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ESPECIAL
O
beato Rainha

Eduardo
Salgado e Leandra Peres
Foto de arquivo (dez/95) de Clovis
Ferreira
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| JOSÉ
RAINHA JÚNIOR, DO MST: o líder sem-terra
diz que pretende criar uma nova Canudos em Presidente Epitácio,
no extremo oeste paulista |
Debaixo da mata rala à beira da estrada, um homem magro, alto
e de barba sobe no palanque improvisado diante de algumas dezenas
de famílias num domingo de sol e céu azul. As pessoas
se calam e prestam atenção no homem em cima do palanque.
José Rainha Júnior, de 42 anos, um dos fundadores do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e um de seus nomes
mais carismáticos e rebeldes, parece em plena forma depois
de passar quatro meses fugindo da polícia e outros dois na
cadeia, acusado de formação de quadrilha. Apesar de
não ocupar atualmente nenhum cargo na hierarquia nacional do
MST, Rainha continua sendo o líder dos sem-terra com a maior
capacidade de atrair seguidores em todo o Brasil. Ele adota uma linha
política mais radical que outras lideranças do movimento.
Suas táticas também são mais agressivas. No momento,
está tentando atrair as multidões de deserdados para
criar o que ele chama de uma "nova Canudos".
O discurso
de Rainha diante de sua platéia de sem-terra ocorreu há
uma semana nos arredores de Presidente Epitácio, cidade localizada
no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, a 647 quilômetros
da capital, na divisa com Mato Grosso do Sul. Em menos de um mês,
foram erguidos ali mais de 1.000 barracos. Os
integrantes do acampamento esperam multiplicar o número por
cinco até julho. Rainha organiza essa operação
com base num levantamento sobre o número de "excluídos
do capitalismo" que existe na região, um grupo que poderia
fornecer algo como 20.000 pessoas para sua nova
Canudos. As pessoas aparecem e aderem porque vêem em Rainha
uma chance de melhorar de vida, sua única chance. As promessas
são de que, enquanto o acampamento durar, seus integrantes
ganharão assistência do governo, como cestas básicas
e até atendimento médico. Quando a luta chegar ao
fim vitoriosa, promete Rainha, todos ganharão um terreno
para plantar e colher.
O
acampamento está sendo montado ao longo de uma estrada, um
barraco ao lado do outro, numa longa fila. A maior parte dos "acampados"
vive em áreas muito pobres de Presidente Epitácio
e lugarejos vizinhos. São biscateiros, desempregados, motoristas,
pequenos vendedores e também lavradores, pessoas que desenvolvem
atividades econômicas marginais, desvinculadas da grande produção.
Além das promessas de prosperidade material que faz aos seguidores,
José Rainha está obcecado pela idéia de reviver
Canudos, o mais aguerrido e sangrento movimento de resistência
à proclamação da República, que estourou
no interior da Bahia há 106 anos.
Canudos
foi dizimado de forma cruel em 1897 por tropas do Exército.
Houve cerca de 15.000 baixas dos dois lados.
A resistência de casa em casa dos defensores de Canudos sempre
teve ressonância poderosa entre os militantes de esquerda,
especialmente entre os do MST e da CUT, a central sindical ligada
ao PT. Com raras exceções, Canudos aparece na débil
historiografia brasileira como a mais bem-sucedida experiência
de organização popular da história do país,
um movimento que soube canalizar as insatisfações
do campo para produzir uma explosão social revolucionária.
Como quase todo militante de seu credo, Rainha acredita na glorificação
ideológica do que foi apenas uma insurreição
de fanáticos, hipnotizados por um líder carismático,
o beato Antônio Conselheiro. Canudos foi um movimento que
à luz da melhor sociologia, mesmo a marxista, foi apenas
utópico, monarquista e, há mais de um século,
já era anacrônico com sua pregação da
volta à vida pastoril. Rainha se apega ao poder organizador
do beato de Canudos.
Andre Penner
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A
NOVA CANUDOS NO OESTE PAULISTA
Acampamento de Presidente Epitácio já tem 1 000
barracos e a meta é chegar a 5.000 até julho |
"Antônio
Conselheiro não se entregou nem foi morto pelas tropas do
governo. Morreu de diarréia. A burguesia amarela quando falo
que vou fazer uma nova Canudos", disse Rainha a VEJA. Não
se sabe ao certo as circunstâncias da morte de Antônio
Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro. Mas sua imagem, imortalizada
por Euclides da Cunha no célebre relato Os Sertões,
tem potencial para fazer bem mais que corar a burguesia. Euclides
da Cunha descreve o líder de Canudos como um "demente", "um
desequilibrado", um manipulador que arrebanhou um exército
de "gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho, vezada à
mândria e à rapina". Em sua versão romanceada
de Canudos, A Guerra do Fim do Mundo, o peruano Mario Vargas
Llosa pinta imagem semelhante do beato enlouquecido. Rainha reconhece
que não tem conhecimento histórico profundo da Guerra
de Canudos nem se apega ao lado violento do episódio. O Conselheiro,
sustenta Rainha, o inspira como poderoso organizador de massas que
foi. Rainha trabalha com o objetivo de atrair 5.000
famílias para as margens da SPV-35, na entrada de Presidente
Epitácio. "Vamos dar um voto de confiança ao Lula
porque queremos uma reforma agrária paz-e-amor, mas, se ele
não fizer nada, a gente faz", ameaça. "A nossa força
está na quantidade."
