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ORIENTE
MÉDIO
De
volta à
matança
Apenas
quatro dias depois do solene início
de um novo processo de paz, israelenses e
palestinos mergulham em sangrento ciclo
de violência e vinganças olho por olho
Fotos AFP
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| Desespero
após atentado palestino em Jerusalém (acima)
e palestino carbonizado em Gaza por míssil israelense:
paz distante |
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Israelenses
e palestinos mergulharam outra vez no banho de sangue a que o processo
de paz prometia pôr fim apenas quatro dias depois do solene
aperto de mãos entre os primeiros-ministros Ariel Sharon,
de Israel, e Mahmoud Abbas, da Palestina. O que estilhaçou
o "mapa do caminho" como é chamado o projeto de entendimento
patrocinado pelo presidente americano George W. Bush , antes
que pudesse sair do papel, foi a lógica do olho por olho.
No domingo 8, um ataque terrorista palestino matou quatro soldados
israelenses. Na terça-feira, Israel tentou assassinar com
uma saraivada de mísseis Abdel Aziz al-Rantisi, líder
político do Hamas, grupo islâmico responsável
pelo atentado do domingo. Rantisi escapou com ferimentos leves,
mas outras pessoas morreram. A retaliação inevitável
veio no dia seguinte, com a explosão de um homem-bomba num
ônibus em Jerusalém, que matou dezessete pessoas. Na
sexta-feira, a região tinha sido engolfada numa "guerra total",
declarada por ambos os lados. Como isso pôde ocorrer em tão
pouco tempo?
Por
trás da troca de acusações sobre quem deu o
primeiro tiro, fica evidente a total ausência de confiança
entre os dois lados. O "mapa do caminho" só foi aceito por
empenho pessoal do presidente americano a única força
política com cacife para obrigar israelenses e palestinos
a sentar sob o mesmo teto para conversar. Se havia alguma certeza
no momento em que Sharon e Abbas apertaram as mãos, era que
os inimigos internos dos dois lados fariam de tudo para sabotar
o processo. O atentado em Gaza, cometido pelos grupos terroristas
contrários à negociação com Israel,
expôs a fragilidade de Abbas e a incapacidade de Sharon de
escapar à política do olho por olho que marca sua
biografia de general turrão. Rantisi estava na lista negra
dos terroristas mais procurados por Israel, mas o momento de caçá-lo
não tinha como ser mais inoportuno. O ataque pode ter sido
uma tentativa de Sharon de aplacar a ira da direita israelense
irritada com a retirada, na véspera, de minúsculas
colônias judaicas da Cisjordânia, prevista no acordo
de paz.
As
limitações do primeiro-ministro palestino já
eram conhecidas. Abbas foi incluído nas negociações
de paz por imposição de Sharon e Bush, que vetaram
a participação do líder palestino Yasser Arafat
no processo. Arafat, por sua vez, fez o jogo duplo apoiando
Abbas em público, mas minando seu poder nos bastidores. Ao
invés do confronto, o primeiro-ministro palestino apostava
num cessar-fogo com os grupos terroristas para dar conta de sua
parte no "mapa do caminho". Foi aí que o plano sucumbiu diante
da primeira prova de fogo. Em tese, o processo de paz tinha boas
chances de dar certo. Previa um rígido cronograma de dois
anos, período no qual as duas partes se comprometiam a cumprir
uma série de deveres. A Israel caberia libertar os presos
palestinos, retirar seus soldados dos territórios ocupados
e desmantelar os assentamentos ilegais da Cisjordânia e de
Gaza. Os palestinos deveriam conter os grupos terroristas e dar
início ao processo de democratização interna
num Estado provisório. Somente na última fase, com
a expectativa do surgimento de um clima de confiança mútua,
os grandes temas seriam colocados na mesa de negociações
o status de Jerusalém, a questão do retorno
dos refugiados palestinos, a retirada das colônias judaicas
dos territórios e, claro, as fronteiras definitivas do Estado
palestino.
Bush,
que criticou ambos os lados, deve agora tentar arrastar palestinos
e israelenses de volta às negociações. A dúvida
natural é se algum dia será possível um acordo
no Oriente Médio. Secretário de Estado nos anos 70,
Henry Kissinger sempre sustentou que não. Seu argumento é
que não há convergência possível entre
as demandas mínimas dos palestinos e o máximo que
os israelenses aceitariam. Um exemplo dessa incompatibilidade de
aspirações é a exigência palestina de
retorno de milhões de refugiados árabes para o que
hoje é território israelense. Tal migração
é inaceitável para os judeus, porque destruiria a
identidade judaica do Estado de Israel. O jornal israelense Haaretz
escreveu que Sharon, amigo pessoal de Kissinger, concorda que qualquer
tentativa de chegar ao fim do grandioso conflito está condenada
ao fracasso. Por isso, o primeiro-ministro israelense fala sempre
em acordo provisório, que permita a convivência mais
ou menos pacífica entre os dois povos, que lutam por dividir
um território do tamanho de Sergipe. Por enquanto, nem isso
se tem.
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