A estupenda série
da HBO vai terminar
em sua segunda temporada. Mas seu
legado à televisão deve sobreviver
Isabela Boscov
Fotos divulgação
Atia (Polly Walker), a sobrinha
de César, vela o corpo do tirano assassinado: tensão e
audácia
César está
morto e caído em seu próprio sangue no chão
do Senado; nem seu corpo foi recolhido ainda, e as tortuosas
maquinações que movimentam Roma já estão
em progresso. Brutus e os senadores, que planejaram e realizaram
o assassinato do tirano, dizem ter a seu lado a lei da República,
segundo a qual é inadmissível que um único
homem concentre tanto poder. Marco Antônio e o jovem
Otávio o sobrinho que César fez seu herdeiro
em testamento acenam com outro trunfo, mais volátil,
mas ainda mais poderoso: a massa, que adorava seu líder
e está a um passo de se levantar contra os seus executores.
O capítulo inaugural da segunda temporada da série
Roma, que vai ao ar neste domingo 15 pelo canal
HBO, não se contenta em retomar o enredo do ponto em
que foi abandonado. Ele põe ainda mais fichas na mesa.
O que o programa quer mostrar agora é a perigosa arte
ou ciência de manobrar a plebe sem terminar
na contingência de ser manobrado por ela. Roma
é verdadeiramente uma glória: um programa que
transborda tensão, audácia e brutalidade (o
penúltimo capítulo da primeira temporada, que
tratava de gladiadores, foi uma das coisas mais violentas
já vistas numa tela, pequena ou grande), mas também
erudição e sagacidade.
O dificílimo
desafio a que a série produzida em parceria pela americana
HBO e pela britânica BBC se propõe é seduzir
o espectador para esse mundo e envolvê-lo com seus personagens,
sem no entanto desfigurá-los para torná-los
mais parecidos com o mundo e os homens de hoje. Em 44 a.C.,
ano do assassinato de Júlio César, estava-se
ainda a mais de meio século dos primeiros sinais do
surgimento de uma nova ética, com a qual o cristianismo
começaria a transformar a Antiguidade Clássica.
Está-se numa Roma, aqui, que desconhecia a caridade
e a misericórdia, assim como o pudor sexual (a série,
aliás, é completamente desavergonhada), e que
por muito tempo ainda se divertiria lançando gente
aos leões na arena do Coliseu. O que Roma pede,
enfim, é que a platéia simpatize com um soldado
como o feroz Tito Pullo (Ray Stevenson). Nesse primeiro capítulo,
Pullo protagoniza uma cena deliciosa. Depois de esquartejar
o marido de uma escrava por quem é apaixonado, ele
se senta com ela num cenário pastoral e declara seus
sentimentos: "Sei que nós começamos com o pé
esquerdo, com essa história de eu matar seu marido
e tal. Mas quer se casar comigo?", diz, cheio de esperança.
A moça hesita por um instante, mas, vá lá,
pensa, e sela o romance com um bom beijo. A medida da habilidade
com que a série transpõe seu desafio está
no fato de que, como a escrava, a platéia não
vacila por mais do que um momento antes de perdoar Pullo e
se aliar a ele até porque ele é o último
obstáculo a que seu amigo Lúcio Voreno (Kevin
McKidd), cuja mulher se suicidou antes que ele pudesse matá-la,
mergulhe de vez na insanidade.
Voreno (McKidd) com sua mulher,
que se suicidou antes que ele a matasse: um mundo brutal
As afinidades e
diferenças entre os poderosos e os comuns (que Stevenson
e McKidd representam com brilhantismo) serão ainda
mais importantes nesta segunda temporada. Do velório
régio de César ao enterro acabrunhado da mulher
de Voreno, ou da guerra em que vai se desfazer a aliança
de Marco Antônio e Otávio à ascensão
deste como o primeiro imperador de Roma, a série tem
a partir daqui a ambição de demonstrar como
se cimentou um dos legados mais ambíguos do Império
Romano à posteridade: a idéia de que a massa
é não apenas a fonte de todo o poder, mas ao
mesmo tempo o rei e o peão nos jogos que ele engendra.
A má notícia é que, apesar de a audiência
ter aumentado nesta segunda temporada que acabou de
ser exibida nos Estados Unidos , não haverá
uma terceira série de episódios. A HBO calcula
ter perdido 30 milhões de dólares no negócio
(sem arrependimentos, afirma sua direção). Concluiu
que, como a original, Roma é grande demais para
prosseguir.