O
Conselheiro começou a pregar e se transformou em um beato
depois que a mulher o abandonou para morar com um cabo da milícia.
O beato Rainha não tem nenhum evento traumático dessa
natureza em seu passado. Sua profunda convicção "anticapitalista
e antiimperialista" foi formada aos poucos, mas de maneira sólida.
José Rainha Júnior nasceu no dia da independência
americana, 4 de julho, em 1960, em São Gabriel da Palha,
no norte do Espírito Santo, filho de um meeiro. Terceiro
de uma família de seis, mudou-se para a comunidade de Vargem
Alegre, em Linhares, onde aprendeu a ler aos 16 anos com o grupo
jovem da Igreja Católica. Foi lá que, no dia 17 de
fevereiro de 1978, teve o encontro que, segundo ele, mudou sua vida.
Frei Betto, o dominicano amigo do presidente Lula, foi ao Espírito
Santo organizar um núcleo da Comunidade Eclesial de Base,
trincheira de parte da esquerda durante o regime militar. Na reunião,
um jovem de estatura bem mais avantajada que a dos demais, o "Zezinho",
de 1,85 metro, chamou a atenção de Frei Betto pelo
ardor com que pregava suas idéias. Durante o almoço,
o dominicano conversou muito com Rainha, cuja tarefa na comunidade
até então era organizar as festas e as partidas de
futebol do grupo jovem da igreja. Quando foi embora, Betto presenteou-o
com um livro. Sua militância na esquerda socialista católica
começara.
Georgeane Costa/Oeste Noticias/AE
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cias/AE
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RAINHA
E A LEI
Depois de quatro meses na clandestinidade, Rainha é preso
por formação de quadrilha em setembro de 2002
(acima, à esq.). Absolvido no processo em que
era acusado de co-autoria em dois homicídios ocorridos
em 1989, Rainha beija o advogado Evandro Lins e Silva (acima,
à dir.). Em frente ao Fórum de Vitória,
Rainha usa a pressão do movimento a seu favor. Biografia
atribulada ajuda a alimentar a aura de herói. |
Fotos Ana Carolina Fernandes/Folha
Imagem
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No
ano de fundação da CUT em 1983, Rainha conheceu sindicalistas
gaúchos que estavam dando os primeiros passos para fundar
o MST. Cerca de dois anos depois, já como secretário
do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Linhares, foi eleito para
a comissão nacional do MST. Em menos de um ano, começou
sua vida de agitador profissional. Recebeu o convite para organizar
o movimento no Nordeste e, com a ajuda da igreja, da CUT e de membros
do PT local, ziguezagueou pela região até 1991, invadindo
propriedades, levantando acampamentos e prometendo terras aos miseráveis.
A movimentação de Rainha despertou a atenção
dos proprietários de terras e ele começou a ser seguido.
Ameaçado de morte em Imperatriz, no Maranhão, numa
época em que os jagunços das fazendas eram bem mais
rápidos no gatilho do que agora, decidiu mudar seu palco
de atuação para o Pontal do Paranapanema, em São
Paulo, uma região marcada por conflitos de terra decorrentes
do fato de que a posse de muitas fazendas é motivo de litígio
na Justiça. Ali, Rainha se casou com Diolinda Alves de Souza,
uma companheira do movimento que estava esperando um filho dele.
Mais tarde, nas vezes em que ele foi preso, Diolinda comandou os
"comitês de apoio à libertação de Rainha".
Sua biografia de militante é diferente da de outros líderes
do MST. Rainha nunca foi um formulador intelectual e organizador
nacional como João Pedro Stedile.
Seu
temperamento sempre o colocou à frente de ações
de impacto, especialmente invasões de áreas. É
destemido e já correu risco de morte mais de uma vez. Seu
grupo envolveu-se num tiroteio e, certa vez, um fazendeiro abriu
fogo contra o carro em que Rainha estava. Foi acusado, julgado e
absolvido num processo por assassinato. Acabou preso por porte de
arma. Levava no carro uma escopeta, arma de alto impacto que é
de uso privativo das Forças Armadas. Em Teodoro Sampaio,
no oeste de São Paulo, foi processado por vandalismo e formação
de quadrilha, junto com outros quinze integrantes do MST, por causa
de invasão e depredação de prédio público.
