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ENTREVISTA:
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho
A
TV está ruim
Para o ex-todo-poderoso
da Rede Globo,
as emissoras brasileiras fazem
concessões
desnecessárias ao mau gosto

Ricardo Valladares
Antonio Milena
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"Posso
não estar mais
no centro de
tudo, mas
não sinto que perdi poder. As pessoas vivem me
ligando para pedir conselhos"
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José
Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, é um dos grandes
nomes da televisão brasileira. Ele começou a trabalhar
no veículo em 1953, quando tinha apenas 17 anos. Foi câmera,
iluminador e sonoplasta. Atuou em novelas e shows de auditório,
produziu e dirigiu programas. Mas foi na Rede Globo, onde ingressou
em 1967, que deu sua contribuição histórica
à TV. Ao lado de Walter Clark, morto em 1997, ele definiu
a identidade da principal emissora do país, estabelecendo
uma programação bem-sucedida e aquilo que passou a
ser conhecido como "padrão Globo de qualidade". Boni foi
o homem forte do canal carioca por vinte anos. No final de 1997,
deixou o cargo de vice-presidente, mas não se desligou totalmente
da Globo. Manteve com ela, até o começo deste ano,
um contrato de consultoria. Na prática, não fazia
nada: a emissora pagava para não vê-lo numa concorrente.
Nos próximos meses, Boni deve inaugurar sua própria
emissora, a TV Vanguarda, no interior de São Paulo. Ele continua
apaixonado por televisão, embora não goste do que
vê atualmente. "É desagradável ver TV ao meu
lado. Eu mudo de canal o tempo todo", costuma dizer Boni.
Veja
No auge de sua influência na Rede Globo, o senhor
chegou a ser comparado a um chefe de governo. Qual a sensação
de estar longe do poder?
Boni É
confortável. Você olha as coisas de fora, tem uma visão
diferente, muito menos tensão e muito mais tempo. Eu não
estou parado, tenho projetos. Além disso, não caí
no esquecimento. As pessoas vivem me ligando para pedir conselhos,
desde atores até diretores. Posso não estar mais no
centro de tudo, mas não sinto como se houvesse perdido poder.
Veja
Quais são seus projetos atuais?
Boni Tenho
duas concessões de televisão na região de São
José dos Campos, cobrindo 46 cidades. A partir dessa base,
pretendo pôr uma emissora que batizei como TV Vanguarda para
funcionar, em agosto. Trabalho como consultor para o hospital Albert
Einstein, de São Paulo, que está produzindo programas
numa rede interna para seus pacientes. Finalmente, tenho pensado
muito sobre a questão da interatividade. Estou testando,
juntamente com uma grande operadora de cartões de crédito,
um cartão e um aparelho que permitem fazer compras diretamente
de casa: você vê o anúncio, passa o cartão
no aparelho, digita um código e elimina todos os intermediários.
E não é só isso. O cartão também
permite que se armazenem inúmeras informações
sobre seu dono.
Veja
Quanto dinheiro o senhor ganhou com TV?
Boni
O que eu tenho está no imposto de renda. Não foi pouco,
mas creio que é tudo proporcional ao meu esforço e
dedicação. Eu nunca tive salário na Globo.
Assinei um contrato de risco e ganhava participação
nos lucros. No começo de tudo, entre 1967 e 1970, não
recebi um tostão. Vivia de empréstimos bancários.
O dinheiro só começou a entrar quando a emissora passou
a operar no azul.
Veja
Nos últimos cinco anos o senhor atuou como consultor
da Globo. É verdade que recebia 1500 000 reais por mês
para não fazer nada?
Boni
Era
coisa desse tipo. Nos últimos dois anos esse valor caiu pela
metade. Mas juro que essa situação não me dava
prazer. Preferiria estar trabalhando e ganhando um pouco menos.
Veja
Deu para guardar muito dinheiro?
Boni
Eu
tenho bens, mas nunca fui homem de guardar dinheiro. O problema
é que meu custo de vida se tornou bastante elevado. Tenho
uma casa numa ilha de Angra, tenho minha mãe, tenho apartamento
em Nova York, dois filhos que ainda vivem comigo, apartamento em
São Paulo, casa no Rio de Janeiro, escritório. Esse
custo é brutal. Se eu deixar de trabalhar terei problemas
em dois anos. Posso até acabar num asilo de velhos.
Veja
De quanto o senhor precisa para viver?
Boni
Enquanto
negociava minha ida para o SBT, no começo deste ano, fiz
as contas com o Silvio Santos. Com um pouco mais de 300 000 reais
por mês dá para segurar as pontas.
Veja
Por que sua ida para o SBT não deu certo?
Boni Houve
duas tentativas. Na primeira, em 2000, não consegui liberação
da Globo. Existia uma cláusula de perdas e danos em meu contrato
cujo valor era um assombro. Da segunda vez, agora em janeiro, surgiram
algumas questões a ser discutidas. Eu até teria um
grupo de investidores brasileiros dispostos a comprar 51% do SBT.
