Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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ALCA
O perde e ganha da Alca

Lula voltará a se encontrar com Bush nesta
semana em Washington e o acordo de livre
comércio vai dominar a agenda


Adriana Souza Silva

Os vencedores e os perdedores

Nesta sexta-feira 20, Luiz Inácio Lula da Silva será recebido pela primeira vez na Casa Branca, em Washington, como presidente efetivo. O assunto dominante na conversa com o presidente George W. Bush será a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), cujas negociações estão se arrastando em ritmo muito lento. O resultado da conversa pode dar andamento ao acordo ou colocá-lo em marcha lenta no que diz respeito ao Brasil. Os outros 32 países da América, com exceção previsível de Cuba, que não foi convidada a entrar na Alca, estão muito mais empenhados na discussão com os Estados Unidos. A novidade do lado brasileiro é que, desta vez, a diplomacia está aparelhada para discutir questões específicas com os americanos. Talvez maior novidade ainda seja o consenso do lado do governo brasileiro de que, mesmo correndo riscos, há muito a ganhar com o bloco que reúne um PIB de 12 trilhões de dólares e onde vivem mais de 800 milhões de pessoas.

Na ponta do lápis, há oportunidades em número igual ao de riscos para o Brasil. Antes da entrada em vigência da Alca, sejam quais forem os termos finais do acordo, o Brasil precisará garantir às empresas nacionais um ambiente macroeconômico menos hostil que o de hoje. Com uma carga de impostos que passa dos 40% do PIB, apenas 23% de crédito disponível para o setor privado e os juros mais altos do mundo, será quase impossível para as empresas concorrer com alguma chance de sucesso no bloco de comércio das Américas.

Lula vai sentar-se com Bush sabendo quais são os setores empresariais brasileiros mais vulneráveis e os que mais têm a ganhar com o acordo. Uma pesquisa feita pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) analisou os possíveis impactos em vinte setores da economia brasileira. Na simulação, os pesquisadores analisaram o que aconteceria se as alíquotas zerassem de uma hora para outra. Os ganhadores do lado brasileiro seriam os fabricantes de calçados, os setores de agribusiness, siderurgia, celulose e têxtil. Esse grupo é o das empresas que se preparam para a inevitabilidade de ter de se viabilizar externamente. Em resumo, esses setores estão prontos para a competição. Já as áreas de petroquímica, máquinas e plásticos seriam pegas no contrapé se a Alca entrasse em funcionamento logo.

O diagnóstico de quem ganha, de quem perde e de quem ganha de um lado e perde de outro serve como uma bússola na negociação. É com base nessas informações que se decidirá quais setores devem ser protegidos por mais tempo e quais podem ter suas alíquotas abaixadas imediatamente. Um problema sério é que o Brasil é forte justamente em setores pouco competitivos da economia americana. Ou seja, as empresas nacionais buscam exatamente ter mais acesso aos mercados que os americanos só pensam em proteger. O contrário também é verdadeiro. Os americanos querem a abertura onde o Brasil vê necessidade de proteção. A siderurgia brasileira, acostumada a exportar cerca de 50% de sua produção anual, é um dos nós da negociação. Existe hoje sobre o setor a chamada sobretaxa do aço – mecanismo adotado pelos EUA que faz com que os compradores do produto brasileiro tenham de pagar até 30% mais para entrar naquele mercado. "Se isso não for resolvido, o projeto da Alca fica prejudicado", avalia Jorge Gerdau Johannpeter, presidente da Gerdau, a segunda maior empresa siderúrgica do Brasil e dona de plantas nos EUA e no Canadá. Ele recomenda: "Vamos nos sentar e negociar. Se o acordo for benéfico, assinamos. Caso contrário, não. Temos de ser pragmáticos".

A área de papel e celulose, por exemplo, enfrenta outro dilema. "A maior ameaça ao papel brasileiro são as gigantes americanas", diz Boris Tabacof, presidente do conselho de administração da Companhia Suzano de Papel e Celulose. Nos EUA, as três maiores empresas produzem cerca de 30 milhões de toneladas de papel por ano, enquanto toda a produção brasileira não passa de 8 milhões de toneladas. O sucesso da Alca depende de os 34 países encontrarem vantagem num acordo que também terá perdedores. "Não temos a mesma rede de proteção aos impactos negativos que os americanos possuem", alerta a economista Lia Valls Pereira, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.


Com reportagem de
Leandra Peres

 
 
 
 
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