Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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ESPECIAL
O beato Rainha


Eduardo Salgado e Leandra Peres



Foto de arquivo (dez/95) de Clovis Ferreira
JOSÉ RAINHA JÚNIOR, DO MST: o líder sem-terra diz que pretende criar uma nova Canudos em Presidente Epitácio, no extremo oeste paulista

Debaixo da mata rala à beira da estrada, um homem magro, alto e de barba sobe no palanque improvisado diante de algumas dezenas de famílias num domingo de sol e céu azul. As pessoas se calam e prestam atenção no homem em cima do palanque. José Rainha Júnior, de 42 anos, um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e um de seus nomes mais carismáticos e rebeldes, parece em plena forma depois de passar quatro meses fugindo da polícia e outros dois na cadeia, acusado de formação de quadrilha. Apesar de não ocupar atualmente nenhum cargo na hierarquia nacional do MST, Rainha continua sendo o líder dos sem-terra com a maior capacidade de atrair seguidores em todo o Brasil. Ele adota uma linha política mais radical que outras lideranças do movimento. Suas táticas também são mais agressivas. No momento, está tentando atrair as multidões de deserdados para criar o que ele chama de uma "nova Canudos".

O discurso de Rainha diante de sua platéia de sem-terra ocorreu há uma semana nos arredores de Presidente Epitácio, cidade localizada no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, a 647 quilômetros da capital, na divisa com Mato Grosso do Sul. Em menos de um mês, foram erguidos ali mais de 1.000 barracos. Os integrantes do acampamento esperam multiplicar o número por cinco até julho. Rainha organiza essa operação com base num levantamento sobre o número de "excluídos do capitalismo" que existe na região, um grupo que poderia fornecer algo como 20.000 pessoas para sua nova Canudos. As pessoas aparecem e aderem porque vêem em Rainha uma chance de melhorar de vida, sua única chance. As promessas são de que, enquanto o acampamento durar, seus integrantes ganharão assistência do governo, como cestas básicas e até atendimento médico. Quando a luta chegar ao fim vitoriosa, promete Rainha, todos ganharão um terreno para plantar e colher.

O acampamento está sendo montado ao longo de uma estrada, um barraco ao lado do outro, numa longa fila. A maior parte dos "acampados" vive em áreas muito pobres de Presidente Epitácio e lugarejos vizinhos. São biscateiros, desempregados, motoristas, pequenos vendedores e também lavradores, pessoas que desenvolvem atividades econômicas marginais, desvinculadas da grande produção. Além das promessas de prosperidade material que faz aos seguidores, José Rainha está obcecado pela idéia de reviver Canudos, o mais aguerrido e sangrento movimento de resistência à proclamação da República, que estourou no interior da Bahia há 106 anos.

Canudos foi dizimado de forma cruel em 1897 por tropas do Exército. Houve cerca de 15.000 baixas dos dois lados. A resistência de casa em casa dos defensores de Canudos sempre teve ressonância poderosa entre os militantes de esquerda, especialmente entre os do MST e da CUT, a central sindical ligada ao PT. Com raras exceções, Canudos aparece na débil historiografia brasileira como a mais bem-sucedida experiência de organização popular da história do país, um movimento que soube canalizar as insatisfações do campo para produzir uma explosão social revolucionária. Como quase todo militante de seu credo, Rainha acredita na glorificação ideológica do que foi apenas uma insurreição de fanáticos, hipnotizados por um líder carismático, o beato Antônio Conselheiro. Canudos foi um movimento que à luz da melhor sociologia, mesmo a marxista, foi apenas utópico, monarquista e, há mais de um século, já era anacrônico com sua pregação da volta à vida pastoril. Rainha se apega ao poder organizador do beato de Canudos.


Andre Penner
A NOVA CANUDOS NO OESTE PAULISTA
Acampamento de Presidente Epitácio já tem 1 000 barracos e a meta é chegar a 5.000 até julho

"Antônio Conselheiro não se entregou nem foi morto pelas tropas do governo. Morreu de diarréia. A burguesia amarela quando falo que vou fazer uma nova Canudos", disse Rainha a VEJA. Não se sabe ao certo as circunstâncias da morte de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro. Mas sua imagem, imortalizada por Euclides da Cunha no célebre relato Os Sertões, tem potencial para fazer bem mais que corar a burguesia. Euclides da Cunha descreve o líder de Canudos como um "demente", "um desequilibrado", um manipulador que arrebanhou um exército de "gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho, vezada à mândria e à rapina". Em sua versão romanceada de Canudos, A Guerra do Fim do Mundo, o peruano Mario Vargas Llosa pinta imagem semelhante do beato enlouquecido. Rainha reconhece que não tem conhecimento histórico profundo da Guerra de Canudos nem se apega ao lado violento do episódio. O Conselheiro, sustenta Rainha, o inspira como poderoso organizador de massas que foi. Rainha trabalha com o objetivo de atrair 5.000 famílias para as margens da SPV-35, na entrada de Presidente Epitácio. "Vamos dar um voto de confiança ao Lula porque queremos uma reforma agrária paz-e-amor, mas, se ele não fizer nada, a gente faz", ameaça. "A nossa força está na quantidade."

