Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Livros
Flash Gordon e
o tempo perdido

Alta cultura e cultura pop misturam-se no
novo e mais pessoal romance de Umberto Eco


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

Entre as incontáveis citações literárias do novo romance de Umberto Eco, faltou a sabedoria infantil de Alice, a personagem de Lewis Carroll. "De que serve um livro sem figuras nem diálogos?", pergunta-se ela, pouco antes de entrar pela toca do coelho para descobrir o País das Maravilhas. A Misteriosa Chama da Rainha Loana (tradução de Eliana Aguiar; Record; 454 páginas; 49,90 reais) cairia bem no gosto da menina. Pois a obra tem, sim, diálogos – e muitas figuras: cartões-postais, cartazes, selos, histórias em quadrinhos, capas de revistas, livros, discos. Essas imagens ajudam Giambattista Bodoni, o protagonista do romance, a recompor seu passado depois de perder a memória em um derrame cerebral. Nascido em 1931, o personagem seria apenas um ano mais velho do que o escritor – ou seja, as lembranças que Bodoni procura são comuns à geração de italianos que, como Eco, viveram sua infância e adolescência entre os anos 30 e 40, no país nada maravilhoso de Benito Mussolini. Muito diferente da ficção histórica erudita que fez a fama e a fortuna do autor desde O Nome da Rosa, A Misteriosa Chama traz um certo viés autobiográfico: um livro de memórias, escrito por um homem sem memória.

A história é narrada por Bodoni a partir do ponto em que ele acorda, em um quarto de hospital, em 1991, depois de um coma. Embora não saiba nem dizer como se chama, ele conservou aquilo que seu médico designa como "memória semântica" – informações impessoais, de domínio coletivo. Não perdeu, portanto, o conhecimento adquirido dos livros. Bodoni leu muitos deles: é um bibliófilo, um antiquário que vive do comércio de obras raras. Ao ser informado de seu nome, ele se lembra do tipógrafo do século XVIII que também se chamava Giambattista Bodoni – mas é incapaz de se lembrar do rosto da mulher ou da data em que seus pais morreram. Talvez para compensar essas deficiências, o narrador desfia uma sucessão maníaca de informações históricas e literárias. Mas é tudo letra morta: ele não é capaz de atribuir um significado pessoal aos versos de Dante, Rimbaud e Eliot que conhece de cor. De passagem, Eco sugere um paralelo entre a triste condição de seu personagem e a dispersão informativa da internet: Bodoni diz que todos serão como ele no dia em que for inventada "uma danação eletrônica" que permita acessar, no computador, todas as páginas já escritas.

A conselho da mulher, Bodoni faz uma viagem de redescoberta à propriedade rural de seu falecido avô. Remexendo em armários empoeirados e caixas esquecidas no sótão, encontra revistas, livros, discos que teriam sido importantes em sua formação. São os capítulos mais fascinantes do livro: a perspectiva de um homem sem memória biográfica permite que o escritor observe os ícones culturais de sua geração a uma distância segura, sem derramamentos nostálgicos. Eco dá vazão a seu talento ensaístico (superior, aliás, a seus dotes como ficcionista) para discorrer, entre outros temas, sobre Mickey Mouse e a subliteratura aventuresca do italiano Emilio Salgari (veja quadro).

Ao lado dessas páginas de história cultural, A Misteriosa Chama ainda traz um subenredo romântico – entre as memórias que Bodoni mais deseja recuperar, está o rosto de Lila, seu primeiro e maior amor. Eco consegue envolver seu leitor nessa difícil busca do tempo perdido, mas sua conclusão parece um tanto apressada. As últimas trinta páginas são um delírio apocalíptico-carnavalesco de Bodoni (resultado de outro derrame?), no qual os personagens mais importantes de sua vida desfilam ao lado de heróis dos quadrinhos. Não é muito convincente como ficção, mas vale pelas aproximações irônicas entre a "alta" e a "baixa" cultura: na imagem das naves espaciais e dos homens-falcão (!) que se precipitam do céu depois de uma batalha intergaláctica contra Flash Gordon, Eco parece redescobrir os motivos divinos que inspiraram muitas representações renascentistas do Juízo Final. Um livro com figuras serve mesmo para muita coisa: ensina que Dante e Mickey podem andar de mãos dadas na memória dos leitores.

 

Um baú de imagens

Como Umberto Eco retrata a cultura popular
em A Misteriosa Chama da Rainha Loana



MICKEY MOUSE
"Havia toda uma série de Álbuns de Ouro com as peripécias de Mickey. Mais lido que os outros, a julgar pelo estado periclitante do meu exemplar, o Mickey Jornalista: era impensável que o regime deixasse passar uma história sobre liberdade de imprensa, mas percebe-se que, para os censores do Estado, histórias de animais não poderiam ser realistas e perigosas"
The Walt Disney Company

 
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ITÁLIA FASCISTA
"Um cartão-postal mostrava um negro bêbado que alisava com a manopla o umbigo da Vênus de Milo. O desenhista esquecera que declaráramos guerra também à Grécia e, portanto, o que deveria nos importar se aquele bruto bolinava uma helênica mutilada, cujo marido andava por aí de saiote e com pompom no sapato?"


FLASH GORDON
"Era bonito e louro como um herói ariano, mas a natureza da sua missão deve ter me fascinado. Até então, que heróis eu conhecia? Dos livros escolares às revistinhas italianas, eram portentos que se batiam pelo Duce. Gordon não, batia-se pela liberdade contra um déspota"

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EMILIO SALGARI (1862-1911)
"De Salgari sempre se fala até hoje, e críticos sofisticados dedicam-lhe grandes artigos prolixos gotejantes de nostalgia. Mas o que acontecia no mundo quando um rapaz da Itália lia Salgari, onde muitas vezes os heróis eram de cor e os brancos malvados? Salgari deve ter confundido bastante os meus primeiros contatos com a antropologia cultural"

 
 
 
 
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