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VIDA
BRASILEIRA
O
shopping da selva
Barcos
que vendem de tudo movem
os preços, o tráfico e o sonho de
enriquecer na Amazônia

Leonardo
Coutinho, de Chaves
Leonide Principe
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| Carregamento
de barcos em porto amazônico: 6 milhões de consumidores
no meio da floresta |
Não
existe rio na Amazônia que não seja singrado pelos
regatões. Assim são chamados os barcos dos mascates
fluviais que garantem a maior parte do consumo de bens industrializados
num mercado de 6 milhões de pessoas. Calcula-se que haja
mais de 10.000 regatões espalhados
pela região. Numa terra onde só se consegue morar
à beira dos rios e lagos, eles partem carregados das cidades
maiores e vão se embrenhando na floresta, passando em cada
casa de caboclo, em cada birosca, em cada aldeia de índios.
Oferecem latarias, utensílios, mantimentos, pilhas e sabonetes.
E recebem nas moedas de que se dispõe na mata: artesanato,
carne de jacaré, peixe, frutas, madeira e peixes ornamentais.
De vez em quando, também em reais. No fim de uma viagem de
quinze dias, uma carga que custou 30.000
reais rende 7.000 de lucro para o dono
do barco, depois de pagos os dois ajudantes, o cozinheiro e o óleo
diesel. No meio da selva, uma bacia de plástico custa 30
reais, 1 quilo de café, 8 reais e um botijão de gás,
40 reais. "A gente sabe que eles cobram até três vezes
o preço normal, mas é mais barato comprar do regatão
do que viajar dois dias até a cidade", diz Jair Alves, que
mora com os filhos e a mulher numa palafita no igarapé Mapatá,
município de Chaves, a 72 horas de viagem da capital do Pará.
O
folclorista Luís da Câmara Cascudo definiu o regatão,
no seu Dicionário do Folclore Brasileiro: "Traficante
do extremo norte, vendendo tudo numa barca que é casa, armazém
e escritório, subindo e descendo rios do Pará e Amazonas,
com maior ou menor escrúpulo". Segundo o pesquisador David
McGrath, da Universidade Federal do Pará e do Instituto de
Pesquisa Ambiental da Amazônia, os regatões, embora
de fato pratiquem preços altos desde que surgiram na Amazônia,
há mais de 400 anos, não se comparam com os armazéns
de fazenda, que chegam a escravizar trabalhadores endividados. Na
verdade, muitos até vendem produtos para esses armazéns.
Uma característica dos regatões é a absoluta
informalidade das operações de crédito. Quando
sobem um rio, por exemplo, vão fazendo fiado em muitos dos
negócios. Na descida, depois que o dono da bodega teve tempo
de passar adiante parte dos produtos, recebem o pagamento. Daí
o ditado popular entre os vendeiros: "Na subida chegou patrão,
na descida chegou ladrão". Os mais velozes regatões
não fazem mais que cinco viagens por ano.
Janduari Simões
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| O
regatão entrega sua mercadoria: clientela de ribeirinhos
paga até o triplo do preço |
O
modelo "um pouco de tudo" dos regatões se reproduz nos outros
tipo de comércio das cidades amazônicas. Em Afuá,
uma cidade construída sobre palafitas e passarelas (veja
quadro), o ex-garimpeiro Moisaniel Ferreira de Castilho,
de 41 anos, tornou-se um próspero comerciante replicando
a fórmula em seu armazém e numa loja de ferragens.
Todas as mercadorias que vende, e que lhe proporcionam um faturamento
de 50.000 reais por mês, chegam
de barco. Mas não pelos regatões naturalmente
por causa dos preços. "Prefiro comprar de representantes
comerciais", diz Moisaniel, cuja loja é uma espécie
de hipermercado sobre palafitas.
Para
os ambulantes sobre as águas, algumas temporadas são
melhores que outras. Na safra do açaí, por exemplo,
ao lado dos botijões de gás, dos pentes e espelhos,
vão também televisores, geladeiras e antenas parabólicas
encomendadas pelas famílias que ganharam mais dinheiro. "Os
ribeirinhos também gostam de novidade", conta o dono de regatão
Roberto Figueiredo. "Por isso sempre levamos alguma coisa diferente."
É assim que chegam ao coração da mata camisas
feitas na Indonésia e calculadoras da China. Os porões
de muitos desses barcos também carregam mercadorias ilegais.
Animais silvestres e até cocaína melhoram a receita
de muitos dos barqueiros, disse a VEJA o gerente de um dos portos
particulares em que são carregados alguns dos regatões.
A droga é recebida em Tabatinga, na fronteira com a Colômbia,
e também ao longo do Rio Purus, que vem do Peru. No caminho,
a carga é repassada a barcos pesqueiros que a levam para
o Suriname.
Janduari Simões
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| O
comerciante Moisaniel: um hiper-regatão sobre palafitas
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Tecnologicamente,
os regatões têm a estrutura dos barcos que cruzavam
a Amazônia quatro séculos atrás mas com
motor. Muitos não têm bússola e seus pilotos
se orientam pelas estrelas e pela silhueta da floresta. Não
é raro que se percam, encalhem ou afundem. Boa parte também
não tem rádio e muitos evitam viajar à noite,
por falta de luzes ou lanternas de segurança. Seu pior inimigo
são as pororocas as ondas violentas da maré
alta no oceano que podem avançar mais de 40 quilômetros
mata adentro. "Nas duas vezes em que enfrentei a pororoca eu pensei
que fosse morrer", diz o ex-dono de regatão José Acrísio
Figueiredo, hoje proprietário de imóveis em Belém.
Há uma inspiração para que enfrentem tantos
riscos. Ela vem da família Rodrigues, dona do Grupo Líder,
que fatura 420 milhões de reais por ano, com 4.485
empregados em lojas de departamentos, uma fazenda e um shopping
center. Foi em 1943 que Jerônimo Marques Rodrigues, o patriarca,
começou a regatear, sozinho, pelos rios amazônicos.
Onde
ninguém tem terra
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| Rua
de Afuá: nada de veículos a motor
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Paquetá,
a ilha sem carros do Rio de Janeiro, não está
sozinha. No lado paraense da foz do Rio Amazonas há
outra localidade sem automóveis. Também
sem motos e até mesmo sem terra, já que
Afuá foi toda erguida sobre uma várzea
inundada na maior parte do ano. Casas e caminhos foram
construídos sobre estacas, a pouco mais de 1
metro do chão. Há mais de 12 quilômetros
de passarelas de madeira ou concreto. Diante da falta
de automóveis, os habitantes de Afuá desenvolveram
um veículo montado pela união, em paralelo,
de duas bicicletas. Os mais equipados têm capota,
faróis, lanternas, retrovisores e bancos estofados.
O carrão de Afuá é o do comerciante
Moisaniel Ferreira de Castilho, que tem pintura metálica,
CD-player com controle remoto e amplificador com 500
watts de potência. Na maré alta, alaga-se
a pista de pouso local, numa área aterrada. Os
aviões não podem pousar. O cemitério
também alaga, mas os sepultamentos continuam.
"Tem gente aqui que morre duas vezes", diz o empresário
local Agnaldo da Silva. "A segunda morte é por
afogamento."
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