Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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PREVIDÊNCIA

Não, não e não

Bancada evangélica descobre que pode
ser esmagada com a reforma política e,
com fervor religioso, luta para sobreviver


Maurício Lima

Em profundidade: Reforma da Previdência

Na semana passada, a comissão de parlamentares que estuda a reforma política, destinada a colocar alguma ordem no caótico universo partidário do país, teve de adiar seus planos. A comissão, com 38 membros, pretendia votar um princípio central da reforma: ampliar, de um para dois anos, o período em que um parlamentar é obrigado a estar filiado ao partido pelo qual pretende concorrer na eleição seguinte. A decisão acabou adiada devido ao esforço militante de uma bancada aguerrida e, é claro, multipartidária. Trata-se da bancada dos evangélicos, que reúne 57 parlamentares, distribuídos em seis legendas diferentes. Os evangélicos, até agora, têm sido o principal obstáculo ao avanço da reforma partidária. Eles perceberam que a reforma pode feri-los de morte, já que deve diminuir o ímpeto do troca-troca de partidos e evitar o clientelismo – dois pecados dos quais os evangélicos são praticantes contumazes. O líder da bancada é o Bispo Rodrigues (PL-RJ), para quem fidelidade partidária é como casamento. "Se até os casados descumprem o sagrado compromisso do matrimônio, por que os políticos têm de cumprir o matrimônio com o partido?", diz.

Na realidade, a bancada está preocupada com seu futuro. Além de ampliar o prazo de fidelidade partidária, a reforma pretende criar o instituto da chamada "lista fechada". Ou seja: o eleitor passa a votar na legenda, e não mais no candidato a vereador ou a deputado estadual ou federal. E cabe ao partido distribuir os votos que recebe aos candidatos da lista. Assim, caso o partido só tenha votos para eleger um único candidato, o eleito será o primeiro nome da lista. Se a legenda tem votos para eleger cinco, os beneficiados serão os cinco primeiros da lista, e assim por diante. Juntando a fidelidade partidária à lista fechada, cria-se um quadro adverso aos evangélicos – a valorização do partido em detrimento do candidato. De eleição em eleição, a bancada dos evangélicos vem aumentando sua presença no Congresso Nacional. Na legislatura passada, eram pouco mais de 45 deputados, e nenhum senador. Agora, são 55 deputados e dois senadores, Marcelo Crivella e Magno Malta. O crescimento se dá por cima dos muros que separam os partidos.

A atuação dos evangélicos tem sido sempre suprapartidária. Hoje seus 57 parlamentares estão concentrados em duas legendas, o PL e o PTB, mas há filiados distribuídos pelo PMDB, PSDB, PFL e PP. A cada eleição, a cúpula dos evangélicos se debruça sobre o mapa eleitoral do país, estuda as regiões em que eles têm mais chances de sucesso e despacha um candidato para aquele colégio eleitoral – onde o candidato se filiará ao partido que estiver disponível. O deputado Philemon Rodrigues, por exemplo, ganhou três mandatos em Minas Gerais. Na eleição passada, entregou legenda e domicílio eleitoral a um colega, o deputado João Paulo Silva, e candidatou-se pelo PTB da Paraíba. Os dois foram eleitos. Com a fidelidade partidária ampliada para dois anos, esse jogo fica mais difícil. Com a lista fechada, pior ainda. Afinal, que partido dará ao evangélico recém-chegado à legenda o primeiro lugar na lista fechada?

Desde que o Palácio do Planalto e os líderes partidários concordaram com uma proposta mínima de reforma política, três semanas atrás, a bancada evangélica passou a militar com fervor religioso. Num primeiro movimento, os evangélicos se empenharam em ocupar o maior número de cadeiras na comissão que estuda o assunto no Congresso. Dos 38 membros da comissão, emplacaram oito – quatro filiados ao PL, dois ao PMDB e dois ao PTB. Na rotina de trabalho, eles têm uma tática clara: jogar toda e qualquer decisão para as calendas gregas, manobra em que o deputado Lincoln Portela (PL-MG) é craque. Para tanto, vivem pedindo vista aos projetos e apartes aos colegas e sempre se inscrevem para falar. Na semana passada, conseguiram adiar a votação sobre a fidelidade partidária. Em outra tática protelatória, estão agora pedindo que, antes de o assunto ser votado, a comissão ouça a opinião dos presidentes de todos os partidos do país. São 27 legendas. Se a exigência for aceita, a comissão terá reuniões exatamente como deseja a bancada evangélica: inconclusivas e intermináveis.

 

Segura na mão de Deus

Os evangélicos ignoram partidos, mas são muito disciplinados na hora de obedecer às suas igrejas

 
Ana Araújo
Orlando Brito
Bispo Rodrigues: cérebro por trás da bancada evangélica Philemon: pela igreja, trocou de partido e de Estado

 

 
 
 
 
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