Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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"A doença não vai me vencer"

Desde o fim do ano passado, o ator Raul Cortez, de 72 anos, luta contra um câncer no aparelho digestivo. Depois de uma cirurgia para extração do tumor, ele passa por um tratamento à base de quimioterapia. Cortez recebeu VEJA para duas entrevistas – em sua casa, em São Paulo, e em seu sítio, no interior paulista

"Não quero que ninguém tenha pena de mim. Isso é a pior coisa para um paciente com câncer"

OS PRIMEIROS SINTOMAS
"Dois anos atrás, a doença já dava sinais de sua presença, sem que eu me desse conta. Tive uma hérnia de hiato, uma pancreatite, uma sinusite, o pulmão já estava sendo atacado. Quando fiz a novela Esperança, passei muito mal depois de uma refeição. Apesar desses sinais, emendei as filmagens de duas novelas. Ator é um bichinho engraçado, eu achava que não era nada grave. No dia do meu aniversário, em 28 de agosto do ano passado, eu comecei a me sentir realmente doente e fiquei revoltado. Pensei: não vou deixar isso acontecer comigo. Quando não dava mais para segurar, fiz um exame, mas não deu nada. Fui então a um acupunturista, e ele disse que eu tinha algum problema no pâncreas. Comecei a sentir dores e imaginava que dor de câncer deveria ser daquele jeito. Quando tiver um papel de paciente de câncer, brinquei comigo, já sei como interpretar. Nem sonhava que estava sentindo a dor do câncer de fato. A doença não vai me vencer."

A DESCOBERTA
"No dia 10 de dezembro do ano passado, depois que vomitei em casa, minha empregada me enfiou num táxi e me mandou para o hospital. Eu me internei contra minha vontade. Depois de uma bateria de exames, o médico mandou chamar minha família. Até ali eu não estava alarmado. Só senti o choque na hora em que ele anunciou, na presença de meus quatro irmãos: você está com um tumor. Perguntei se era benigno. Quando o médico disse que era maligno, veio um grande susto. Mas, logo em seguida, pensei: não posso chorar, senão enfraqueço e não poderei lutar contra a doença. Então tomei coragem e falei: se tiver de operar, que seja já."  

A OPERAÇÃO
"Quando estava indo para a cirurgia, achava que aquilo não podia estar acontecendo de verdade. Eu deitado na maca, com uma touca ridícula na cabeça, parecia um pesadelo. Numa operação de quinze horas, os médicos extraíram meu duodeno, uma parte menor do estômago e outra do pâncreas. Em razão disso, hoje não posso pesar mais que 72 quilos. Agora, controlo meu peso todo dia. Antes disso tudo, eu estava com quase 80 quilos. Agora, peso 66 quilos e 700 gramas."

 

"Recuperei o humor. Minha vida passou por uma grande mudança, mas sinto uma quietude interior"

O HOSPITAL
"Durante minha internação, descobri que num hospital não tem essa de solidão. E não é só porque as portas se abrem para as visitas a toda hora. O hospital tem vida própria, as pessoas são muito solidárias. Há sempre o contato com os funcionários e outros pacientes. Constatei, aliás, que a identificação com os demais doentes é vital. A gente se fala até hoje, um dá força ao outro."  

O TRATAMENTO
"Depois da operação, fiz radioterapia e também iniciei as sessões de quimioterapia. Faço uma a cada duas semanas. Tenho de ficar no hospital por três horas recebendo os remédios por via injetável, e os efeitos são realmente desagradáveis. Sinto dores terríveis depois de enfrentar a químio. Além disso, tomo um remédio que tira a concentração e dá tremedeira – demorei um pouco para associar minhas perdas de equilíbrio ao efeito dele. O tratamento é duro, mas está valendo a pena. Sinto que a doença foi controlada."  

O APOIO DA FAMÍLIA
"Quando tive o diagnóstico de câncer, meus parentes caíram em prantos. Eu pensei: não posso deixar que eles se abatam, e comecei a brincar com a situação. Todos eles se preocupam, ligam para mim o dia inteiro. O que me deixa feliz é saber que, junto com minhas duas filhas e meus irmãos, formamos uma família unida. É mais fácil atravessar esse momento duro com o afeto deles."  

"Na rua as pessoas estimam melhoras. Os caminhoneiros, ao me ver, agora buzinam para mim"

A VIDA COM A DOENÇA
"Depois do susto inicial, recuperei meu humor. Passo os dias em meu sítio, fazendo caminhadas, conversando com os amigos pelo telefone, lendo e vendo DVDs. Só fico frustrado por não conseguir pintar. Tento, mas não sai nada. O que importa é ter uma rotina e manter a mente ocupada. Sei que minha vida passou por uma grande mudança, mas sinto uma quietude interior. Estou mais tolerante com as pessoas, me divirto com elas, com seus defeitos."

A REAÇÃO DAS PESSOAS
"Não quero que ninguém tenha pena de mim. Isso é a pior coisa para um paciente com câncer. Graças a Deus, não percebo dó no olhar dos meus amigos. Mas, quando encontro alguém que não é tão chegado, sinto aquele olhar de consternação que me causa repulsa. Embora esse tipo de reação me irrite, acho que devo tornar minha doença pública. É engraçado, na rua as pessoas estimam melhoras. Os caminhoneiros, quando me vêem, até buzinam para mim. Virei a Sula Miranda. Quando eu falo que já estou bom, as pessoas dizem: mesmo assim, quero que o senhor se recupere logo."

PROJETOS
"Por enquanto, não dá para fazer televisão nem teatro. Mas, se tiver trabalhos em comerciais, eu garanto que estou inteiro. No fim do ano, tenho vontade de fazer um espetáculo de curta duração. Seria uma coisa simples, um monólogo talvez. Também planejo fazer uma peça junto com minha filha Lígia. Isso é mais para a frente, se Deus quiser, mas tenho planos. Eu me sinto curado."

 
 
 
 
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