Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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ORIENTE MÉDIO
De volta à matança

Apenas quatro dias depois do solene início
de um novo processo de paz, israelenses e
palestinos mergulham em sangrento ciclo
de violência e vinganças olho por olho



Fotos AFP
Desespero após atentado palestino em Jerusalém (acima) e palestino carbonizado em Gaza por míssil israelense: paz distante


Em Profundidade: a questão palestina

Israelenses e palestinos mergulharam outra vez no banho de sangue a que o processo de paz prometia pôr fim apenas quatro dias depois do solene aperto de mãos entre os primeiros-ministros Ariel Sharon, de Israel, e Mahmoud Abbas, da Palestina. O que estilhaçou o "mapa do caminho" – como é chamado o projeto de entendimento patrocinado pelo presidente americano George W. Bush –, antes que pudesse sair do papel, foi a lógica do olho por olho. No domingo 8, um ataque terrorista palestino matou quatro soldados israelenses. Na terça-feira, Israel tentou assassinar com uma saraivada de mísseis Abdel Aziz al-Rantisi, líder político do Hamas, grupo islâmico responsável pelo atentado do domingo. Rantisi escapou com ferimentos leves, mas outras pessoas morreram. A retaliação inevitável veio no dia seguinte, com a explosão de um homem-bomba num ônibus em Jerusalém, que matou dezessete pessoas. Na sexta-feira, a região tinha sido engolfada numa "guerra total", declarada por ambos os lados. Como isso pôde ocorrer em tão pouco tempo?

Por trás da troca de acusações sobre quem deu o primeiro tiro, fica evidente a total ausência de confiança entre os dois lados. O "mapa do caminho" só foi aceito por empenho pessoal do presidente americano – a única força política com cacife para obrigar israelenses e palestinos a sentar sob o mesmo teto para conversar. Se havia alguma certeza no momento em que Sharon e Abbas apertaram as mãos, era que os inimigos internos dos dois lados fariam de tudo para sabotar o processo. O atentado em Gaza, cometido pelos grupos terroristas contrários à negociação com Israel, expôs a fragilidade de Abbas e a incapacidade de Sharon de escapar à política do olho por olho que marca sua biografia de general turrão. Rantisi estava na lista negra dos terroristas mais procurados por Israel, mas o momento de caçá-lo não tinha como ser mais inoportuno. O ataque pode ter sido uma tentativa de Sharon de aplacar a ira da direita israelense – irritada com a retirada, na véspera, de minúsculas colônias judaicas da Cisjordânia, prevista no acordo de paz.

As limitações do primeiro-ministro palestino já eram conhecidas. Abbas foi incluído nas negociações de paz por imposição de Sharon e Bush, que vetaram a participação do líder palestino Yasser Arafat no processo. Arafat, por sua vez, fez o jogo duplo – apoiando Abbas em público, mas minando seu poder nos bastidores. Ao invés do confronto, o primeiro-ministro palestino apostava num cessar-fogo com os grupos terroristas para dar conta de sua parte no "mapa do caminho". Foi aí que o plano sucumbiu diante da primeira prova de fogo. Em tese, o processo de paz tinha boas chances de dar certo. Previa um rígido cronograma de dois anos, período no qual as duas partes se comprometiam a cumprir uma série de deveres. A Israel caberia libertar os presos palestinos, retirar seus soldados dos territórios ocupados e desmantelar os assentamentos ilegais da Cisjordânia e de Gaza. Os palestinos deveriam conter os grupos terroristas e dar início ao processo de democratização interna num Estado provisório. Somente na última fase, com a expectativa do surgimento de um clima de confiança mútua, os grandes temas seriam colocados na mesa de negociações – o status de Jerusalém, a questão do retorno dos refugiados palestinos, a retirada das colônias judaicas dos territórios e, claro, as fronteiras definitivas do Estado palestino.

Bush, que criticou ambos os lados, deve agora tentar arrastar palestinos e israelenses de volta às negociações. A dúvida natural é se algum dia será possível um acordo no Oriente Médio. Secretário de Estado nos anos 70, Henry Kissinger sempre sustentou que não. Seu argumento é que não há convergência possível entre as demandas mínimas dos palestinos e o máximo que os israelenses aceitariam. Um exemplo dessa incompatibilidade de aspirações é a exigência palestina de retorno de milhões de refugiados árabes para o que hoje é território israelense. Tal migração é inaceitável para os judeus, porque destruiria a identidade judaica do Estado de Israel. O jornal israelense Haaretz escreveu que Sharon, amigo pessoal de Kissinger, concorda que qualquer tentativa de chegar ao fim do grandioso conflito está condenada ao fracasso. Por isso, o primeiro-ministro israelense fala sempre em acordo provisório, que permita a convivência mais ou menos pacífica entre os dois povos, que lutam por dividir um território do tamanho de Sergipe. Por enquanto, nem isso se tem.

 
 
 
 
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