Sucesso da jovem guarda,
o bom-moço Ronnie Von
se reinventa na TV e tem suas músicas redescobertas
Lailson Santos
Ronnie nos tempos de psicodelia
(no detalhe) e em sua casa no Morumbi: "Minha estrela
precisava de um polimento. Agora voltou a brilhar"
Na década de 60, o fluminense Ronnie Von era chamado
de "pequeno príncipe". O apelido que teria sido
dado pela apresentadora Hebe Camargo surgiu não
apenas porque ele era rival de Roberto Carlos, o "rei" do
iê-iê-iê, mas também porque era um
rapaz muito bonzinho. Passadas quatro décadas, Ronnie
Von, 62 anos, já não tem uma carreira musical.
O bom-mocismo, no entanto, ainda lhe rende dividendos. De
segunda a sexta, entre as 22 horas e a meia-noite, ele apresenta
na TV Gazeta o programa Todo Seu. O sinal da Gazeta
é transmitido quase que exclusivamente para São
Paulo e a atração registra uma média
de 2 pontos de audiência. Mas não faltam empresas
dispostas a fazer merchandising com Ronnie Von, de tal forma
que ele pode embolsar até 150 000 reais por mês.
O apresentador é considerado um bom garoto-propaganda.
Ele atrai um público formado, sobretudo, por mulheres
de mais de 35 anos das classes A e B. Elas apreciam suas dicas
de etiqueta, sua conversa sobre vinhos e gastronomia, seu
"charme maduro" e sua polidez extrema. Quase rococó.
Ronnie Von tem raízes
portuguesas. Seu nome real é Ronaldo Lindenberg Von
Schilgen Cintra Nogueira. Seu pai era diplomata e trazia para
o filho, do exterior, novidades musicais. Diz a lenda que
a vitrola de Ronnie tocou o primeiro disco dos Beatles a chegar
ao Brasil. "Todo mundo ia lá em casa para ouvir as
obras-primas", conta ele. Foi com a versão de uma música
dos Beatles, Meu Bem, que a carreira do rapaz deslanchou,
em 1966. A gíria não existia na época,
mas durante algum tempo Ronnie Von foi mais "descolado" que
a turma da jovem guarda. Ele ganhou um programa na TV Record,
O Pequeno Mundo de Ronnie Von, cuja banda de apoio
era formada por dois cabeludos e uma moça sardenta
os irmãos Batista e Rita Lee, que em breve fundariam
os Mutantes. Em 1967, o poeta Vinicius de Moraes, também
diplomata e amigo de sua família, lhe ofereceu a canção
Por Você, aproveitada na trilha sonora do filme
Garota de Ipanema. No mesmo ano ele gravou seu segundo
disco, radical e psicodélico, no qual cantava em meio
a ruídos e arranjos do maestro vanguardista Damiano
Cozzella. Foi um desastre comercial, que fez mal a Ronnie
Von. Dali em diante ele se agarrou a um repertório
convencional. No fim dos anos 70, rasgava o coração
em pérolas como Tranquei a Vida e Cachoeira.
Virou brega, e assim ficou.
A estréia de Todo
Seu, dois anos atrás, representou para Ronnie Von
a chegada de uma nova fase de bonança. "O Emerson Fittipaldi
me disse certa vez que a estrela da gente nunca apaga. No
máximo, ela precisa ser polida. A minha voltou a brilhar",
diz ele. Não é só o dinheiro no bolso.
Ronnie Von voltou a desfrutar um certo prestígio nos
meios musicais, por dois motivos. Primeiro, seu programa é
visto como uma boa plataforma para divulgar artistas de música
brasileira. "Eu me apresentei no programa dele e tive uma
resposta ótima. Consegui meu emprego atual", diz a
cantora Ana Cañas, titular do microfone de uma das
casas noturnas mais caras de São Paulo. Além
disso, a gravadora Universal resolveu reeditar os três
discos do cantor. Há todo um time de jovens roqueiros
que regrava as velhas músicas de Ronnie, com espírito
meio jocoso, meio de homenagem. O filho mais novo do apresentador,
por sinal, é roqueiro. Leonardo, de 18 anos, nasceu
no terceiro casamento de Ronnie Von. Sua mãe, Cristina,
é onze anos mais nova que Ronnie e gritava histericamente
pelo "pequeno príncipe" nos tempos do iê-iê-iê.
Segundo ela, o marido não gostou muito de ter filho
guitarrista. "Eles brigaram um pouco. Ronnie só aceitou
a banda depois que Leonardo prometeu fazer uma faculdade."
Leonardo prefere o Kiss aos discos do pai.