Mas o Silvio Santos é inquieto e não tem tempo para
esperar ninguém.
Veja
Por que o SBT não cresce mais?
Boni
Silvio
Santos é o melhor apresentador do mundo. Não sei de
ninguém que consiga dominar um programa como ele, com aquela
simplicidade. Mas ele não é um estrategista da televisão.
Não adianta ter 15% em determinado horário, como ele
tem à noite, com o Ratinho. O importante é ter boa
audiência média. Você precisa conquistar aquilo
que chamamos de público de lastro em todos os horários
da sua programação. O Silvio prefere ter um canal
de vendas da Tele Sena, do Baú da Felicidade. Desse modo
sua emissora não vai passar de um certo patamar, apesar de
vitórias eventuais, como aquela da Casa dos Artistas.
Veja
O senhor disse isso a ele?
Boni Claro
que sim. E cheguei a esboçar um plano para atrair mais publicidade
para o SBT. Quando o mercado percebe que existe um projeto consistente
por trás da programação, ele confia e se dispõe
a pagar bastante por isso.
Veja
Como o senhor avalia a televisão de hoje em dia?
Boni Ela
está ruim, porque se instalou uma mentalidade imediatista
nas emissoras. Eles pensam na programação minuto a
minuto, entram em brigas de foice por um ponto de audiência
e, nesse processo, acabam fazendo concessões desnecessárias
ao mau gosto. Televisão não é só o imediato,
nem mesmo do ponto de vista comercial. Pois o mercado publicitário
não se guia apenas pelo ibope para anunciar. Temos vários
exemplos de programas com audiência alta, mas qualidade ruim
e um resultado igualmente ruim na publicidade. Eu trouxe
esse conceito à tona muitos anos atrás e ele continua
válido: boa televisão se faz pensando na programação
como um todo. Estamos falando de um empreendimento muito especial,
que precisa oferecer bom entretenimento e boa informação
num cardápio variado, que atinja todas as classes sociais.
Pensar na programação de forma orgânica significa
que você leva em conta dois clientes, o espectador e o anunciante.
Que, enfim, pesa os interesses de ambos, para chegar a um resultado
satisfatório. São duas estratégias com alvos
diferentes, mas que têm de andar de mãos dadas.
Veja
No momento, o fim da tarde tem a maior concentração
de baixaria na televisão. O que poderia ser feito para melhorar
esse horário?
Boni
O melhor espetáculo do mundo é o ser humano. Ele está
sendo desprezado nesses programas policiais, nesses shows de auditório
que lidam com o mundo-cão. Esprema um programa policial qualquer:
sobram dez minutos de informação. O resto é
gritaria e redundância. Eu baniria todos eles da TV. A atração
é sempre o criminoso, é o sujeito que tem um desvio
sexual qualquer, é o que destruiu a família. Enquanto
isso, dá-lhe merchandising de creme para cabelo. Consumismo
associado ao pior do ser humano: essa fórmula tem de parar.
Eu acho que o horário do fim da tarde comportava muito bem
uma programação de serviços. Serviços
têm uma possibilidade infinita na televisão, e não
existe nada mais popular que isso. Não é ensinar a
fazer bolinho ou pregar coisa na parede. É mostrar maneiras
para as pessoas melhorarem suas vidas, com entrevistas e um pouco
de entretenimento. Dá para fazer e daria certo, desde que
se usasse a cabeça.
Veja
Muita gente de televisão diz que foi o aumento
de espectadores das classes C e D que incentivou o mau gosto na
programação. Esse é um argumento válido?
Boni
Quem
diz isso está transferindo para os outros a culpa por sua
própria falta de imaginação. Os espectadores
não são culpados por aquilo que a televisão
faz. É como atribuir ao pedestre a culpa de quem o atropelou.
Diante do aumento dos espectadores de classes mais baixas, o desafio
era aumentar a quantidade de informação oferecida
não com didatismo, que isso não funciona, mas
com táticas de entretenimento. Se uma pessoa entrou na sala
e sabe menos que as outras, a atitude educada é tentar atualizá-la
para que participe da conversa. A televisão tem, sim, uma
dose de responsabilidade social.
Veja
O senhor mencionou o merchandising de creme para cabelo.
É errado abrir espaço na televisão para esse
tipo de publicidade?
Boni
Não vou chegar ao extremo de dizer que o merchandising deve
ser banido, que é um erro em qualquer circunstância.
Mas é preciso atentar para o contexto em que ele é
utilizado. Usar a televisão apenas como canal de vendas é
distorcê-la. É transformá-la num camelô
eletrônico. Com isso, você joga fora um universo de
possibilidades de um meio de comunicação que não
serve só para vender, mas também para entreter e informar.
Veja
Como brigar pelo filé mignon da publicidade num
mercado em que uma única emissora, a Globo, detém
60% das verbas dos anunciantes?
