Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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VIDA BRASILEIRA
O shopping da selva

Barcos que vendem de tudo movem
os preços, o tráfico e o sonho de
enriquecer na Amazônia


Leonardo Coutinho, de Chaves


Leonide Principe
Carregamento de barcos em porto amazônico: 6 milhões de consumidores no meio da floresta

Não existe rio na Amazônia que não seja singrado pelos regatões. Assim são chamados os barcos dos mascates fluviais que garantem a maior parte do consumo de bens industrializados num mercado de 6 milhões de pessoas. Calcula-se que haja mais de 10.000 regatões espalhados pela região. Numa terra onde só se consegue morar à beira dos rios e lagos, eles partem carregados das cidades maiores e vão se embrenhando na floresta, passando em cada casa de caboclo, em cada birosca, em cada aldeia de índios. Oferecem latarias, utensílios, mantimentos, pilhas e sabonetes. E recebem nas moedas de que se dispõe na mata: artesanato, carne de jacaré, peixe, frutas, madeira e peixes ornamentais. De vez em quando, também em reais. No fim de uma viagem de quinze dias, uma carga que custou 30.000 reais rende 7.000 de lucro para o dono do barco, depois de pagos os dois ajudantes, o cozinheiro e o óleo diesel. No meio da selva, uma bacia de plástico custa 30 reais, 1 quilo de café, 8 reais e um botijão de gás, 40 reais. "A gente sabe que eles cobram até três vezes o preço normal, mas é mais barato comprar do regatão do que viajar dois dias até a cidade", diz Jair Alves, que mora com os filhos e a mulher numa palafita no igarapé Mapatá, município de Chaves, a 72 horas de viagem da capital do Pará.

O folclorista Luís da Câmara Cascudo definiu o regatão, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro: "Traficante do extremo norte, vendendo tudo numa barca que é casa, armazém e escritório, subindo e descendo rios do Pará e Amazonas, com maior ou menor escrúpulo". Segundo o pesquisador David McGrath, da Universidade Federal do Pará e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, os regatões, embora de fato pratiquem preços altos desde que surgiram na Amazônia, há mais de 400 anos, não se comparam com os armazéns de fazenda, que chegam a escravizar trabalhadores endividados. Na verdade, muitos até vendem produtos para esses armazéns. Uma característica dos regatões é a absoluta informalidade das operações de crédito. Quando sobem um rio, por exemplo, vão fazendo fiado em muitos dos negócios. Na descida, depois que o dono da bodega teve tempo de passar adiante parte dos produtos, recebem o pagamento. Daí o ditado popular entre os vendeiros: "Na subida chegou patrão, na descida chegou ladrão". Os mais velozes regatões não fazem mais que cinco viagens por ano.


Janduari Simões
O regatão entrega sua mercadoria: clientela de ribeirinhos paga até o triplo do preço

O modelo "um pouco de tudo" dos regatões se reproduz nos outros tipo de comércio das cidades amazônicas. Em Afuá, uma cidade construída sobre palafitas e passarelas (veja quadro), o ex-garimpeiro Moisaniel Ferreira de Castilho, de 41 anos, tornou-se um próspero comerciante replicando a fórmula em seu armazém e numa loja de ferragens. Todas as mercadorias que vende, e que lhe proporcionam um faturamento de 50.000 reais por mês, chegam de barco. Mas não pelos regatões – naturalmente por causa dos preços. "Prefiro comprar de representantes comerciais", diz Moisaniel, cuja loja é uma espécie de hipermercado sobre palafitas.

Para os ambulantes sobre as águas, algumas temporadas são melhores que outras. Na safra do açaí, por exemplo, ao lado dos botijões de gás, dos pentes e espelhos, vão também televisores, geladeiras e antenas parabólicas encomendadas pelas famílias que ganharam mais dinheiro. "Os ribeirinhos também gostam de novidade", conta o dono de regatão Roberto Figueiredo. "Por isso sempre levamos alguma coisa diferente." É assim que chegam ao coração da mata camisas feitas na Indonésia e calculadoras da China. Os porões de muitos desses barcos também carregam mercadorias ilegais. Animais silvestres e até cocaína melhoram a receita de muitos dos barqueiros, disse a VEJA o gerente de um dos portos particulares em que são carregados alguns dos regatões. A droga é recebida em Tabatinga, na fronteira com a Colômbia, e também ao longo do Rio Purus, que vem do Peru. No caminho, a carga é repassada a barcos pesqueiros que a levam para o Suriname.


Janduari Simões
O comerciante Moisaniel: um hiper-regatão sobre palafitas

Tecnologicamente, os regatões têm a estrutura dos barcos que cruzavam a Amazônia quatro séculos atrás – mas com motor. Muitos não têm bússola e seus pilotos se orientam pelas estrelas e pela silhueta da floresta. Não é raro que se percam, encalhem ou afundem. Boa parte também não tem rádio e muitos evitam viajar à noite, por falta de luzes ou lanternas de segurança. Seu pior inimigo são as pororocas – as ondas violentas da maré alta no oceano que podem avançar mais de 40 quilômetros mata adentro. "Nas duas vezes em que enfrentei a pororoca eu pensei que fosse morrer", diz o ex-dono de regatão José Acrísio Figueiredo, hoje proprietário de imóveis em Belém. Há uma inspiração para que enfrentem tantos riscos. Ela vem da família Rodrigues, dona do Grupo Líder, que fatura 420 milhões de reais por ano, com 4.485 empregados em lojas de departamentos, uma fazenda e um shopping center. Foi em 1943 que Jerônimo Marques Rodrigues, o patriarca, começou a regatear, sozinho, pelos rios amazônicos.

 
Onde ninguém tem terra


Rua de Afuá: nada de veículos a motor

Paquetá, a ilha sem carros do Rio de Janeiro, não está sozinha. No lado paraense da foz do Rio Amazonas há outra localidade sem automóveis. Também sem motos e até mesmo sem terra, já que Afuá foi toda erguida sobre uma várzea inundada na maior parte do ano. Casas e caminhos foram construídos sobre estacas, a pouco mais de 1 metro do chão. Há mais de 12 quilômetros de passarelas de madeira ou concreto. Diante da falta de automóveis, os habitantes de Afuá desenvolveram um veículo montado pela união, em paralelo, de duas bicicletas. Os mais equipados têm capota, faróis, lanternas, retrovisores e bancos estofados. O carrão de Afuá é o do comerciante Moisaniel Ferreira de Castilho, que tem pintura metálica, CD-player com controle remoto e amplificador com 500 watts de potência. Na maré alta, alaga-se a pista de pouso local, numa área aterrada. Os aviões não podem pousar. O cemitério também alaga, mas os sepultamentos continuam. "Tem gente aqui que morre duas vezes", diz o empresário local Agnaldo da Silva. "A segunda morte é por afogamento."

 

 
 
 
 
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