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ALCA
O perde e ganha da Alca
Lula
voltará a se encontrar com Bush nesta
semana em Washington e o acordo de livre
comércio vai dominar a agenda

Adriana
Souza Silva
Nesta
sexta-feira 20, Luiz Inácio Lula da Silva será recebido
pela primeira vez na Casa Branca, em Washington, como presidente
efetivo. O assunto dominante na conversa com o presidente George
W. Bush será a Área de Livre Comércio das Américas
(Alca), cujas negociações estão se arrastando
em ritmo muito lento. O resultado da conversa pode dar andamento
ao acordo ou colocá-lo em marcha lenta no que diz respeito
ao Brasil. Os outros 32 países da América, com exceção
previsível de Cuba, que não foi convidada a entrar
na Alca, estão muito mais empenhados na discussão
com os Estados Unidos. A novidade do lado brasileiro é que,
desta vez, a diplomacia está aparelhada para discutir questões
específicas com os americanos. Talvez maior novidade ainda
seja o consenso do lado do governo brasileiro de que, mesmo correndo
riscos, há muito a ganhar com o bloco que reúne um
PIB de 12 trilhões de dólares e onde vivem mais de
800 milhões de pessoas.
Na ponta do lápis, há oportunidades em número
igual ao de riscos para o Brasil. Antes da entrada em vigência
da Alca, sejam quais forem os termos finais do acordo, o Brasil
precisará garantir às empresas nacionais um ambiente
macroeconômico menos hostil que o de hoje. Com uma carga de
impostos que passa dos 40% do PIB, apenas 23% de crédito
disponível para o setor privado e os juros mais altos do
mundo, será quase impossível para as empresas concorrer
com alguma chance de sucesso no bloco de comércio das Américas.
Lula vai sentar-se com Bush sabendo quais são os setores
empresariais brasileiros mais vulneráveis e os que mais têm
a ganhar com o acordo. Uma pesquisa feita pela Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp) analisou os possíveis impactos em vinte
setores da economia brasileira. Na simulação, os pesquisadores
analisaram o que aconteceria se as alíquotas zerassem de
uma hora para outra. Os ganhadores do lado brasileiro seriam os
fabricantes de calçados, os setores de agribusiness, siderurgia,
celulose e têxtil. Esse grupo é o das empresas que
se preparam para a inevitabilidade de ter de se viabilizar externamente.
Em resumo, esses setores estão prontos para a competição.
Já as áreas de petroquímica, máquinas
e plásticos seriam pegas no contrapé se a Alca entrasse
em funcionamento logo.
O diagnóstico de quem ganha, de quem perde e de quem ganha
de um lado e perde de outro serve como uma bússola na negociação.
É com base nessas informações que se decidirá
quais setores devem ser protegidos por mais tempo e quais podem
ter suas alíquotas abaixadas imediatamente. Um problema sério
é que o Brasil é forte justamente em setores pouco
competitivos da economia americana. Ou seja, as empresas nacionais
buscam exatamente ter mais acesso aos mercados que os americanos
só pensam em proteger. O contrário também é
verdadeiro. Os americanos querem a abertura onde o Brasil vê
necessidade de proteção. A siderurgia brasileira,
acostumada a exportar cerca de 50% de sua produção
anual, é um dos nós da negociação. Existe
hoje sobre o setor a chamada sobretaxa do aço mecanismo
adotado pelos EUA que faz com que os compradores do produto brasileiro
tenham de pagar até 30% mais para entrar naquele mercado.
"Se isso não for resolvido, o projeto da Alca fica prejudicado",
avalia Jorge Gerdau Johannpeter, presidente da Gerdau, a segunda
maior empresa siderúrgica do Brasil e dona de plantas nos
EUA e no Canadá. Ele recomenda: "Vamos nos sentar e negociar.
Se o acordo for benéfico, assinamos. Caso contrário,
não. Temos de ser pragmáticos".
A área de papel e celulose, por exemplo, enfrenta outro dilema.
"A maior ameaça ao papel brasileiro são as gigantes
americanas", diz Boris Tabacof, presidente do conselho de administração
da Companhia Suzano de Papel e Celulose. Nos EUA, as três
maiores empresas produzem cerca de 30 milhões de toneladas
de papel por ano, enquanto toda a produção brasileira
não passa de 8 milhões de toneladas. O sucesso da
Alca depende de os 34 países encontrarem vantagem num acordo
que também terá perdedores. "Não temos a mesma
rede de proteção aos impactos negativos que os americanos
possuem", alerta a economista Lia Valls Pereira, da Fundação
Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.
Com reportagem de Leandra Peres
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