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DIOGO
MAINARDI
O
nosso Berlusconi
"Lula
é igual a Berlusconi. Pouco a pouco, os
italianos estão se desencantando com seu
primeiro-ministro. O populismo berlusconiano
começa a perder o fascínio dois anos depois
de conquistar o governo. Lula ainda chega lá"
Lula
é igual a Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro da Itália.
É o Berlusconi da esquerda. Berlusconi assumiu o poder dois
anos atrás com a promessa de reativar a economia italiana.
Como nesse período a economia italiana ficou estagnada, crescendo
ainda menos que a média européia, Berlusconi dobrou
a aposta e passou a prometer que em breve o governo dará
início a uma mítica fase dois. Lula adotou a linguagem
berlusconiana e também prometeu dar início à
fase dois. Essa fase dois, segundo o governo brasileiro, é
um ciclo de desenvolvimento que irá gerar um crescimento
de 4% do PIB. Berlusconi ganhou as eleições prometendo
crescimento de 4% do PIB.
Berlusconi,
como Lula, não gosta de ser interrogado pela imprensa. Prefere
discursar para platéias de adoradores, indo de um lado para
o outro do palco, com o microfone na mão, aplaudido pela
claque, como um animador de auditório. Berlusconi não
tem grande educação formal, mas seus escorregões
gramaticais servem para tirar a pompa e aumentar a identificação
do público. Em todas as ocasiões, Berlusconi conta
a fábula de sua ascensão social. De origem humilde,
tornou-se o homem mais rico da Itália, uma versão
capitalista de Lula, o retirante nordestino que saiu do pau-de-arara
para o Palácio do Planalto. O pensamento de Berlusconi só
admite parábolas futebolísticas. Ao tratar de economia,
da reforma previdenciária ou do Afeganistão, ele sempre
cita o Milan, da mesma forma que Lula sempre cita o Corinthians.
A diferença é que Berlusconi é dono do Milan,
enquanto Lula não passa de um torcedor do Corinthians. É
a diferença que há, atualmente, entre direita e esquerda.
Berlusconi
acha que tudo pode ser resolvido com uma boa conversa. Os jantares
em sua casa são mais importantes que as reuniões no
Parlamento, mais ou menos como os churrascos de Lula. Berlusconi
acha também que seu prestígio internacional pode levar
a uma rápida solução dos maiores problemas
da humanidade. Ele já se atribuiu o mérito de ter
evitado uma crise nuclear entre Estados Unidos e Rússia,
e, outro dia mesmo, em Israel, apresentou uma receita milagrosa
para acabar o conflito no Oriente Médio. Lula é igual.
Chegou à reunião do G-8 e logo tirou da cartola uma
solução muito simples para a fome no mundo. Os países
desenvolvidos ignoraram a proposta, mas nossos chargistas perceberam
seu alcance histórico. Chico Caruso, na TV, mostrou Lula
marcando um gol de letra contra a fome. Berlusconi e Lula contam
com o apoio irrestrito da TV. Berlusconi é dono da TV italiana.
Lula não é dono de nada, mas conhece o segredo do
cofre para salvar os empresários do setor.
Outras
analogias entre Berlusconi e Lula: ambos reclamam dos juros, ambos
culpam os governos anteriores por seus fracassos, ambos concederam
anistias fiscais para cobrir o rombo estatal, ambos pressionam o
FMI para tirar os investimentos em infra-estrutura do cálculo
do déficit, ambos prometem criar empregos através
de incentivos à produção. Pouco a pouco, os
italianos estão se desencantando com Berlusconi, como demonstraram
as eleições da semana passada. O populismo berlusconiano
começa a perder o fascínio dois anos depois de conquistar
o governo. Lula ainda chega lá.
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