Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Calvície
Com rato já deu certo

O remédio que faz nascer cabelo já está
em fase de testes com seres humanos


Okky de Souza

 

Philip Beachy/Curis.com
Camundongos com o dorso raspado: nos três da direita, graças ao remédio, pêlos cresceram mais rápido

A queda de cabelo é um fantasma que assombra os homens desde a Antiguidade. Entre pesquisas científicas e birutices de curandeiros, já se tentou uma infinidade de soluções para o problema, mas nenhuma até hoje conseguiu transformar carecas lustrosas em vastas cabeleiras de Sansão. O máximo que os medicamentos mais modernos conseguem é retardar a queda dos fios. Resultado: mesmo nestes tempos de biotecnologia, 55% da população masculina na faixa dos 45 anos de idade apresenta calvície em algum estágio. Agora, surge uma nova esperança. Neste mês, o laboratório americano Curis, de Cambridge, em Massachusetts, começa a testar em humanos um medicamento que já se mostrou eficaz em camundongos.

A nova droga, ainda sem nome, intervém numa seqüência de reações químicas que ocorrem entre as proteínas do organismo e que as células usam para se comunicar entre si. Os resultados dessa intervenção são a ativação dos folículos capilares já inativos, ou seja, que não produzem mais fios, e o rejuvenescimento dos folículos ainda saudáveis. Nos testes realizados até agora pelo Curis, um grupo de camundongos teve o dorso raspado. Naqueles em que a droga foi ministrada, os pêlos voltaram a crescer muito mais rapidamente. A dúvida dos cientistas é se, quando aplicada em seres humanos, a droga será capaz de atuar apenas no couro cabeludo, sem provocar efeitos colaterais.

Uma parte significativa dos cientistas acredita hoje que a queda de cabelo resulta de uma mudança de ritmo no processo natural de produção de fios pelo couro cabeludo. Numa cabeleira normal, cada folículo capilar trabalha incessantemente por dezoito meses, durante os quais o fio de cabelo que ele sustenta cresce à ordem de 0,5 milímetro por dia. Ao fim desse período, as células que produzem o cabelo morrem, o fio cai e o folículo permanece adormecido por seis meses, até voltar à atividade e desenvolver um novo fio. Nos homens com tendência à calvície, todo esse processo ocorreria de forma mais acelerada, esgotando mais rapidamente a capacidade do folículo de se renovar ao longo da vida.

Hoje, existem apenas dois medicamentos que produzem algum resultado na luta contra a queda de cabelo: o minoxidil e o finasterida. Assim mesmo, eles só funcionam nos estágios iniciais da calvície, ou para preveni-la. O minoxidil é uma loção que deve ser aplicada no couro cabeludo diariamente, por meio de massagem. A loção dilata os vasos sanguíneos e estimula os folículos que se encontram fora de ação a voltar a trabalhar. O finasterida é um comprimido que precisa ser ingerido diariamente. A substância bloqueia a produção do hormônio diidrotestosterona, que não tem função prática no organismo mas colabora com os processos que resultam na queda de cabelo. Caso se queira preservar os resultados de ambos os remédios, é preciso usá-los para o resto da vida.

A alternativa aos remédios, naturalmente, são os implantes capilares, uma opção em que às vezes o feitiço se volta contra o feiticeiro. Se o implante é malfeito, o cliente fica com uma cabeleira em tufos, semelhante à das bonecas de plástico baratas. Mesmo nos implantes mais modernos permanece o problema de que não se adicionam novos folículos ao couro cabeludo – apenas se distribuem de outra forma os já existentes, quase sempre os tirando da nuca para colocá-los na parte frontal da cabeça. Algumas universidades americanas têm anunciado uma solução para esse problema. Elas se dizem próximas de conseguir clonar os folículos capilares, fabricando-os em série com base em uma matriz.

Os cientistas do laboratório Curis estão entusiasmados com outra provável aplicação do mecanismo de intervenção na comunicação entre as células usado na droga contra a queda de cabelo. Ele poderia servir para deter o avanço de alguns tipos de câncer, principalmente de pele, de pâncreas, de próstata e de pulmão. Nesse caso, a droga atuaria de forma exatamente oposta – em vez de estimular o funcionamento das células, ela isolaria aquelas que se encontram em processo degenerativo. Por enquanto, a legião de homens que sofrem diante do espelho com sua careca está de olho mesmo é no novo remédio.

 

Problema cabeludo

Há 3 500 anos o homem luta contra
a queda de cabelo – sem muito sucesso

1550 a.C.
Um papiro famoso mostra que os egípcios tentavam fazer crescer cabelo com uma mistura de mel, cebola, óxido de ferro, chumbo, alabastro e gordura de animais como cobras, crocodilos e leões. Antes de engolirem a beberagem, faziam um ritual de celebração ao Sol

420 a.C.
O grego Hipócrates, pai da medicina, receitava massagem do couro cabeludo com um composto de ópio, rábano, fezes de pombo, beterraba e especiarias. Pelo menos com ele não deu certo – chegou ao fim da vida completamente calvo

SÉCULO XVII
Para camuflar a calvície cada vez mais evidente, o rei francês Luís XIII passou a usar peruca. A corte o imitou, as perucas se tornaram um símbolo do poder e ficaram cada vez maiores. Anos depois, retornando de seu exílio na França, o rei Charles II da Inglaterra levou a moda para a corte inglesa

1800
Tem início a febre dos óleos milagrosos vendidos por ambulantes, como se vê nos filmes de caubói. O de maior sucesso foi inventado por Alexander Barry, fabricante de perucas de Nova York. Seu Barry's Tricopherous, feito à base de álcool, óleo de castor e moscas trituradas, foi vendido durante um século

1930
Surge nos Estados Unidos uma série de engenhocas elétricas destinadas a estimular o couro cabeludo, na esperança de que seu uso regular fizesse nascer cabelo. Várias delas funcionavam como um aspirador de pó, alternando sucção e pressão de ar na cabeça do incauto

1939
Os primeiros transplantes de cabelo foram feitos no Japão. A técnica só chegaria ao Ocidente depois da II Guerra

1980
Invenção das botas gravitacionais. Presas pela sola a uma grade fixada no teto, permitiam que o careca ficasse pendurado como morcego por trinta minutos diários, estimulando a circulação sanguínea na cabeça e, supostamente, a raiz do cabelo

1988
A Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, aprovou pela primeira vez um medicamento contra a calvície, o minoxidil (nome comercial: Regaine), de uso tópico

1995
Prometia-se que a aplicação semanal de raios laser de baixa potência ativaria a circulação sanguínea no couro cabeludo, estimulando o crescimento dos fios. Não funcionou, embora o tratamento custasse 7 000 dólares por ano  

1998
A FDA aprova o finasterida, o primeiro medicamento para uso interno (nome comercial: Propecia), eficaz em 85% dos casos de calvície em estágio inicial. A substância bloqueia a produção do hormônio diidrotestosterona (DHT), que não tem função prática no organismo mas faz cair o cabelo

 
 
 
 
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