A Irlanda seguiu em
frente, mas o diretor
Ken Loach ainda está à caça dos culpados
Isabela Boscov
O estudante de medicina
irlandês Damien (Cillian Murphy) está prestes
a seguir carreira em Londres quando se vê envolvido
num episódio de brutalidade indizível no seu
Condado de Cork natal: soldados ingleses apontam armas contra
mulheres e velhos e executam a sangue-frio um adolescente.
Damien se junta então a uma coluna de guerrilheiros
republicanos, para lutar pela expulsão das forças
britânicas da Irlanda e pela revolução
socialista. Nesse início de Ventos da Liberdade
(The Wind that Shakes the Barley, Irlanda/Inglaterra,
2006), desde sexta-feira em cartaz no país, está-se
em 1920. Ao longo desse ano, Damien vai não só
matar o inimigo como também fuzilar irmãos irlandeses
suspeitos de colaboracionismo. Para quem ia ser médico
e salvar vidas, é uma guinada e tanto. Damien, porém,
irá ainda mais longe. Em 1921, a liderança da
guerrilha assina com a Inglaterra o tratado que dividiu a
Irlanda em duas a do Sul, autônoma, e a do Norte,
sob domínio britânico e protestante (num território
majoritariamente católico). Parte da guerrilha
aquela a que Damien pertence considera o acordo inaceitável
e volta suas armas contra a parte que cedeu, iniciando uma
guerra civil.
O diretor Ken Loach
é um dos últimos adeptos do velho pensamento
de esquerda, mas não foi isso que tornou seu filme,
ganhador da Palma de Ouro em Cannes no ano passado, objeto
de uma controvérsia acalorada. Loach é bastante
explícito ao mostrar a truculência que os ingleses
fingem que não aconteceu, e alguns o acusaram de reviver
desnecessariamente velhos fantasmas o que é
em si uma bobagem. O problema é o zelo socialista arcaico
que o diretor ressuscita, aquinhoando culpa pelo conflito
aqui e ali (menos para os seus heróicos radicais, como
Damien, que, aliás, viriam a inspirar o terror brutal
e as atividades criminosas do IRA entre os anos 60 e 90).
Esse "tribunal" de Loach, além disso, se vale do passado
para julgar o presente. Como ele mesmo declarou, os guerrilheiros
irlandeses aqui podem representar os iraquianos sob a ocupação
americana, ou os palestinos acuados por Israel operação
que exige manipulações sutis da história
passada e da atual. Certamente não é com a contribuição
desse tipo de pensamento que, há duas semanas, a Irlanda
do Norte anunciou um feito: a instauração de
um governo conjunto de católicos e protestantes, num
passo que exige enorme disposição para engolir
rancores mútuos. Examinar o passado, enfim, nunca é
um problema ao contrário. O problema é
insistir que se reescreva o presente à luz dele, como
faz Loach em Ventos da Liberdade.