"A doença não vai me vencer" Desde
o fim do ano passado, o ator Raul Cortez, de 72 anos, luta contra um câncer
no aparelho digestivo. Depois de uma cirurgia para extração do tumor,
ele passa por um tratamento à base de quimioterapia. Cortez recebeu VEJA
para duas entrevistas em sua casa, em São Paulo, e em seu sítio,
no interior paulista  | "Não
quero que ninguém tenha pena de mim. Isso é a pior coisa para um paciente com
câncer" |
OS PRIMEIROS
SINTOMAS "Dois anos atrás, a doença já dava sinais
de sua presença, sem que eu me desse conta. Tive uma hérnia de hiato,
uma pancreatite, uma sinusite, o pulmão já estava sendo atacado.
Quando fiz a novela Esperança, passei muito mal depois de uma refeição.
Apesar desses sinais, emendei as filmagens de duas novelas. Ator é um bichinho
engraçado, eu achava que não era nada grave. No dia do meu aniversário,
em 28 de agosto do ano passado, eu comecei a me sentir realmente doente e fiquei
revoltado. Pensei: não vou deixar isso acontecer comigo. Quando não
dava mais para segurar, fiz um exame, mas não deu nada. Fui então
a um acupunturista, e ele disse que eu tinha algum problema no pâncreas.
Comecei a sentir dores e imaginava que dor de câncer deveria ser daquele
jeito. Quando tiver um papel de paciente de câncer, brinquei comigo, já
sei como interpretar. Nem sonhava que estava sentindo a dor do câncer de
fato. A doença não vai me vencer." A
DESCOBERTA "No dia 10 de dezembro do ano passado, depois que vomitei
em casa, minha empregada me enfiou num táxi e me mandou para o hospital.
Eu me internei contra minha vontade. Depois de uma bateria de exames, o médico
mandou chamar minha família. Até ali eu não estava alarmado.
Só senti o choque na hora em que ele anunciou, na presença de meus
quatro irmãos: você está com um tumor. Perguntei se era benigno.
Quando o médico disse que era maligno, veio um grande susto. Mas, logo
em seguida, pensei: não posso chorar, senão enfraqueço e
não poderei lutar contra a doença. Então tomei coragem e
falei: se tiver de operar, que seja já."
A OPERAÇÃO "Quando estava indo para
a cirurgia, achava que aquilo não podia estar acontecendo de verdade. Eu
deitado na maca, com uma touca ridícula na cabeça, parecia um pesadelo.
Numa operação de quinze horas, os médicos extraíram
meu duodeno, uma parte menor do estômago e outra do pâncreas. Em razão
disso, hoje não posso pesar mais que 72 quilos. Agora, controlo meu peso
todo dia. Antes disso tudo, eu estava com quase 80 quilos. Agora, peso 66 quilos
e 700 gramas."  | "Recuperei
o humor. Minha vida passou por uma grande mudança, mas sinto uma quietude
interior" |
O HOSPITAL "Durante
minha internação, descobri que num hospital não tem essa
de solidão. E não é só porque as portas se abrem para
as visitas a toda hora. O hospital tem vida própria, as pessoas são
muito solidárias. Há sempre o contato com os funcionários
e outros pacientes. Constatei, aliás, que a identificação
com os demais doentes é vital. A gente se fala até hoje, um dá
força ao outro." O
TRATAMENTO "Depois da operação, fiz radioterapia e também
iniciei as sessões de quimioterapia. Faço uma a cada duas semanas.
Tenho de ficar no hospital por três horas recebendo os remédios por
via injetável, e os efeitos são realmente desagradáveis.
Sinto dores terríveis depois de enfrentar a químio. Além
disso, tomo um remédio que tira a concentração e dá
tremedeira demorei um pouco para associar minhas perdas de equilíbrio
ao efeito dele. O tratamento é duro, mas está valendo a pena. Sinto
que a doença foi controlada." O
APOIO DA FAMÍLIA "Quando tive o diagnóstico de câncer,
meus parentes caíram em prantos. Eu pensei: não posso deixar que
eles se abatam, e comecei a brincar com a situação. Todos eles se
preocupam, ligam para mim o dia inteiro. O que me deixa feliz é saber que,
junto com minhas duas filhas e meus irmãos, formamos uma família
unida. É mais fácil atravessar esse momento duro com o afeto deles."
 | "Na
rua as pessoas estimam melhoras. Os caminhoneiros, ao me ver, agora buzinam para
mim" |
A VIDA COM A DOENÇA "Depois
do susto inicial, recuperei meu humor. Passo os dias em meu sítio, fazendo
caminhadas, conversando com os amigos pelo telefone, lendo e vendo DVDs. Só
fico frustrado por não conseguir pintar. Tento, mas não sai nada.
O que importa é ter uma rotina e manter a mente ocupada. Sei que minha
vida passou por uma grande mudança, mas sinto uma quietude interior. Estou
mais tolerante com as pessoas, me divirto com elas, com seus defeitos."
A REAÇÃO DAS PESSOAS "Não quero
que ninguém tenha pena de mim. Isso é a pior coisa para um paciente
com câncer. Graças a Deus, não percebo dó no olhar
dos meus amigos. Mas, quando encontro alguém que não é tão
chegado, sinto aquele olhar de consternação que me causa repulsa.
Embora esse tipo de reação me irrite, acho que devo tornar minha
doença pública. É engraçado, na rua as pessoas estimam
melhoras. Os caminhoneiros, quando me vêem, até buzinam para mim.
Virei a Sula Miranda. Quando eu falo que já estou bom, as pessoas dizem:
mesmo assim, quero que o senhor se recupere logo." PROJETOS "Por
enquanto, não dá para fazer televisão nem teatro. Mas, se
tiver trabalhos em comerciais, eu garanto que estou inteiro. No fim do ano, tenho
vontade de fazer um espetáculo de curta duração. Seria uma
coisa simples, um monólogo talvez. Também planejo fazer uma peça
junto com minha filha Lígia. Isso é mais para a frente, se Deus
quiser, mas tenho planos. Eu me sinto curado." |