Edição 1905 . 18 de maio de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Sexo
A atração está no cheiro

Estudo explica como os sexos se
atraem e reforça a tese da origem
biológica do homossexualismo


Rosana Zakabi


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Como funciona o hormônio do sexo

Os processos que resultam na atração sexual são um permanente desafio para a ciência. Nos animais, sabe-se que ela é conseqüência da ação dos feromônios, componentes químicos liberados pelo corpo que atraem o sexo oposto pelo odor. A existência dos feromônios nos seres humanos é uma questão controversa. Agora, uma nova pesquisa, uma das muitas que têm se beneficiado das novas tecnologias de rastreamento fotográfico do cérebro, conclui que a atração sexual nos seres humanos também se regula pelos feromônios. O estudo foi divulgado na semana passada por uma equipe de médicos do Instituto Karolinska, em Estocolmo. Eles monitoraram o cérebro de 36 voluntários usando um aparelho de ressonância magnética. Os homens, ao sentir o cheiro de amostras do hormônio estrógeno, extraído da urina das mulheres, apresentaram um aumento de atividade no hipotálamo – região do cérebro associada às emoções e aos impulsos sexuais. Nas mulheres, a mesma região foi ativada quando elas sentiram o odor do hormônio testosterona, retirado pelos cientistas do suor masculino. Um estudo semelhante já havia sido feito pela mesma equipe médica anos atrás. A novidade, desta vez, foi a inclusão de um terceiro grupo, o dos homossexuais masculinos. O resultado surpreendeu os pesquisadores. A reação do cérebro dos integrantes desse grupo ao serem expostos aos odores foi exatamente a mesma das mulheres. O estudo também foi feito com lésbicas, mas, segundo a médica Ivanka Savic, coordenadora da pesquisa, os dados nesse caso ainda não são conclusivos.

Nos animais, os feromônios operam prodígios. Através deles, o cachorro consegue identificar a presença de uma cadela no cio a quilômetros de distância. Nos seres humanos, os feromônios, embora também detectados pelas células olfativas, seriam totalmente inodoros, o que tornaria mais difícil registrar sua presença. A explicação evolucionista reza que, desde que a espécie humana se tornou bípede e deixou de farejar suas presas junto ao chão, seu olfato foi se reduzindo gradativamente em favor de uma visão aguçada – mais útil para a caça quando se está na posição ereta. Em razão desse processo, hoje o homem tem 5 milhões de células olfativas – contra 200 milhões do cachorro e 80 milhões do gato. Assim, ele teria menos capacidade para absorver os feromônios secretados pelo sexo oposto. Em contrapartida, vários estudos, como o recém-divulgado pelos médicos suecos, já evidenciaram a importância dos feromônios na aproximação sexual entre homens e mulheres. Um deles, desenvolvido há seis meses pela bióloga Joan Friebely, da Universidade Harvard, e pela médica Susan Rako, de Newton, Massachusetts, acenou com uma possibilidade fantástica para a indústria de perfumes. A pesquisa provou que uma substância extraída do suor de mulheres jovens é capaz de aumentar a atração dos homens por mulheres mais velhas quando aplicada na pele destas.

O estudo sueco também adiciona novo combustível a uma das questões mais controvertidas do estudo do comportamento – a natureza da homossexualidade. Seria ela determinada por fatores biológicos ou adquirida ao longo da vida? De acordo com a pesquisa, o cérebro dos gays é diferente do cérebro dos heterossexuais. "O que ainda não sabemos é se essa diferença é a causa da orientação sexual ou conseqüência dela", diz a médica Ivanka Savic. Um estudo semelhante feito pelo neurocientista inglês Simon LeVay também sugere que o hipotálamo é ativado de acordo com a orientação sexual. Alguns estudiosos acreditam que existe um forte componente genético na homossexualidade devido à incidência do fenômeno em irmãos gêmeos. Entre gêmeos não univitelinos, ou seja, gerados por óvulos diferentes, quando um deles é homossexual há 22% de chance de que o outro também o seja. No caso de gêmeos univitelinos, essa possibilidade sobe para 52%. Várias pesquisas anteriores associam o homossexualismo a questões biológicas, mas os cientistas nunca chegaram a um consenso sobre o assunto. Um estudo feito pela Universidade de Pádua, na Itália, no fim do ano passado, sugere que o cromossomo X, que os garotos sempre herdam de suas mães, é o grande responsável pelo homossexualismo. A idéia já havia sido defendida em 1993 pelo geneticista americano Dean Hamer, mas foi contestada logo depois por outros especialistas.

Outro estudo, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, sugere que a quantidade de hormônios à qual os fetos são expostos no útero da mãe pode influenciar em sua futura orientação sexual. Segundo essa pesquisa, os hormônios influenciam na formação dos dedos das mãos, ainda antes de a criança vir ao mundo. Um bom método para comprovar essa influência é observar o comprimento dos dedos de uma pessoa. Nas mulheres heterossexuais, os dedos indicador e anular têm praticamente o mesmo tamanho. Já as lésbicas, segundo o psicólogo Marc Breedlove, autor da pesquisa, têm o dedo indicador mais curto, como os homens. Entre os homens, segundo Breedlove, não há relação entre o tamanho dos dedos e a sexualidade. O próprio pesquisador recomenda cautela no uso desse critério. "Não há gene que force uma pessoa a ser homo ou heterossexual. São muitos os fatores psicológicos e sociais, além dos biológicos, que moldam a preferência sexual", ele diz.

 
 
 
 
topovoltar