Boni
Quando a Globo começou, ela era a quarta emissora no mercado
carioca e a quinta no paulista. Nós criamos uma programação
inteligente e fomos à luta, buscar financiamento. Creio que
esse é o exemplo a seguir. O anunciante procura na Globo
o público qualificado. Ela tem um produto melhor. As outras
emissoras precisam investir em programação para melhorar
sua fatia no mercado publicitário. Se continuarem assim,
vão ficar só com o anunciante da esquina. E isso,
a longo prazo, é suicídio.
Veja
Até recentemente, apresentadores como Gugu, Eliana,
Xuxa, Raul Gil e Angélica eram certeza de boa audiência.
Por que tantos deles estão tendo problemas?
Boni
Porque nenhum apresentador segura sozinho um programa que não
tem formato. Ele precisa ter coisas boas embutidas na sua atração,
precisa ter bons quadros. E inquietação para mudar
tudo de tempos em tempos. Justiça seja feita, alguns desses
apresentadores até mudaram suas atrações recentemente.
Mas podem ter feito isso tarde demais, depois de ficarem empacados
numa fórmula que era quase radiofônica. Vinha um cantor,
o apresentador dizia "Vamos ouvir a música tal". Depois o
cantor ia embora, e aparecia horas mais tarde no programa da concorrência.
Assim não dá.
Veja
A Xuxa mudou bastante seu estilo neste ano. Por que mesmo
assim não alcança a audiência de antigamente?
Boni
Xuxa teve um apelo extraordinário vinte anos atrás.
Ela conseguia uma conexão muito boa com as crianças.
Hoje ela é uma mulher de 40 anos. Melhorou como apresentadora,
mas já não é uma garota brincalhona, já
não tem toda aquela espontaneidade. Dito isso, eu não
deixaria a Xuxa sair da Globo de maneira nenhuma. Ela é linda,
é experiente e tem gás para fazer muita coisa ainda.
Causaria um abalo e tanto trabalhando em outra emissora.
Veja
Fausto Silva, do Domingão do Faustão,
é um apresentador que tem ciclos. Sua audiência está
boa agora, mas ele passou por alguns anos difíceis. Que conselho
o senhor daria a ele?
Boni O
Fausto Silva é um ótimo apresentador, mas tem momentos
em que parece cansado de tudo, mal-humorado. Acho que ele se beneficiaria
de uma postura mais ativa no programa. Deveria aproveitar mais a
velocidade de raciocínio que tem e sua habilidade de repórter.
Deveria sair um pouco mais do estúdio e tornar-se o comandante
supremo da sua atração. Faria bem a ele.
Veja
A televisão está prestes a passar por uma
revolução, com a adoção do sistema digital
de transmissão. O que isso vai significar?
Boni
Do ponto de vista tecnológico, o sistema digital vai permitir
a convergência de vários meios de comunicação:
internet, TV, telefonia. Idéias como a interatividade vão
se tornar muito mais palpáveis. Do ponto de vista político,
o projeto que está em debate tem sérios problemas,
a meu ver. Ele vai contemplar os atuais concessionários com
mais quatro canais de televisão. Isso por decorrência
direta da adoção da nova tecnologia, que permite que
um canal digital seja desdobrado até em quatro. Ou seja,
emissoras que já não conseguem operar um canal tradicional
de maneira decente passarão a ter até cinco. Eu não
quero ver o bispo Edir Macedo ou o Programa do Ratinho em
alta definição. Não precisamos ver programas
ruins com essa tecnologia.
Veja
O senhor acha que o Ratinho merece estar em horário
nobre?
Boni
Acho
um erro desprezar o Ratinho. Ele sabe falar com o povo, e isso é
muito difícil. O problema não é o homem, é
o seu programa. É o veículo que ele utiliza para expor
suas qualidades de comunicador, que não são poucas,
no caso de Ratinho. Todo mundo está sujeito a deslizes. Mas,
quando os deslizes se tornam rotina, é sinal de que está
faltando orientação. Gostaria de ter o Ratinho sob
minha direção. Seria possível fazer muita coisa
com ele.
Veja
A última grande novidade na televisão foram
os reality shows. Seu filho, Boninho, dirigiu o de maior
sucesso, o Big Brother. O senhor gosta dos programas que
ele faz?
Boni
Acho que o formato do Big Brother, especificamente, tem
uma falha grave, que é não permitir muitas modificações.
Depois da primeira edição, todos os participantes
se deram conta de que tinham de construir um personagem para se
dar bem. Nas próximas edições, se houver, é
inevitável que comecem a aparecer os clichês. E isso
deve enjoar. Se fosse eu, faria apenas uma edição
do programa por ano. Não assisti a esse último programa
que o meu filho dirigiu, O Jogo, mas sei que não está
dando audiência. Meu diagnóstico é simples:
um programa com esse nome deveria contar com a participação
do telespectador. Do jeito que foi feito, não tem graça
nenhuma para quem o vê. É um erro da Globo. Quanto
ao trabalho propriamente dito do Boninho, acho que ele aprendeu
a tirar leite de pedra. Depois de sofrer muito na minha mão.
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