O Conselheiro começou a pregar e se transformou em um beato depois que a mulher o abandonou para morar com um cabo da milícia. O beato Rainha não tem nenhum evento traumático dessa natureza em seu passado. Sua profunda convicção "anticapitalista e antiimperialista" foi formada aos poucos, mas de maneira sólida. José Rainha Júnior nasceu no dia da independência americana, 4 de julho, em 1960, em São Gabriel da Palha, no norte do Espírito Santo, filho de um meeiro. Terceiro de uma família de seis, mudou-se para a comunidade de Vargem Alegre, em Linhares, onde aprendeu a ler aos 16 anos com o grupo jovem da Igreja Católica. Foi lá que, no dia 17 de fevereiro de 1978, teve o encontro que, segundo ele, mudou sua vida. Frei Betto, o dominicano amigo do presidente Lula, foi ao Espírito Santo organizar um núcleo da Comunidade Eclesial de Base, trincheira de parte da esquerda durante o regime militar. Na reunião, um jovem de estatura bem mais avantajada que a dos demais, o "Zezinho", de 1,85 metro, chamou a atenção de Frei Betto pelo ardor com que pregava suas idéias. Durante o almoço, o dominicano conversou muito com Rainha, cuja tarefa na comunidade até então era organizar as festas e as partidas de futebol do grupo jovem da igreja. Quando foi embora, Betto presenteou-o com um livro. Sua militância na esquerda socialista católica começara.


Georgeane Costa/Oeste Noticias/AE
cias/AE
RAINHA E A LEI
Depois de quatro meses na clandestinidade, Rainha é preso por formação de quadrilha em setembro de 2002 (acima, à esq.). Absolvido no processo em que era acusado de co-autoria em dois homicídios ocorridos em 1989, Rainha beija o advogado Evandro Lins e Silva (acima, à dir.). Em frente ao Fórum de Vitória, Rainha usa a pressão do movimento a seu favor. Biografia atribulada ajuda a alimentar a aura de herói.
Fotos Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem

No ano de fundação da CUT em 1983, Rainha conheceu sindicalistas gaúchos que estavam dando os primeiros passos para fundar o MST. Cerca de dois anos depois, já como secretário do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Linhares, foi eleito para a comissão nacional do MST. Em menos de um ano, começou sua vida de agitador profissional. Recebeu o convite para organizar o movimento no Nordeste e, com a ajuda da igreja, da CUT e de membros do PT local, ziguezagueou pela região até 1991, invadindo propriedades, levantando acampamentos e prometendo terras aos miseráveis. A movimentação de Rainha despertou a atenção dos proprietários de terras e ele começou a ser seguido. Ameaçado de morte em Imperatriz, no Maranhão, numa época em que os jagunços das fazendas eram bem mais rápidos no gatilho do que agora, decidiu mudar seu palco de atuação para o Pontal do Paranapanema, em São Paulo, uma região marcada por conflitos de terra decorrentes do fato de que a posse de muitas fazendas é motivo de litígio na Justiça. Ali, Rainha se casou com Diolinda Alves de Souza, uma companheira do movimento que estava esperando um filho dele. Mais tarde, nas vezes em que ele foi preso, Diolinda comandou os "comitês de apoio à libertação de Rainha". Sua biografia de militante é diferente da de outros líderes do MST. Rainha nunca foi um formulador intelectual e organizador nacional como João Pedro Stedile.

