,
a beleza e a surpresa e, neste início do século
XXI, Niemeyer está de volta ao olimpo da arquitetura. "Antes,
a forma escolhida tinha de ser a mais funcional. Ele rompeu com
a idéia dos prédios-caixotes e instaurou a liberdade
na escolha das formas", diz o arquiteto Lauro Cavalcanti, autor
do livro Quando o Brasil Era Moderno, lançado nos
Estados Unidos pela Universidade Princeton.
Quando
decidiu convidar essa lenda viva da arquitetura para projetar um
pavilhão pequeno e temporário, Julia Peyton-Jones,
a diretora da Serpentine, pediu ajuda a Zaha Hadid. A arquiteta
iraquiana conhece Niemeyer pessoalmente e escreveu uma carta de
apresentação. Depois de esperar em vão por
uma resposta, Peyton-Jones suspeitou que o erro tinha sido enviar
a carta em inglês, língua que Niemeyer não fala.
Como também não recebeu resposta da correspondência
em português, ela pegou o avião e foi ao escritório
do arquiteto no Rio, em dezembro do ano passado. Acabaram se entendendo
em francês, língua que Niemeyer fala bem, mas a qual
a diretora da galeria só arranha. O pavilhão foi construído
com estrutura metálica, para que possa ser depois transferido
para outro local o que o tornou um projeto inusitado para
Niemeyer, que prefere trabalhar com concreto. "Acredito que foi
uma boa oportunidade para conhecerem uma obra minha na Inglaterra",
disse o arquiteto a VEJA. "Apesar de se tratar de um trabalho menor,
ela provoca, suspensa do chão e variada de formas como eu
a projetei, a surpresa arquitetural que procuro e que, quando possível,
deve caracterizar a boa arquitetura." O pavilhão provisório
deve receber 200.000 visitantes e se
tornar um pólo de atração para celebridades
em geral no verão europeu é comum, nessas ocasiões,
que membros da família real se misturem com artistas, como
Elton John, Hugh Grant e Gwyneth Paltrow, como ocorreu no ano passado.
Niemeyer, que por seu conhecido medo de voar não viajará
à Inglaterra, não verá de perto o prédio
que projetou. Mas sua obra será debatida no pavilhão
por Lauro Cavalcanti e pelo inglês sir Norman Foster, um dos
mais famosos arquitetos do mundo, na próxima semana. Niemeyer
está mais prestigiado do que nunca.
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