Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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ARQUITETURA
Na moda, aos 95 anos

Festejado como o Picasso do concreto,
Oscar Niemeyer inaugura obra em Londres


Raul Juste Lores

Galeria de fotos: as principais obras do arquiteto
  Dos arquivos de VEJA
O museu de Niemeyer (27/11/2002)
Perfil de Niemeyer (11/4/2001)
  Da internet
Serpentine gallery
Fundação Oscar Niemeyer

Instalada desde a década de 70 em Kensington Gardens, o parque londrino onde vivia a princesa Diana, a Serpentine é uma das mais respeitáveis galerias de arte contemporâneas da Inglaterra. Todos os anos, cria-se um clima de expectativa e competição em torno da escolha do arquiteto que a Serpentine convidará para projetar seu pavilhão temporário para abrigar exposições de verão. Em 2000, a escolha foi previsível: a iraquiana Zaha Hadid, a arquiteta mais badalada do momento na Europa e nos Estados Unidos. No ano seguinte, foi outro figurão da arquitetura contemporânea, o americano Daniel Libeskind, autor do projeto do novo World Trade Center, em Nova York. O arquiteto do ano passado foi o japonês Toyo Ito, famoso em sua terra natal e virtualmente desconhecido no resto do mundo. Para o pavilhão de 2003, que será inaugurado nesta quinta-feira, o convidado é o brasileiro Oscar Niemeyer. Por que a Serpentine, que sempre escolhe uma "novidade", desta vez preferiu um veterano de 95 anos? "Ele é o Picasso da arquitetura", explica Julia Peyton-Jones, a diretora da galeria. Perto de completar um século, o arquiteto de Brasília voltou à moda no circuito internacional.

Os jornais londrinos derramam-se em elogios quando falam nele. The Times o chamou de "lenda viva do modernismo". O Financial Times afirmou que "ele permanece ativo e criativo em um grau de envergonhar os jovens arquitetos, com uma obra sem paralelo". A revista Wallpaper, bíblia de estilo dos modernos, usou a foto de uma de suas obras recentes, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que parece um disco voador pousado à beira da Baía de Guanabara, para mostrar que o Brasil é mais que o binômio biquíni-futebol. "Niemeyer é o equivalente na arquitetura às formas de Gisele Bündchen na moda", diz o correspondente da Wallpaper no Brasil, o suíço Lorenz Ackermann. Nos últimos três anos, uma grande exposição de Niemeyer com dezessete maquetes, 140 desenhos originais e 45 fotos da construção de Brasília está circulando pelo mundo e já foi exibida em Buenos Aires, Lisboa, Paris, Bruxelas, Frankfurt e até o fim do ano chegará a Copenhague, Oslo e Madri.

 
Magno Mesquita

Obras do mestre das formas em concreto: o museu que lembra um disco voador, em Niterói (acima), o edifício Copan (abaixo, à esq.), em São Paulo, e o Palácio da Alvorada

Luiz Aurelião
Pedro Rubens

Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares nasceu no Rio de Janeiro em 1907 e foi aluno do franco-suíço Le Corbusier, pai da arquitetura moderna. Juntos, eles projetaram uma das primeiras grandes obras modernistas, o Ministério da Educação, no Rio, nos anos 40. Na década seguinte, o projeto dos principais prédios de Brasília, como o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e a Catedral, rendeu a Niemeyer reconhecimento internacional. No exterior, ele esteve na equipe que criou a sede das Nações Unidas, em Nova York, e, durante o regime militar, quando se exilou, fez obras na França, na Argélia e na Itália. Nos anos 70, a maré virou e os papas da arquitetura internacional começaram a olhar torto para seu trabalho. Numa época em que se privilegiava a funcionalidade, sua obra foi criticada por ser muito escultórica e pouco funcional. Nos anos 90, os arquitetos voltaram a privilegiar a forma, a beleza e a surpresa – e, neste início do século XXI, Niemeyer está de volta ao olimpo da arquitetura. "Antes, a forma escolhida tinha de ser a mais funcional. Ele rompeu com a idéia dos prédios-caixotes e instaurou a liberdade na escolha das formas", diz o arquiteto Lauro Cavalcanti, autor do livro Quando o Brasil Era Moderno, lançado nos Estados Unidos pela Universidade Princeton.

Quando decidiu convidar essa lenda viva da arquitetura para projetar um pavilhão pequeno e temporário, Julia Peyton-Jones, a diretora da Serpentine, pediu ajuda a Zaha Hadid. A arquiteta iraquiana conhece Niemeyer pessoalmente e escreveu uma carta de apresentação. Depois de esperar em vão por uma resposta, Peyton-Jones suspeitou que o erro tinha sido enviar a carta em inglês, língua que Niemeyer não fala. Como também não recebeu resposta da correspondência em português, ela pegou o avião e foi ao escritório do arquiteto no Rio, em dezembro do ano passado. Acabaram se entendendo em francês, língua que Niemeyer fala bem, mas a qual a diretora da galeria só arranha. O pavilhão foi construído com estrutura metálica, para que possa ser depois transferido para outro local – o que o tornou um projeto inusitado para Niemeyer, que prefere trabalhar com concreto. "Acredito que foi uma boa oportunidade para conhecerem uma obra minha na Inglaterra", disse o arquiteto a VEJA. "Apesar de se tratar de um trabalho menor, ela provoca, suspensa do chão e variada de formas como eu a projetei, a surpresa arquitetural que procuro e que, quando possível, deve caracterizar a boa arquitetura." O pavilhão provisório deve receber 200.000 visitantes e se tornar um pólo de atração para celebridades em geral no verão europeu – é comum, nessas ocasiões, que membros da família real se misturem com artistas, como Elton John, Hugh Grant e Gwyneth Paltrow, como ocorreu no ano passado. Niemeyer, que por seu conhecido medo de voar não viajará à Inglaterra, não verá de perto o prédio que projetou. Mas sua obra será debatida no pavilhão por Lauro Cavalcanti e pelo inglês sir Norman Foster, um dos mais famosos arquitetos do mundo, na próxima semana. Niemeyer está mais prestigiado do que nunca.

 
 
 
 
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