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18 de abril de 2007
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Cinema
Um passo para trás

A Irlanda seguiu em frente, mas o diretor
Ken Loach ainda está à caça dos culpados


Isabela Boscov

O estudante de medicina irlandês Damien (Cillian Murphy) está prestes a seguir carreira em Londres quando se vê envolvido num episódio de brutalidade indizível no seu Condado de Cork natal: soldados ingleses apontam armas contra mulheres e velhos e executam a sangue-frio um adolescente. Damien se junta então a uma coluna de guerrilheiros republicanos, para lutar pela expulsão das forças britânicas da Irlanda e pela revolução socialista. Nesse início de Ventos da Liberdade (The Wind that Shakes the Barley, Irlanda/Inglaterra, 2006), desde sexta-feira em cartaz no país, está-se em 1920. Ao longo desse ano, Damien vai não só matar o inimigo como também fuzilar irmãos irlandeses suspeitos de colaboracionismo. Para quem ia ser médico e salvar vidas, é uma guinada e tanto. Damien, porém, irá ainda mais longe. Em 1921, a liderança da guerrilha assina com a Inglaterra o tratado que dividiu a Irlanda em duas – a do Sul, autônoma, e a do Norte, sob domínio britânico e protestante (num território majoritariamente católico). Parte da guerrilha – aquela a que Damien pertence – considera o acordo inaceitável e volta suas armas contra a parte que cedeu, iniciando uma guerra civil.

O diretor Ken Loach é um dos últimos adeptos do velho pensamento de esquerda, mas não foi isso que tornou seu filme, ganhador da Palma de Ouro em Cannes no ano passado, objeto de uma controvérsia acalorada. Loach é bastante explícito ao mostrar a truculência que os ingleses fingem que não aconteceu, e alguns o acusaram de reviver desnecessariamente velhos fantasmas – o que é em si uma bobagem. O problema é o zelo socialista arcaico que o diretor ressuscita, aquinhoando culpa pelo conflito aqui e ali (menos para os seus heróicos radicais, como Damien, que, aliás, viriam a inspirar o terror brutal e as atividades criminosas do IRA entre os anos 60 e 90). Esse "tribunal" de Loach, além disso, se vale do passado para julgar o presente. Como ele mesmo declarou, os guerrilheiros irlandeses aqui podem representar os iraquianos sob a ocupação americana, ou os palestinos acuados por Israel – operação que exige manipulações sutis da história passada e da atual. Certamente não é com a contribuição desse tipo de pensamento que, há duas semanas, a Irlanda do Norte anunciou um feito: a instauração de um governo conjunto de católicos e protestantes, num passo que exige enorme disposição para engolir rancores mútuos. Examinar o passado, enfim, nunca é um problema – ao contrário. O problema é insistir que se reescreva o presente à luz dele, como faz Loach em Ventos da Liberdade.

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