Seu temperamento sempre o colocou à frente de ações de impacto, especialmente invasões de áreas. É destemido e já correu risco de morte mais de uma vez. Seu grupo envolveu-se num tiroteio e, certa vez, um fazendeiro abriu fogo contra o carro em que Rainha estava. Foi acusado, julgado e absolvido num processo por assassinato. Acabou preso por porte de arma. Levava no carro uma escopeta, arma de alto impacto que é de uso privativo das Forças Armadas. Em Teodoro Sampaio, no oeste de São Paulo, foi processado por vandalismo e formação de quadrilha, junto com outros quinze integrantes do MST, por causa de invasão e depredação de prédio público. O desapego de Rainha por cargos no MST e seu envolvimento em ações audaciosas deram a ele certa aura heróica no movimento dos sem-terra. Militante profissional, nunca trabalhou no campo. Suas mãos continuam sem calos e as unhas estão sempre limpas. Vive com a mulher e os dois filhos em uma casa em Teodoro Sampaio. O lote de terra que recebeu do governo no assentamento Che Guevara é ocupado pelo irmão Bertoldo e pelo sobrinho Bertoni. Houve um tempo em que Rainha dizia aos companheiros no MST que ele seria o equivalente ao que foi Guevara na Revolução Cubana, cabendo a Stedile o papel mais severo e distante de Fidel Castro.


Andre Penner
O RETORNO DA UDR
Associação dos fazendeiros se diz favorável a uma reforma agrária que gere eficiência e acabe com a favelização do campo

Hoje em dia, ninguém discute a necessidade de uma reforma agrária no Brasil. Todos estão de acordo. Mesmo a União Democrática Ruralista (UDR), entidade de fazendeiros que ficou célebre na segunda metade dos anos 80 por sua disposição beligerante no campo, diz-se a favor de uma reforma agrária que produza resultados para os assentados e não funcione apenas como bucha de canhão para os líderes do MST. Não se podem admitir, no entanto, as invasões e depredações da propriedade privada, como fazem muitas vezes os membros do MST, em flagrante desrespeito às leis. Como trabalham em prol de multidões de pobres, os líderes desses movimentos parecem acreditar que estão acima da lei. Qualquer solução duradoura para a questão agrária brasileira começa por manter as ações do MST dentro dos limites da legalidade.

Rainha prefere ignorar os dados. Embora seus resultados econômicos tenham sido desastrosos em boa parte do país, a verdade é que a reforma agrária feita por Fernando Henrique Cardoso em seus oito anos de administração foi o mais ambicioso plano de distribuição de terra já tentado por um governo democrático. O governo FHC retalhou 18 milhões de hectares, uma área maior que o Uruguai, e neles assentou 525.000 famílias. Quase 2 milhões de brasileiros receberam terras do governo entre 1995 e 2002. A maior parte dos assentados, mostram estudos recentes, não prosperou por falta de crédito, recursos técnicos para cultivar o solo de maneira produtiva e também por total ausência de vocação para o trabalho e a vida no campo.


Epitacio Pessoa/AE
A INSEGURANÇA NAS FAZENDAS
Fazendeiro armado no Pontal: a tática agora é usar familiares e empregados na defesa das fazendas e não mais contratar pistoleiros para fazer as patrulhas

Para Rainha, essas discussões são acessórias. Ele enxerga o campo como um atalho para transformações bem mais profundas na sociedade brasileira do que a criação de uma classe média rural, moderna e democrática. Sua pregação nada tem da visão de um técnico em produtividade rural. Algumas manifestações práticas disso:

• "Vamos construir o socialismo do nosso jeito"

• "O capitalismo é desumano porque onde existe o lucro prolifera a injustiça"

• "O Estado deve estar a serviço da classe que produz e trabalha numa sociedade em que não haja espaço para o surgimento de explorados nem de exploradores"


J. F. Diorio/AE
A REAÇÃO AO MASSACRE
Militantes com espingardas em Eldorado dos Carajás, onde os sem-terra foram massacrados em 1996

O tipo de gente que Rainha atrai com sua pregação populista e messiânica é bem diferente daquela massa de manobra com que a esquerda tradicional sonha em trabalhar. Os seguidores de Rainha não são tipos que parecem dispostos a suportar a disciplina exigida na "criação do novo homem" das utopias socialistas. O acampamento de Rainha, sua Canudos virtual, é povoado por miseráveis urbanos, mas também atrai aproveitadores de todos os tipos. Em boa parte, os barracos são ocupados apenas durante o dia. À noite, como ninguém é de ferro, os acampados de Rainha vão para sua casa ou para a de parentes na cidade, a fim de jantar e dormir com um pouco mais de conforto.

