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PREVIDÊNCIA
A marcha do privilégio
Os
servidores são minoria, custam caro,
escoram-se em privilégios e, argutamente,
ainda passam a impressão de que são vítimas

Malu
Gaspar
Fotos Joedson Alves/AE
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PROTESTO
PARA LULA
O presidente, que até agora não mudou uma vírgula
na proposta de reforma: servidores ficam na ribalta, mas acham
que estão sendo tratados como vilões |
Na
semana passada, os servidores públicos desembarcaram em Brasília,
ocuparam o vasto gramado da Esplanada dos Ministérios e promoveram
um agitado protesto contra a reforma da Previdência Social.
Eles não querem reforma nenhuma, mas são especialmente
contra a taxação dos inativos, o teto de 2.400
reais para futuros aposentados e o aumento da idade mínima
para se aposentar. A manifestação não mudou
uma única vírgula no projeto de reforma previdenciária
que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso
Nacional, mas os servidores conseguiram seu objetivo fazer
barulho, chamar a atenção, produzir polêmica.
Ganharam amplo espaço nos jornais, apareceram na TV e ainda
acuaram uma constelação de estrelas petistas, assustadas
com as vaias de uma platéia que antes no tempo das
bravatas só lhes dirigia aplausos e vivas. Entre os
mais apupados, estavam as duas maiores autoridades petistas que
ousaram subir ao palanque e não chicotearam a reforma: o
deputado Nelson Pellegrino, líder da bancada do PT, e o sindicalista
Luiz Marinho, recém-eleito presidente da CUT, central historicamente
ligada ao petismo.
Com
tudo isso, com suas bandeiras e faixas, seus megafones e palavras
de ordem, os servidores deram uma aula de política. Afinal,
o ato da semana passada é a expressão do tremendo
barulho que é capaz de fazer uma categoria unida, organizada
e mobilizada ainda que sua bandeira seja inteiramente indefensável
fora dos limites da própria corporação. Por
estarem unidos, organizados e mobilizados, os servidores conseguem
chamar a atenção para uma reforma que, a rigor, não
mereceria um pingo de contestação. Os números
falam por si. No ano passado, o governo desembolsou 39 bilhões
de reais para pagar as aposentadorias e pensões de 3,2 milhões
de servidores. No mesmo período, o governo tirou do bolso
menos da metade, 17 bilhões de reais, para bancar as aposentadorias
e pensões de uma massa de 19 milhões de aposentados
da iniciativa privada. Ou seja: em média, o governo gastou
12.000 reais com cada servidor público,
e apenas 900 reais com cada trabalhador privado. Sob qualquer ponto
de vista, é justo que o dinheiro público que
é de todos os brasileiros seja distribuído
de forma tão grosseiramente desigual?
Dida Sampaio/AE
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A
PLATÉIA VAIOU A CUT
Marinho, novo presidente da CUT, leva proposta de reforma da
Previdência ao senador José Sarney: um sindicalista
sob apupos |
Numa
das faixas mais vistosas da manifestação da semana
passada, os servidores reclamavam que foram eleitos os vilões
da Previdência Social embora o próprio funcionalismo,
por meio de seus líderes e de suas manifestações
barulhentas, se coloque no centro do debate. No fundo, os servidores
têm razão em se empenhar para ocupar a ribalta, pois,
no universo previdenciário, constituem uma acachapante minoria.
Os números, de novo, falam por si. A taxação
dos inativos, ponto que vem merecendo os protestos mais acalorados,
atingirá 330.000 inativos do serviço
público federal e outros 600.000
aposentados e pensionistas nos Estados. Somando-se, constata-se
que a massa atingida chega perto de 1 milhão de pessoas.
É pouca gente, quando se considera que há 19 milhões
de aposentados e pensionistas do INSS que não serão
afetados pela taxação. É menos ainda quando
se levam em conta os 40 milhões de trabalhadores que hoje
não têm acesso aos benefícios previdenciários
uma imensa massa de excluídos que pode vir a ser favorecida
pelos resultados saneadores da reforma previdenciária.
Apesar
de minoria, e minoria cara, os servidores galvanizam a discussão
da reforma por sua notável capacidade de reunir privilegiados
em torno da exigência da manutenção de seus
privilégios. Agora mesmo, a nata sindical da categoria ganhou
uma adesão de peso o ministro Maurício Corrêa,
recém-empossado presidente do Supremo Tribunal Federal. No
afã de barrar a reforma previdenciária, contra a qual
já se manifestou publicamente, o ministro convocou, para
as 10 da manhã desta terça-feira, um encontro de todos
os presidentes de tribunais e associações de juízes
para definir uma posição comum sobre a reforma. A
categoria começou a responder de imediato. Na quinta-feira
passada, os ministros do Tribunal Superior do Trabalho, empolgados
com a idéia da militância, já se reuniram e
anunciaram a posição que seu presidente levará
ao encontro. Eles querem que os magistrados recebam o mesmo tratamento
dos militares ou seja, querem ser excluídos da reforma.
A
campanha dos servidores tem sido tão eficaz que muitas autoridades
estão com receio de atrair a ira popular ao declarar apoio
à reforma, ainda que se saiba, pelas pesquisas, que 66% da
população é a favor. O governo fez sua parte
ao elaborar a proposta e mandá-la ao Congresso, mas vem insistindo
em dizer que só pensou em taxar os inativos para ajudar as
finanças dos Estados. É uma forma de tentar transferir
o ônus da reforma aos governadores, que, na maioria, temendo
a impopularidade, estão discretamente recolhidos em seus
Estados. A realidade, porém, é outra. A taxação
dos inativos é a única medida que trará dinheiro
imediato aos cofres dos Estados e da União, pois as demais
mudanças só surtirão efeito a longo prazo.
Com a taxação dos inativos, a União recolherá,
no primeiro ano, pelo menos 1 bilhão de reais metade
de toda a economia que terá com a reforma. Somando-se os
ganhos de 24 Estados, VEJA constatou que os inativos lhes renderão,
também no primeiro ano, uma bolada de 1,3 bilhão de
reais. Ou seja: a reforma faz bem para todo mundo. Só não
faz bem para a minoria, que, com tanto barulho, até passa
a impressão de que, em vez de privilegiada, é vítima.
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