O desapego de Rainha por cargos no MST e seu envolvimento em ações
audaciosas deram a ele certa aura heróica no movimento dos
sem-terra. Militante profissional, nunca trabalhou no campo. Suas
mãos continuam sem calos e as unhas estão sempre limpas.
Vive com a mulher e os dois filhos em uma casa em Teodoro Sampaio.
O lote de terra que recebeu do governo no assentamento Che Guevara
é ocupado pelo irmão Bertoldo e pelo sobrinho Bertoni.
Houve um tempo em que Rainha dizia aos companheiros no MST que ele
seria o equivalente ao que foi Guevara na Revolução
Cubana, cabendo a Stedile o papel mais severo e distante de Fidel
Castro.
Andre Penner
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O
RETORNO DA UDR
Associação dos fazendeiros se diz favorável
a uma reforma agrária que gere eficiência e acabe
com a favelização do campo |
Hoje
em dia, ninguém discute a necessidade de uma reforma agrária
no Brasil. Todos estão de acordo. Mesmo a União Democrática
Ruralista (UDR), entidade de fazendeiros que ficou célebre
na segunda metade dos anos 80 por sua disposição beligerante
no campo, diz-se a favor de uma reforma agrária que produza
resultados para os assentados e não funcione apenas como
bucha de canhão para os líderes do MST. Não
se podem admitir, no entanto, as invasões e depredações
da propriedade privada, como fazem muitas vezes os membros do MST,
em flagrante desrespeito às leis. Como trabalham em prol
de multidões de pobres, os líderes desses movimentos
parecem acreditar que estão acima da lei. Qualquer solução
duradoura para a questão agrária brasileira começa
por manter as ações do MST dentro dos limites da legalidade.
Rainha
prefere ignorar os dados. Embora seus resultados econômicos
tenham sido desastrosos em boa parte do país, a verdade é
que a reforma agrária feita por Fernando Henrique Cardoso
em seus oito anos de administração foi o mais ambicioso
plano de distribuição de terra já tentado por
um governo democrático. O governo FHC retalhou 18 milhões
de hectares, uma área maior que o Uruguai, e neles assentou
525.000 famílias. Quase 2 milhões
de brasileiros receberam terras do governo entre 1995 e 2002. A
maior parte dos assentados, mostram estudos recentes, não
prosperou por falta de crédito, recursos técnicos
para cultivar o solo de maneira produtiva e também por total
ausência de vocação para o trabalho e a vida
no campo.
Epitacio Pessoa/AE
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A
INSEGURANÇA NAS FAZENDAS
Fazendeiro armado no Pontal: a tática agora é
usar familiares e empregados na defesa das fazendas e não
mais contratar pistoleiros para fazer as patrulhas |
Para
Rainha, essas discussões são acessórias. Ele
enxerga o campo como um atalho para transformações
bem mais profundas na sociedade brasileira do que a criação
de uma classe média rural, moderna e democrática.
Sua pregação nada tem da visão de um técnico
em produtividade rural. Algumas manifestações práticas
disso:
"Vamos construir o socialismo do nosso jeito"
"O capitalismo é desumano porque onde existe o lucro prolifera
a injustiça"
"O Estado deve estar a serviço da classe que produz e trabalha
numa sociedade em que não haja espaço para o surgimento
de explorados nem de exploradores"
J. F. Diorio/AE
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A
REAÇÃO AO MASSACRE
Militantes com espingardas em Eldorado dos Carajás, onde
os sem-terra foram massacrados em 1996 |
O tipo
de gente que Rainha atrai com sua pregação populista
e messiânica é bem diferente daquela massa de manobra
com que a esquerda tradicional sonha em trabalhar. Os seguidores
de Rainha não são tipos que parecem dispostos a suportar
a disciplina exigida na "criação do novo homem" das
utopias socialistas. O acampamento de Rainha, sua Canudos virtual,
é povoado por miseráveis urbanos, mas também
atrai aproveitadores de todos os tipos. Em boa parte, os barracos
são ocupados apenas durante o dia. À noite, como ninguém
é de ferro, os acampados de Rainha vão para sua casa
ou para a de parentes na cidade, a fim de jantar e dormir com um
pouco mais de conforto.
Para
colocar o nome na lista dos sem-terra, os candidatos precisam apenas
montar e cobrir o barraco. Se o movimento acenasse com a possibilidade
de ganhar uma bicicleta, moto ou aparelhos de TV em vez de um pedaço
de terra, estaria arregimentando gente com o mesmo tipo de sucesso.