Para colocar o nome na lista dos sem-terra, os candidatos precisam apenas montar e cobrir o barraco. Se o movimento acenasse com a possibilidade de ganhar uma bicicleta, moto ou aparelhos de TV em vez de um pedaço de terra, estaria arregimentando gente com o mesmo tipo de sucesso. Muitos vão embora ao cabo de alguns dias e abandonam os barracos. Os que ficam são os mais miseráveis, atraídos pelas cestas básicas enviadas pelo governo. Mas a fila dos candidatos a ganhar um lote de terra tende a crescer depressa no Pontal. No fim de maio, o número de barracos totalizava 160. No primeiro fim de semana de junho, já eram 400. Na semana passada, os dois lados da estrada estavam cobertos por cerca de 1.000 casebres. Nesta época do ano, as oportunidades de trabalho no Pontal diminuem em função do período de seca. Por essa razão, Rainha e seus liderados têm até julho para percorrer as áreas pobres da região e arregimentar mais gente. Aí então ele terá seu megaacampamento. O que fará com ele, não se sabe. Os adversários de Rainha dizem que, no fundo, seu objetivo é bem menos pomposo do que parece. Metido em uma luta de poder com Gilmar Mauro e João Pedro Stedile, da cúpula do MST, ele estaria simplesmente visando tornar-se o interlocutor mais importante do governo do PT no Movimento dos Sem-Terra.


Roberto Castro/AE
O DEBOCHE À REPÚBLICA
No ano passado, os sem-terra invadiram a fazenda dos filhos de FHC em Buritis, Minas Gerais

O movimento de José Rainha é um anacronismo sob qualquer ponto de vista pelo qual seja observado. Experiências revolucionárias no campo no mundo moderno não produzem explosões como no tempo de Guevara e Fidel Castro. Produzem apenas mais atraso. O campo brasileiro enveredou por outro rumo. Hoje, domina os negócios agrários movidos a alta tecnologia, capital intensivo e baixo uso de mão-de-obra. O setor rural produz sozinho um superávit anual na balança de exportações de mais de 20 bilhões de dólares. Se essa fosse a única atividade econômica brasileira, o país teria um superávit no comércio exterior entre os dez maiores do mundo. Essa é uma das razões pelas quais a população do campo está minguando no Brasil. O agronegócio usa pouca mão-de-obra. Mais de 80% dos brasileiros vivem hoje em cidades. As projeções indicam que dentro de cinco anos a população urbana nacional ultrapassará 85%.

A utopia pastoril de Rainha engasga em outros fundamentos. Um estudo sobre dezenas de experiências de distribuição de terra no mundo, de autoria do americano Tony Smith, professor de ciência política da Universidade Tufts, encontrou quatro pontos de coincidência em planos de reforma agrária que deram certo. Em primeiro lugar, além da terra, é preciso que existam crédito e capacitação tecnológica. Em segundo, o governo tem de garantir acesso dos produtos dos assentados aos mercados internacionais. O terceiro componente do sucesso é incentivar a criação de empregos não-rurais nas regiões dos assentamentos, pois, no médio prazo, a tecnologia vai desocupar muita gente no campo. Em quarto lugar, Smith aponta a necessidade de encontrar maneiras de contrabalançar os subsídios que os países ricos oferecem a seus agricultores, de modo a dar competitividade aos produtos dos assentados. O MST não aprovaria essa receita.


Beto Figueiroa/AE
OS DONOS DA LEI
Em maio, membros do MST invadiram o Engenho Prado, em Pernambuco, e colocaram fogo nas casas e máquinas

A discussão sobre os resultados da distribuição de lotes de terra no Brasil ganhou um reforço com a recente publicação do livro A Qualidade dos Assentamentos da Reforma Agrária Brasileira. Encomendado pelo governo FHC, o estudo contou com mais de 14.000 entrevistas realizadas entre julho e setembro do ano passado em 4.340 assentamentos de todas as regiões do Brasil. No estudo, a ênfase dada ao volume dos assentamentos em detrimento da qualidade fica clara. Apenas uma de cada quatro famílias tem acesso ao ensino médio. Mais da metade não dispõe de eletricidade. Apesar disso, os assentamentos realizados entre 1985 e 2001 foram um sucesso do ponto de vista da adesão. O porcentual de lotes ocupados de forma regular (pelos próprios donos) ou irregular (por terceiros) é de 96%. "O MST é muito organizado para lutar pelo acesso à terra, mas não tem o mesmo ímpeto na hora de viabilizar o empreendimento", diz Gerd Sparovek, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da pesquisa. Do total de assentados entre 1995 e 2001, 60% fazem parte de associações montadas para reivindicar lotes, crédito e ajuda do governo. Por outro lado, apenas 5% são de cooperativas e míseros 3% têm parcerias com agroindústrias. Chegou a hora de fazer uma reforma no MST.

 
 
 
 
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