Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Slogan para a BIENAL do livro: LIVRO NÃO ENGUIÇA

E já que se fala de
livros. Alguns deles

O Universo numa Casca de Noz
Andei lendo uns livros. Não por cultura, diversão. Primeiro: O Universo numa Casca de Noz, de Stephen Hawkins, que, com Newton e Einstein, forma a trinca da fuzarca da superfísica. Alta prosopopéia. Pra ser lido de 10 em 10 páginas por dia. Ou por ano, se você é do governo. No fim, se tiver entendido 10%, você é um gênio. E terá uma certa medida da sua ignorância. Isso é cultura.

E se você for um "designer" olhe com humildade as 200 ilustrações. De babar na gravata. Fará você rever sua computação gráfica. Ah, autores de manuais-de-ajuda, o primeiro livro de Hawkins vendeu 10 milhões de exemplares. Nem tudo está perdido, non, mamita?

Equador
Equador, do jornalista, romancista e tevê-man português Miguel Souza Tavares, já vendeu mis exemplares. Merecidos. Se passa no Equador, não o país, a linha imaginária. São Tomé e Príncipe, pra ser exato. Belo romance, bem urdido, e tem sexo (aprenda, Dan Brown) como tudo na vida. As três mulheres do romance, a burguesa de Lisboa, a inglesa ultramoderna chegada das Índias e a criada, negra de fazer inveja às mulheres "populares" de Jorge Amado – que nunca entendeu que a beleza é uma aristocracia em si mesma –, são de carne e osso. E muito tesão.

Ah, o livro também tem problemas sociais, violência de escravocratas contra escravos. Mas é, sobretudo, um romance romântico. Se é que me entendem.

Al-Gharb 1146
Também português, Alberto Xavier, de largo tráfego no Brasil. Erudito de outra área, jurídica, Xavier surpreende (eu sei, depois do Lula, nada vos surpreende, mas deixa pra lá) com esse seu primeiro e extraordinário romance. Passado no período fantástico em que a Península Ibérica era dominada de fato e culturalmente pelo então tolerante islamismo. As Cruzadas só viriam depois. Erudito, fantasioso, cheio de digressões eruditas sobre gastronomia, cores, etnias, o livro traça relações sexuais até o invulgar. Al-Gharb é um delírio onírico, belíssima literatura. Não é fácil. Mas o custo-benefício é altamente compensador.

Tupigrafia
Não é uma revista. Pois eu e a Unesco sabemos: "Livro é uma publicação impressa não periódica, com um mínimo de 49 páginas". Contam até os íntimos que o beletrista José Sarney, só quando bateu o ponto final na página 50 do Brejal dos Guajas, é que gritou pra dona Kyola: "Mãiê, acabei!".

Ora, pois, Tupigrafia está na sexta edição, não periódica!, tem 130 páginas. Um livro. Estudo em profundidade e beleza – e seriedade! – que poucos livros de poesia têm, que poucos álbuns de design têm. Uma viagem no mundo incomparável do que mais caracteriza o homem civilizado: o tipo, o sinal gráfico, o transmissor insuperável da comunicacão. Parabéns, Cláudio Rocha. Parabéns, Tony de Marco.

Zahir
As seis páginas de O Zahir de Jorge Luis Borges são visão original, densa e perturbante de um poeta da visão total.

"Em Buenos Aires, o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; marcas de navalha ou canivete riscam as letras N T e o número dois; 1929 é a data gravada no anverso. (Em Guzerat, em fins do século XVIII, um tigre foi Zahir; em Java, um cego da mesquita de Surakarta, que os fiéis apedrejaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar; nas prisões do Mahdi, por volta de 1892, uma pequena bússola em que Rudolf Carl von Slatin tocou, envolta numa dobra de turbante; na mesquita de Córdova, segundo Zotenberg, um veio no mármore de um dos mil e duzentos pilares; entre os judeus de Tetuan, o fundo de um poço.) Hoje é 13 de novembro; no dia 7 de junho, de madrugada, chegou às minhas mãos o Zahir; não sou o que então eu era, mas ainda me é dado recordar, e talvez contar, o ocorrido. Ainda, se bem que parcialmente, sou Borges."

Assim começa Borges. Termina seis páginas depois:

"Antes de 1948, o destino de Julia talvez já tenha me atingido. Terão de alimentar-me e vestir-me, não saberei se é tarde ou manhã, não saberei quem foi Borges. Qualificar de terrível esse futuro é uma falácia, já que nenhuma de suas circunstâncias terá significado para mim. Tanto valeria sustentar que é terrível a dor de um anestesiado a quem abrem o crânio. Já não perceberei o universo, perceberei o Zahir. Segundo a doutrina idealista, os verbos viver e sonhar são rigorosamente sinônimos; de milhares de aparências, passarei a uma; de um sonho muito complexo a um sonho muito simples. Outros sonharão que estou louco, e eu com o Zahir. Quando todos os homens da terra pensarem, dia e noite, no Zahir, qual será um sonho e qual uma realidade, a terra ou o Zahir?"

"Nas horas desertas da noite ainda posso caminhar pelas ruas. A aurora costuma surpreender-me num banco da praça Garay, pensando (procurando pensar) naquela passagem do Asrar Nama, na qual se diz que o Zahir é a sombra da Rosa e a rasgadura do Véu. Vinculo essa opinião a esta notícia: para perder-se em Deus, os sufis repetem seu próprio nome ou os noventa e nove nomes divinos até que eles já nada querem dizer. Anseio percorrer esse caminho. Talvez acabe por gastar o Zahir à força de pensá-lo e repensá-lo; talvez, por trás da moeda, esteja Deus."

Ninguém é capaz de melhorar isso.

E, em setembro, sai. UM DEFEITO DE COR, Ana Maria Gonçalves (Record, 697 págs.). UM LIVRO!

 
 
 
 
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