Muitos vão embora ao cabo de alguns dias e abandonam os barracos.
Os que ficam são os mais miseráveis, atraídos
pelas cestas básicas enviadas pelo governo. Mas a fila dos
candidatos a ganhar um lote de terra tende a crescer depressa no
Pontal. No fim de maio, o número de barracos totalizava 160.
No primeiro fim de semana de junho, já eram 400. Na semana
passada, os dois lados da estrada estavam cobertos por cerca de
1.000 casebres. Nesta época do ano, as
oportunidades de trabalho no Pontal diminuem em função
do período de seca. Por essa razão, Rainha e seus
liderados têm até julho para percorrer as áreas
pobres da região e arregimentar mais gente. Aí então
ele terá seu megaacampamento. O que fará com ele,
não se sabe. Os adversários de Rainha dizem que, no
fundo, seu objetivo é bem menos pomposo do que parece. Metido
em uma luta de poder com Gilmar Mauro e João Pedro Stedile,
da cúpula do MST, ele estaria simplesmente visando tornar-se
o interlocutor mais importante do governo do PT no Movimento dos
Sem-Terra.
Roberto Castro/AE
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O
DEBOCHE À REPÚBLICA
No ano passado, os sem-terra invadiram a fazenda dos filhos
de FHC em Buritis, Minas Gerais |
O
movimento de José Rainha é um anacronismo sob qualquer
ponto de vista pelo qual seja observado. Experiências revolucionárias
no campo no mundo moderno não produzem explosões como
no tempo de Guevara e Fidel Castro. Produzem apenas mais atraso.
O campo brasileiro enveredou por outro rumo. Hoje, domina os negócios
agrários movidos a alta tecnologia, capital intensivo e baixo
uso de mão-de-obra. O setor rural produz sozinho um superávit
anual na balança de exportações de mais de
20 bilhões de dólares. Se essa fosse a única
atividade econômica brasileira, o país teria um superávit
no comércio exterior entre os dez maiores do mundo. Essa
é uma das razões pelas quais a população
do campo está minguando no Brasil. O agronegócio usa
pouca mão-de-obra. Mais de 80% dos brasileiros vivem hoje
em cidades. As projeções indicam que dentro de cinco
anos a população urbana nacional ultrapassará
85%.
A
utopia pastoril de Rainha engasga em outros fundamentos. Um estudo
sobre dezenas de experiências de distribuição
de terra no mundo, de autoria do americano Tony Smith, professor
de ciência política da Universidade Tufts, encontrou
quatro pontos de coincidência em planos de reforma agrária
que deram certo. Em primeiro lugar, além da terra, é
preciso que existam crédito e capacitação tecnológica.
Em segundo, o governo tem de garantir acesso dos produtos dos assentados
aos mercados internacionais. O terceiro componente do sucesso é
incentivar a criação de empregos não-rurais
nas regiões dos assentamentos, pois, no médio prazo,
a tecnologia vai desocupar muita gente no campo. Em quarto lugar,
Smith aponta a necessidade de encontrar maneiras de contrabalançar
os subsídios que os países ricos oferecem a seus agricultores,
de modo a dar competitividade aos produtos dos assentados. O MST
não aprovaria essa receita.
Beto Figueiroa/AE
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OS
DONOS DA LEI
Em maio, membros do MST invadiram o Engenho Prado, em Pernambuco,
e colocaram fogo nas casas e máquinas |
A
discussão sobre os resultados da distribuição
de lotes de terra no Brasil ganhou um reforço com a recente
publicação do livro A Qualidade dos Assentamentos
da Reforma Agrária Brasileira. Encomendado pelo governo
FHC, o estudo contou com mais de 14.000 entrevistas
realizadas entre julho e setembro do ano passado em 4.340
assentamentos de todas as regiões do Brasil. No estudo, a
ênfase dada ao volume dos assentamentos em detrimento da qualidade
fica clara. Apenas uma de cada quatro famílias tem acesso
ao ensino médio. Mais da metade não dispõe
de eletricidade. Apesar disso, os assentamentos realizados entre
1985 e 2001 foram um sucesso do ponto de vista da adesão.
O porcentual de lotes ocupados de forma regular (pelos próprios
donos) ou irregular (por terceiros) é de 96%. "O MST é
muito organizado para lutar pelo acesso à terra, mas não
tem o mesmo ímpeto na hora de viabilizar o empreendimento",
diz Gerd Sparovek, professor da Universidade de São Paulo
(USP) e coordenador da pesquisa. Do total de assentados entre 1995
e 2001, 60% fazem parte de associações montadas para
reivindicar lotes, crédito e ajuda do governo. Por outro
lado, apenas 5% são de cooperativas e míseros 3% têm
parcerias com agroindústrias. Chegou a hora de fazer uma
reforma no MST.
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